A vila hippie Trancoso
Antes de dizer qualquer coisa sobre essa pequena e charmosa vila no sul da Bahia, preciso confessar: Trancoso está longe de ser meu destino de praia preferido. Em janeiro de 2010, época em que que visitei o vilarejo, o lugar era a praia mais cobiçada do momento. Pelo menos entre meus amigos bicho-grilo-alternativo da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Os relatos eram sempre muito positivos e as fotos incríveis. Argumentos suficientes para me convencer a incluir Trancoso no roteiro do meu primeiro mochilão.
E, para falar a verdade, não posso dizer que os relatos estavam errados. Ruas de terra, bares e restaurantes legais, hippies, praias lindas, mais hippies, artesanatos, festas e baladas. Tudo estava lá, exatamente como me falaram que estaria. Então, qual foi o problema? O problema é que eu achei tudo maquiado, produzido para turista ver, artificial e fora da realidade de boa parte dos turistas brasileiros. Podem começar a me tacar pedras, amantes da vila.
Quando você escuta alguém dizer que um lugar é frequentado pela galera tilelê, o que você espera? Um monte de maluco-beleza com dread no cabelo, vendendo artesanato, gente de boa, sem muito consumismo, sem se importar com etiqueta ou coisas de grife. Certo? Eu já havia visitado outros refúgios neo hippies antes. Milho Verde (MG) e São Jorge (GO) são bons exemplos. Os dois se encaixaram mais ou menos nessa descrição. Acontece que em Trancoso não foi isso que eu vi.
Minha antipatia começou quando eu fui procurar um lugar para dormir. Enquanto em Arraial eu paguei bem-gastos R$60 por um quarto de casal com café da manhã e vista para o mar, em Trancoso quiseram me cobrar R$500 para dormir em um colchão na sala de um hippie que largou tudo e abriu um atelier por lá. O atelier era até muito bonito, todo decorado com fadas, árvores e duendes. O tal hippie vendia artesanato e roupas que ele mesmo fazia. Agarrei a etiqueta de um vestido (desses que meninas bicho-grilo usam) para saber o preço, por curiosidade. NOVECENTOS REAIS. Podem vasculhar meu armário inteiro. Não existe nada, nada, ali que custou esse preço. Nem mesmo meu vestido de formatura, que comprei em liquidação. Fiquei imaginando quem pagaria tão caro por um vestidinho de retalhos. Hippies de grife, talvez? Agradeci o moço e paguei R$120 para armar uma barraca no quintal de outra casa.
Na praia, meu choque não foi diferente. A consumação mínima para se sentar em alguns quiosques chegava a R$700. Claro que existiam outros lugares mais baratos e razoáveis, e foram nesses que ficamos. A cerveja (eu decido se um lugar é caro ou barato pelo valor da cerveja) chegava a custar R$11 a garrafa. Talvez hoje isso não seja um preço tão absurdo. É possível encontrar valores semelhantes em bares bacanudos de São Paulo. Mas vamos lembrar que isso foi há três anos, antes do aumento de impostos sobre o produto. Na época, o máximo que eu aceitava pagar eram R$6, quando muito.
Saindo de Trancoso, eu fiquei com duas impressões: A primeira é que eu teria comido, bebido, dormido e me divertido muito melhor se não tivesse saído de Arraial d’Ajuda. A segunda é que o turismo daquele lugar não era direcionado para mim. Nem para o público brasileiro.
O que há de bom em Trancoso
O quadrado. Se algum dia eu for voltar lá, vai ser só por causa do quadrado. O lugar é basicamente uma praça em frente à igrejinha e também serve de campinho de futebol. Cercado por árvores e casinhas coloridas que funcionam como lojas de artesanato, bares e restaurantes, o lugar é apenas iluminado pelas velas e as poucas luzes dos estabelecimentos. Isso dá um efeito incrível, tanto no local em si quanto na paisagem. Caminhamos um pouco para longe dos bares e chegamos em um murinho de pedra onde acabava a praça. Estava tão escuro que só conseguíamos ouvir o mar e, ao olhar para cima, me deparei com um dos céus mais bonitos e cheios de estrelas que já presenciei. Foi incrível. Nesse momento, eu entendi um pouco porque as pessoas gostam tanto do lugar e fiquei muito feliz de ir embora da cidade com pelo menos uma recordação que ia valer a pena guardar para o resto da vida. O quadrado, as luzes de vela e o céu. Essas são as minhas lembranças favoritas de Trancoso.
PS: Como é de se esperar, jantar ali é caro e eu preferi restaurantes fora dessa área turística, frequentados por locais. Só descobri esses lugares depois de muito perambular pela cidade, mas foi em um lugar assim que eu consegui pagar R$3 pela cerveja (de marca duvidosa).
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Ixi Natália, a Trancoso dos Hippies já se foi há muitos anos. Fui lá a primeira vez em 99, acho. Mas era outra vibe.Os frequentadores da vila eram outros. Caro na época era Arraial. Hoje é status dizer que vai para Trancoso. Infelizmente desconfio que essa paixão geral pela vila seja exatamente por causa dos preços e o fato de só ir quem pode pagar e não pela beleza. Toda vez que vou ao Brasil passo por Trancoso pq minha sogra mora lá perto, temos amigos que moram na vila também, mas da última vez fiquei bem mal humorada com os preços. Nunca vi bicho grilo beber champagne e pagar 30 reais num self service. Enfim, Caraíva é a nova Trancoso, eu acho!
Também notei muito essa coisa de status por lá. Não é atoa que o lugar é frequentado por celebridades né? Mas o que me irritou é que a imagem vendida de lá é outra. Enfim, é um lugar muito bonito, uma pena que os preços sejam tão irreais. Eu me lembro que eu parei de sentir “Nossa, tô num lugar mais caro que meu orçamento permite” e comecei a sentir “Ok, agora já tão querendo me fazer de otária com esses preços” rsrs.
Abraços!