Tilcara, simpática vila nos Andes argentinos

Tilcara, simpática vila nos Andes argentinos

Na língua quechua, Pucará significa “fortaleza”. Um nome apropriado para um dos sítios arqueológicos mais importantes da Argentina, que fica em Tilcara, uma vila no norte do país. O Pucará de Tilcará foi erguido pelo povo Omaguaca, que habitou a região a partir do século 12.

Estrategicamente localizado no alto de um morro, Pucará resistiu a ataques de invasores durante séculos, até que os incas finalmente conseguiram conquistar (e devastar) o local, no século 15. Pucará caiu no esquecimento. Não foi redescoberta nem mesmo quando os espanhóis venceram os incas e fundaram Tilcara, a poucos metros da antiga fortaleza indígena.

Pucará só voltou ao mapa no século 20, quando o arqueólogo Juan Bautista Ambrosetti passou por lá. Com isso, Tilcara se tornou um importante centro turístico da região. Como já dissemos em outro post, Tilcara é a melhor base para explorar a Quebrada de Humahuaca, uma região cheia de montanhas coloridas e vilas andinas, no estado argentino do Jujuy.

Veja também: Onde ficar na Quebrada de Humahuaca

Ruínas de Pucará

Ruínas de Pucará

Assim que pisamos em Tilcara percebemos isso. Chegamos até lá depois de pegar um ônibus em Purmamarca, outra importante parada no roteiro turístico da Quebrada de Humahuaca. Mas se Purmamarca se mostrou uma vila com poucas opções de hotéis e restaurantes, Tilcara está cheia deles.

Junte isso às casinhas coloridas da cidade (com montanhas no fundo, de cartão-postal) e fica impossível não se apaixonar por Tilcara. Nós ficamos seis noites na cidade, aproveitando não só os restaurantes e atrações de lá, mas também fazendo viagens curtas para outras cidades da região. Tudo de ônibus.

Ruas de Tilcara

O que fazer em Tilcara

Tilcara tem duas atrações principais. Visitar o Pucará, hoje convertido numa espécie de passeio arqueológico à la Machu Picchu, é o mais concorrido deles. Para fazer o mesmo, basta sair do centro de Tilcara e andar por cerca de 20 minutos – as placas te indicarão o caminho. Depois de subir um morro e atravessar uma ponte de ferro, Pucará aparecerá para você. A entrada custa 100 pesos, o que dá em torno de R$ 20, dependendo da cotação da moeda argentina.

Tilcara, Argentina

Além de visitar um jardim botânico, a visita tem uma trilha até o sítio arqueológico. Você vai ver ruínas de casas e outros espaços construídos pelo povo Omaguaca.

Pucará de Tilcara

Destaque também para os cardones, espécie de cacto gigante que ocupa a paisagem. Segundo a lenda, Pucará tem um cardone para cada pessoa que já viveu naquela vila.

Cardones de Pucará

Tilcara, na Argentina

A parte ruim fica por conta do trabalho porco feito pelos arqueólogos e especialistas que trabalharam na restauração do lugar. A presença do falso histórico, uma espécie de reconstrução das ruínas de forma a mostrar como era a região durante seu auge, é o caminho normal em muitos sítios arqueológicos desses tipo, incluindo na conta Machu Picchu. Mas em Pucará o trabalho foi além disso: algum espertalhão deu a ideia de construir um monumento em homenagem aos arqueólogos que trabalharam na redescoberta do sítio.

“Já sei! Bora construir uma pirâmide lá no alto, no principal espaço do Pucará?”

“Beleza”, disso o outro. “Parece uma boa ideia”.

Não era. Para construir a tal pirâmide – que não tem nada a ver com o estilo de construção do povo Omaguaca – os restauradores destruíram parte das ruínas que estavam ali. Trabalho bom, né?

Pucará, em Tilcara

Ao chegar ao monumento faraônico dos restauradores, ignore aquilo por alguns instantes e aproveite a vista do local. Vai ser fácil entender o motivo para os antigos habitantes de Pucará terem escolhido aquele local para sediar uma fortaleza.

A outra grande atração de Tilcara é uma cachoeira. A Garganta del Diablo fica a cerca de três quilômetros do centro da vila, sendo uma tradicional rota de trilhas. Como não somos tão fãs de cachoeira assim, preferimos aproveitar nosso tempo nos restaurantes e bares de Tilcara. Não me arrependi.

Tilcara, Argentina

Há várias opções de restaurantes na praça central e nas ruas ao redor. Por falar na praça, toda noite costuma ter uma feira de artesanato por ali, ótima opção para quem deseja comprar lembrancinhas e presentes andinos.

Praça de Tilcara, Argentina

Caiu a noite? Corra para uma Peña, que nada mais é que um bar. Mas um bar com música ao vivo e típica dos Andes, um dos programas mais divertidos que você pode fazer no norte da Argentina. Nós fomos na Peña de Chuspita e adoramos. Outra opção é a Peña de Carlitos, que fica numa das esquinas da praça.

Veja também: Os encantos da culinária andina

A maldição de Tilcara

Eu queria te dizer que Tilcara é mundialmente famosa por causa do Pucará. Ou que a fama vem da simpatia do lugar. Mas a verdade é que Tilcara só é conhecida mundo afora por causa de uma maldição.

Tudo começou em 1986, quando o técnico Carlos Billardo resolveu levar a seleção da Argentina para treinar em Tilcara. Além de fugir do assédio de torcedores, Tilcara oferecia uma altitude parecida com a da Cidade do México, onde a Argentina iria jogar algumas partidas da Copa.

Ao conversar com o povo de Tilcara,  Carlos Billardo descobriu que a Virgen de Copacabana del Abra de Punta Corral, cuja imagem guardava a igreja da cidade, era poderosa. Pelo sim e pelo não, Billardo levou a seleção lá, colocou todo mundo de joelhos (Maradona incluído) e pediu pela vitória na Copa do Mundo. Como não há pedido sem promessa, ele teria prometido que, em caso de vitória, voltaria em Tilcara, junto com toda a seleção e a taça do torneio.

Tilcara, Argentina

A Argentina ganhou a Copa, com uma mãozinha de Deus. Mas a seleção não voltou em Tilcara. Desde então, a Argentina já perdeu sete Copas do Mundo, sendo duas na final: em 1990 e em 2014.

Este ano, pouco antes da Copa do Mundo do Brasil, Billardo disse que toda essa história era um mito. Ele diz que a seleção de fato pediu para a Virgem ajudar, mas não prometeu voltar lá. O povo de Tilcara não acredita e garante: a Argentina não será campeã do mundo enquanto toda a equipe de 86 permanecer sem pagar a promessa. Há maldições quem vêm para o bem, né? 😉

 

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

16 comentários em Tilcara, simpática vila nos Andes argentinos

  1. Olá,
    Sou estudante de Geologia aqui no RS. Em outubro estarei indo com mais 38 amigos para uma super excursão aos andes e Tilcara será uma de nossas paradas. Existe algum tipo de camping por lá? esses hostels possuem uma estrutura para receber esse número de hospedes?

    Abraço e parabéns pelo Blog!

  2. Oi Rafael,sairei de san Pedro do Atacama e estou na dúvida se vou para Purmamarca > tilcara >Purmamarca ou se vou direto para Tilcara e de lá purmamarca. Sabe se tem algum ônibus que faça essas linhas ? E qual o valor aproximado? Muito obrigada;)

    • Tem uma linha que liga Tilcara e Purmamarca. É uma viagem rápida, coisa de meia hora. Eu preferi me hospedar em Tilcara e fazer Purmamarca de bate-volta.

      Abraço.

  3. Gente passei a virada de ano em Tilcara, fizemos uma rota de carro passando também pelo Chile e Bolívia. Os lugares é muito surreais, parecem de outro mundo, um mais lindo que o outro. E deixa eu falar, não é que perdemos 2 pneus e ficamos presos no meio do deserto do Atacama? hahaha Loucura né? Mas ainda bem que deu tudo certo e encontramos pessoas super gente finas que nos ajudaram. Estou terminando os posts nossa aventura de carro pela América, se alguém quiser conferir o blog é: https://iniciativaaventureiros.wordpress.com/

    Abraços Pessoal.

  4. Olá, pessoal! Em outubro/2015, Estive viajando de moto com meu filho. O destino era Machu Picchu, mas sofri um acidente no alto da Cordilheira dos Andes e tivemos que abortar a viagem.
    Fiquei quatro dias em Purmamarca. É uma cidade pequeninha, sem calçamento, dna Andino mesmo. Mas é fascinante ficar ali. Só estando lá para descobri-la.
    Alguém perguntou aqui no blog sobre hospedagem. Foi antes da desvalorização recente do peso argentino, portanto estava muito caro. Para se ter ideia,um quarto para dois em casa de família muito simples, custava 600 pesos a diária. Indico o Hostal Posta de Purmamarca, um bom hotel. A diária para dois custa 1.300 pesos. Existe um único quarto, o 10, como não tem vista, me fizeram por 700 pesos. Muito bom, debaixo do Cerro.
    Bons restaurantes, comida barata.
    Se alguém quiser detalhes da andança, favor acessar o blog capitaesmg.webs.com
    Espero ter ajudado.
    Mauricio Lages – BH

    • Obrigada pela contribuição Mauricio. Não fiquei em Purmamarca, mas em Tilcara dava para encontrar pousadas bem baratas, era só procurar um pouco. Buscar guest houses é uma boa forma de economizar.

  5. Muito legais as dicas de vocês pro norte argentino, é um pouco difícil de encontrar pela internet dicas tão claras 🙂 Por isso tenho umas perguntinhas, pois pretendo visitar o norte da Argentina em Setembro pra chegar até o Atacama: lendo por aqui percebi que as melhores cidades são mesmo Salta e Tilcara, mas eu consigo ir de Tilcara já pra cruzar a fronteira com o Chile ou eu teria de ir até Jujuy e de lá pegar um ônibus? Vocês saberiam? Estou tentando fazer um orçamento, mas está um pouco complicado também. Na cidade tem opções de casas de câmbio ou caixas eletrônicos? E uma última, mas não menos importante, pois é a primeira viagem que faço sozinha: as cidades são seguras pra se andar a noite sozinha?

    • Oi, Aline. Que bom que as informações são úteis. 🙂

      Os ônibus para São Pedro do Atacama partem de Salta costumam passar por Jujuy. Tilcara é uma cidade bem pequena mesmo. Você teria que ir até Jujuy ou Salta para pegar o ônibus.

      A viagem é realizada por três empresas: Andesmar, Geminis e Pullman. Você pode ter que ir até Calama, também no Chile, e de lá pegar outro ônibus para São Pedro do Atacama.

      Abraço.

  6. Oi, Rafael! Eu e meu esposo visitaremos essa região em julho. Pretendemos montar duas bases: Salta e Tilcara ou Purmamarca. Você sabe nos dizer se conseguíriamos hospedagem no mesmo dia em que chegarmos, apesar de ser alta estação? Pergunto isso porque vai que a gente se encante mais por uma cidade do que pela outra….

    Abraço, estou curtindo muito as narrativas de vocês 🙂

    • Esqueci de dizer…já temos uma reserva em Salta. Nossa dúvida é se ficamos em Purmamarca ou Tilcara e se conseguiríamos lugar pra dormir sem fazer reserva antecipada como fizemos em Salta.

  7. Boa tarde Rafael!! Estou indo (sozinha) para região de Salta-Jujuy em abril e gostaria de saber se vcs viram agências de turismo que faziam os passeios pra Salinas Grandes e pra Purmamarca a partir de Tilcara e também de San Salvador de Jujuy.

    • Vi sim, Jéssica. Tanto as que levam de carro quanto passeios de cavalo ou com lhamas. Só não sei te falar os preços e se são bem organizados, mas a distância é bem menor do que a partir de Salta.

      Dá uma olhada aqui: http://www.caravanadellamas.com.ar/?page_id=15

      Também dá pra ir de ônibus público, a partir de Purmamarca, ou para fazer um tour a partir de Jujuy, que é bem mais próxima que Salta.

      Abraço.

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