Histórias de uma motorista roda-dura que viaja sozinha

Histórias de uma motorista roda-dura que viaja sozinha

Ok, pé na embreagem, marcha à ré engatada e uma dúvida que sempre paira na minha cabeça. Para que lado eu preciso virar o volante? Foram algumas tentativas, um vídeo no youtube, uma crise de nervos, uma quase batida e um estranho que parou para ver a cena – mas eu fiz ele entrar no carro e fazer a manobra para mim. No final, ele disse, “ô menina, você sabe dirigir, só está muito nervosa”.

De fato, eu estava nervosa. Para mim, dirigir é exercer um controle extremo de todos os meus nervos e medos. Eu já até contei minha história de como eu desenvolvi meu medo de dirigir e como tenho buscado superá-lo. Porém, sabendo ou não dirigir direito, alugar um carro muitas vezes é a única opção para certos roteiros de viagem, principalmente quando estamos sozinhos.

A dúvida da ré e do voltante foi superada depois desse desespero. Eu encontrei um estacionamento vazio na parada seguinte e treinei sozinha até entender de vez a situação. Não solucionei, porém, meu problema com estacionar o carro.

Só consigo parar naquelas vagas diagonais. Isso quer dizer que nessas minhas aventuras sozinha pelo Alentejo, tive que pagar quase sete euros, na primeira noite, para deixar o carro num estacionamento, porque as vagas na rua eram impossíveis para mim. O drama, porém, não parou por aí: eu inventei de parar de ré e isso foi antes dos dois casos mencionados acima. Resultado: eu, 20 minutos, 35 tentativas e muitos olhares incrédulos depois, o carro estava parado.

Outra questão que a falta de experiência causa é a mudança de marcha. Dizem os profetas que o barulho do carro te informa quando diabos você tem que trocar a marcha. Pois surda devo ser – além, claro, de inexperiente – porque o carro precisa literalmente berrar (ou modernamente me informar no painel) para que eu troque da segunda para terceira, quarta, etc.

Velocidade? Eu teria batido palmas para mim mesma a primeira vez na vida que eu ultrapassei um carro, mas infelizmente dirigir envolve não tirar as mãos do volante. Além disso, agora, finalmente, na minha terceira vez dirigindo sozinha, tive coragem de ligar o rádio. Antes, eu mesma cantava para mim, de forma a me distrair.

Mas, sem dúvida alguma, a coisa que eu mais acho horrível em dirigir é a impossibilidade de apreciar a paisagem. E como todo o processo pode ser estressante. Ver um castelo no topo da montanha e não poder parar para olhar e tirar fotos. E ainda ter que subir todas aquelas ladeiras até o dito castelo – subida e curva são coisas que me assustam bastante. Ainda demora algum tempo para eu entender que sou eu quem controla o carro com o volante e não o contrário.

Porém, a única vez que eu quis chorar de frustração mesmo foi quando, pela quinta vez, a voz do GPS – não fico vendo a tela – me mandou fazer o mesmo caminho que estava impedido, mesmo eu tendo mudado de rota, tentado pegar o desvio sem sinalização, entrado num caminho esquisito, seguido diversas vezes por todas as opções da rotatória e a diaba sempre me mandando seguir pela direção leste e para a estrada fechada. Mas sentar e chorar não ia me levar de volta para casa, só eu mesmo e minhas habilidades automobilísticas iriam. Então lá fui eu, mais uma vez, pedir ajuda a uma pessoa de carne e osso para me indicar o caminho certo.

Quando cheguei no meu destino final e fui abastecer o carro, uma última aventura. É que aqui em Portugal você abastece e depois tem que descer do carro e ir lá na loja de conveniência pagar – não, as pessoas não fogem sem pagar. Então abasteci, tirei o carro da bomba para liberar para o próximo da fila, parei o carro numa vaga lateral e fui lá pagar.

Na volta, quem disse que o carro ligava? A chave simplesmente não girava na ignição. Tentei de todas as formas enquanto pensava: putaquepariu, putaquepariu, putaquepariu. Certamente eu tinha quebrado o carro. Será que eu tinha colocado o combustível errado? Será que ele estava se revoltando com tantos maus-tratos sofridos nos últimos dias?

Como ninguém que eu pedi socorro me respondeu, lá fui eu perguntar ao São Google o que diabos eu podia fazer. Descobri que era só um caso de volante travado – meu namorado adivinhou isso às risadas meia hora depois, quando leu a mensagem de desespero que mandei. Destravei o volante, devolvi o carro e dei um aleluia de estar sã e salva. E pronta para a próxima aventura quando eu tiver que dirigir novamente.

Sou jornalista, tenho 29 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite “morar no aeroporto”. Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

10 comentários em Histórias de uma motorista roda-dura que viaja sozinha

  1. Sofri horrores para dirigir, e confesso que ainda não é uma das minhas atividades preferidas. Sou como vc, prefiro ser passageira e observar tudo que eu quero pelo caminho! Fujo de balizas! Estresse puro.
    Tirei CNH aos 19, mas só fui dirigir a 2 anos atrás com 25 ao comprar meu próprio carro. Confesso que uso pouco e sempre tentando fugir das ciladas da direção!
    Hahahahaha não bati ainda, mas já passei pelo “quase” várias vezes.

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