“Ni una menos”: As argentinas na luta contra a violência de gênero

“Ni una menos”: As argentinas na luta contra a violência de gênero

“É muito difícil ser mulher neste mundo. Temos que ser muito valentes”. Essa foi uma das primeiras frases que Zuleika me disse. “Todas as vezes que eu me lembro das coisas que poderiam ter acontecido comigo. De todos os trens que eu peguei durante a noite, de voltar para casa sozinha. Estar viva é quase um milagre. Todas nós temos uma história dessas para contar”, ela seguiu depois de dar um grande gole no capuccino que pedimos em uma cafeteria, na entrada do Bairro Chinês de Buenos Aires. Eu concordei com um aceno de cabeça. “Todas nós temos alguma história”. E me lembrei do cara que se masturbava ao meu lado no ponto de ônibus. Da vez que me fecharam em uma loja no meio de um mercado enorme e barulhento. De todas as vezes que tocaram meu corpo sem permissão. E só mesmo a sorte parece explicar o que separa minha história das milhares de outras que terminaram em tragédia.

Faz um ano que a atriz argentina Zuleika Esnal dedica boas horas de seu dia a escutar essas histórias. São mulheres de diversas partes, com formações distintas, de várias idades e provenientes todas as classes sociais. Em comum, apenas as marcas da violência de gênero. Procuram Zuleika porque não sabem a quem recorrer e precisam falar. “Acho que contar o que aconteceu faz parte do processo de cura”, observa. E ela escuta tudo com atenção. Depois, transforma essas histórias em pequenos relatos que publica em sua página de Facebook No Me Calmo Nada, na qual espera conseguir ajudar outras vítimas a se sentirem menos sozinhas.

Ni Una Menos - Buenos Aires

Foto: Paulakindsvater (Own work) [CC BY-SA 4.0], via Wikimedia Commons

A página ganhou destaque em junho de 2016, quando a atriz publicou um texto sobre uma menina de 16 anos que foi estuprada por 30 homens no Rio de Janeiro. Na época, a publicação recebeu mais de 12 mil reações e 36 mil compartilhamentos. Desde então, a página que antes contava com pouco mais de 300 seguidores e servia para publicar pequenos textos escritos por ela, chegou aos 54 mil usuários e se transformou em um verdadeiro espaço de sororidade entre vítimas dos mais variados tipos de violência de gênero. Zuleika conta que os relatos começaram a chegar de forma espontânea, sem que ela pedisse por eles. “Elas leram o que eu escrevi e sentiram que podiam me procurar para contar sua história”. Ela já perdeu a conta de quantos contatos recebeu durante esse tempo: “Mais de dois mil, seguro. A cada dia chegam pelo menos 50”. E ela faz questão de responder a todas.

Recentemente, ela articulou em sua página uma rede com outras mulheres dispostas a ajudar as vítimas de violência de gênero. Cada uma oferecendo um tipo de auxílio ou serviço que ajudem a recuperar a autoestima, superar o trauma e até mesmo a aprender uma nova profissão para que essas mulheres estejam menos vulneráveis em situações de abuso. Entre as que se ofereceram para ajudar estão médicas, psicólogas, costureiras, profissionais de beleza e instrutoras de yoga.

Embora tudo tenha começado por um caso brasileiro, a página de Zuleika se tornou viral em um momento em que a Argentina passa a erguer vozes para mudar uma realidade tenebrosa. De acordo com o coletivo Ni Una Menos, que luta contra a violência machista no país, até 2016, um caso de feminicídio ocorre a cada 30 horas na Argentina. No entanto, levantamentos recentes demonstram que essa cifra pode ter subido para um assassinato a cada 18 horas em 2017, não se sabe se por um aumento real ou porque as mulheres começam a se sentir mais à vontade para denunciar.

“Nos queremos vivas”

Quem passou pela Plaza de Mayo a caminho da tradicional Feira de San Telmo, no último dia 04 de junho, ainda podia sentir o tamanho da movimentação que tomou as ruas do centro de Buenos Aires no dia anterior. As paredes brancas do Cabildo estampavam os principais gritos de guerra usados pelas feministas do país. “Nos queremos vivas”, “Disculpen las molestias, pero nos están matando” y “Yo elijo como me visto y con quien me desvisto” eram algumas das frases escritas nas paredes, impressas nos panfletos e nas faixas penduradas em frente à Casa Rosada.

Ni una Menos - Buenos Aires

Foto: Rodrigo Paredes (CC BY 2.0)

A marcha do dia 03 de junho marcou os dois anos do Ni Una Menos, que em tão pouco tempo já se consagrou como um dos principais grupos feministas do país. Embora o fim da violência machista fosse a principal pauta do protesto, as manifestantes também aproveitaram para cobrar do governo políticas públicas mais eficientes de apoio às vítimas, para pedir o direito ao aborto legal e seguro e ao parto humanizado.

Criado em 2015, após outro caso brutal de feminicídio – o da adolescente Chiara Páez, 14 anos, grávida, assassinada pelo namorado de 16 e enterrada no quintal dos avós dele, com ajuda dos pais -, o movimento ganhou destaque na mídia no ano seguinte, quando um segundo caso –  o do assassinato de Lúcia Perez, 16 anos, que foi drogada, estuprada  e empalada com um objeto pontiagudo por dois homens que abandonaram seu corpo em frente a um centro de saúde – motivou a convocação da primeira greve de mulheres da história do país. A adesão foi tão alta que até mesmo os órgãos do governo dispensaram suas funcionárias para participarem do ato.

O impacto da mobilização foi tão grande que o lema do Ni Una Menos acabou se espalhando por outros países da América Latina e suas passeatas serviram de inspiração para outros grupos que advogam pelo fim da violência machista. O movimento não só ajudou a jogar mais luz sobre o problema na própria Argentina, mas acabou colocando o país em uma posição de destaque na luta em uma das regiões do planeta que mais matam mulheres pelo simples fato de serem mulheres.

Ni Una Menos - Argentina

Foto: Shutterstock

De acordo com o Observatório de Igualdade de Gênero da América Latina e do Caribe (OIG), das Nações Unidas, 12 mulheres são assassinadas todos os dias na região. O número poderia ser maior se tivessem considerado o Brasil, que sozinho mata 13 mulheres a cada 24 horas. Mas o país, quinto no ranking mundial de feminicídio – atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia -, ganhou um relatório próprio.

A história da mobilização feminista na Argentina é antiga, mas graças a esses e outros movimentos tem ganhado força nos últimos anos. Começou em 1900, com o movimento sufragista, e teve um período crítico durante a ditadura militar dos anos 1970 e 1980, momento no qual as mulheres desempenharam um importante papel de resistência. Resistência que tem, ainda hoje, a luta das Mães de Maio para encontrar seus filhos sequestrados pelo governo como um de seus maiores símbolos. Elas tiveram um voz essencial na queda do regime, ao denunciarem os abusos de direitos humanos cometidos por ele. Ainda hoje, essas mulheres se encontram semanalmente nos movimentos Mães da Praça de Maio e Avós da Praça de Maio.

Leia também: A história e luta das Mães da Praça de Maio

Hoje, encontros anuais de feministas reúnem mais de 50 mil mulheres e a pressão delas conseguiu aprovar leis como a de proteção total à mulher vítima de violência, que prevê diversas ações para garantir assistência às mulheres nesse tipo de situação. Além disso, campanhas pela descriminalização do aborto e pelo fim do assédio nos espaços públicos, com a hashtag #‎ParemosElAcosoCallejero, são outras iniciativas que ganharam as ruas e as redes e ajudam a transformar a cada dia a realidade de um país ainda muito patriarcal e conservador.

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma.

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