Você já se perguntou como era mochilar há 15 anos?

Você já se perguntou como era mochilar há 15 anos?

A autora deste post é a Ana Luiza Ogg Strauss, que comanda o blog “Viagem com Crianças por Ases a Bordo“. Junto com seu marido, André Strauss, autor do blog “Viagem com Milhas“, criaram o canal no YouTube “Ases a Bordo” para incentivar famílias a viajarem com seus filhos.

Se você está aí, se ensaiando para cair na estrada, com mil e uma dúvidas se faz ou não seu mochilão, este post é especial para você. Vou te provar que mochilar hoje em dia é molezinha. 

Talvez eu seja 10 anos mais velha do que você, ou quem sabe 20. Cheguei aos quarenta, mas não me sinto nada “velha”, acho que ainda tenho muita estrada pela frente. Se a expectativa de vida das mulheres hoje é de 80 anos, estou na metade. E, olhando para trás, tenho muito orgulho da minha jornada até aqui.

Arrozal em Bali

Se eu pudesse entrar num DeLorean (ixi… talvez você nem saiba o que é um DeLorean), voltaria 15 anos. Marcaria 2002 no painel, o ano do meu primeiro mochilão. O ano em que tudo começou: Lá estava eu, morando na Austrália, fazendo um curso de Cinema e TV. Confesso que queria estar em Los Angeles ou Nova York, mas o dólar tinha subido (sim, não é de hoje que o dólar sobe de uma hora pra outra) e por isso minha rota mudou. Naquela época, a Austrália não estava na moda e meus pais ficaram de cabelo em pé, afinal, “era do outro lado do mundo!”.

Para pagar os estudos, o aluguel e as contas, eu trabalhava nos famosos subempregos. Fui cleaner, kitchen hand e delivery. Eu e meu marido, que naquela época era meu namorado, sempre passávamos por uma agência de viagens, que ficava no caminho do trabalho, mas nunca entrávamos. Nosso salário já tinha destino.

Até o dia em que vimos um cartaz na vitrine: “Round the World Tickets on sale“. Naquela altura eu já até dominava as gírias, então entramos para perguntar “What the heck is a “Round the World Ticket?” (sendo educados, claro!). Na parede, um mapa-múndi gigante, cheio de bolinhas marcando os destinos que os agentes conheciam, fez meus olhinhos brilharem. O agente, muito simpático, nos explicou tim tim por tim tim.

Foi quando descobri que, pelo mesmo preço de uma passagem Austrália – Brasil – Austrália, eu poderia dar uma volta no mundo. Sim, uma volta no mundo básica, além da chance de dar uma passadinha no Brasil e matar as saudades do guaraná, do churrasco, do doce de leite e da família. Voltamos para casa com a cabeça a mil! Já existia internet naquela época (êee… também não sou tão velha assim!), mas comprar passagem online não era nada comum. Você tinha que confiar no agente e rezar pra que ele fosse “smart enough” para encontrar a melhor passagem, pelo menor preço.

Com o nosso RTW ticket poderíamos fazer cinco paradas em quatro continentes diferentes. E, após longas horas sentados nos banquinhos duros da Students Flight, quebrando a cabeça com datas, destinos e rotas que funcionassem, finalmente chegamos a um itinerário: Brisbane (Austrália) –  Auckland (Nova Zelândia) – São Paulo (Brasil) – Londres (Inglaterra) – Singapura (Singapura) – Bali (Indonésia) – Sydney (Austrália)…. ufa! E ainda desbravaríamos a Europa de ônibus e trem, incluindo no roteiro: Paris (França), Amsterdam (Holanda), Roma e Veneza (Itália), Budapeste e Sopron (Hungria), Viena (Áustria), Madrid e Barcelona (Espanha) e Lisboa (Portugal).

Casal em Barcelona

Nossa aventura duraria quatro meses, de dezembro a março, matando um mês de aula. Sorry, mãe e pai, eu menti, mas foi para o bem de todos. Tudo muito lindo e mágico. Mas, espera aí. Isso aconteceu há 15 anos, não parece tanto. É verdade, mas se você pensar bem, temos um abismo tecnológico entre o que tínhamos disponível naquela época e o que temos hoje.

Você não tinha acesso a toda e qualquer informação em uma tela touch screen portátil que cabe dentro do seu bolso. Levamos um calhamaço de folhas impressas com informações, vouchers, endereços e mapas. Vários hostels não tinham nem endereço de email, nem mesmo do finado Hotmail.

Compramos três guias de viagem, que mais pareciam tijolos de tão pesados, para levar na mochila. Minha vontade era de jogá-los fora a cada etapa cumprida. Mas a certeza de que as informações contidas neles eram super valiosas me fez carregá-los até o destino final (sim, meu caro… blogs de viagem com relatos detalhadíssimos de pessoas descoladas, como este que você está lendo neste exato momento, era como água no deserto).

A mochila, deixamos para comprar no Brasil mesmo, mais baratinha, em real. Mas pensa você que existiam as milhares de opções que se tem hoje? Lojas online, que entregam em até cinco dias úteis, sem cobrar o frete? Sonho meu! Só encontramos duas lojas físicas, que vendiam praticamente os mesmos modelos de mochilas. 

Florença, Ponte Vecchio

Primeira etapa da viagem foi cumprida. Nova Zelândia foi espetacular, mesmo tendo que subir dois lances de escada com malas de rodinha no hostel. E o Brasil? Maravilhoso! Especialmente para quem estava homesick já há um ano fora da terrinha. Mas a aventura nos chamava e novamente tivemos uma despedida chorosa no aeroporto. Meus pais, que antes estavam de cabelo em pé com a Austrália, ficaram quase sem cabelo, afinal, estávamos partindo pelo mundo.

Tínhamos celular, mas o que pagaríamos de roaming era tão absurdo que ele ficou em casa. Comprávamos cartões telefônicos com limite de tempo. Você discava um número 0800 de um orelhão (tá bom, agora você deve estar se perguntando “o quê?”) e fornecia para uma telefonista um código que estava atrás do cartão.

Calling Card

Chegamos no velho mundo. Era muito diferente, queríamos tirar foto de tudo que víamos, mas isso também era complicado. A recém lançada câmera digital de 1 mega pixel era muito cara. Como tive aulas de fotografia no curso de cinema, levei a minha SRL Pentax linda e pesada para praticar.

Na mochila, negativos de 36 poses, ou fotos, para os menores de 30 anos. Sim, você tinha que pensar muito antes de tirar uma fotinha qualquer. Nem dava pra fazer de vários ângulos. Filtro, como rola hoje no Instagram, era aquele vidrinho colocado na frente da lente. Mas a pior parte era só ver que foto estava uma caca depois de revelar, após meses.

Lisboa, mochilão

Aliás, compartilhar fotos do nosso prato esquisito em Cingapura, ou fazer um Snap pra mostrar as coisas horrorosas que eles comem lá, era inimaginável. Gravamos vários vídeos, mas eles ficavam nas fitas mini-dv (será que preciso explicar o que eram fitas?). Nosso sonho era montar um programa de TV na volta, mas também não existia YouTube naquela época.

Confesso que a impossibilidade de se comunicar a qualquer momento era o que mais nos dava medo. No final da viagem, passamos um perrengue em Bali. Combinamos um passeio ao redor da ilha toda com um senhorzinho. Na era pré-Facebook ou pré-WhatsApp não dava pra perguntar quem poderia indicar um transporte seguro nos lugares, muito menos ler uma review no TripAdvisor. Você escolhia na sorte. Olhava a cara do motorista e falava com ele, marcava o passeio na fé, só se o santo batesse.

Acontece que o senhorzinho simpático, que falava um inglês mais ou menos, parecia ser do bem e ainda tinha uma van ajeitadinha, no dia marcado, deu pra trás. Trouxe um amigo para nos levar. Um carinha com uma van podre, que não falava uma palavra em inglês e tinha uma cara de serial killer. Aí ferrou. E eu estou sendo educada de novo, imagine a outra palavra com F*.

Meninas em Bali

Como não tinha GPS, meu caro, abríamos aquele mapão mesmo, que vinha colado no guia, e tentávamos descobrir se o motorista estava levando a gente para o lugar certo ou iria nos abandonar esquartejados no meio dos arrozais. Mas, tirando a tensão, deu tudo certo e Bali foi realmente inesquecível.

De volta à Austrália, para mais um ano de estudo, a mochila voltou cheia de negativos, fitas de vídeo e algumas poucas lembrancinhas. Mas bagagem cheia mesmo era aquela que trouxemos na cabeça e no coração. A partir dali, nossas vidas mudaram, e para muito melhor. Alguns chamam de wanderlust, itchy feet, asinha no pé ou formiga na bunda. Aquela foi a primeira aventura de outras inúmeras durante estes 15 anos. Hoje, viajamos com duas malinhas lindas, nossos novos companheiros. Agora somos quatro viajantes.

Saímos de casa com gps, smartphone, ipad, aplicativos de guia, de hotel, de companhia aérea e mídias sociais. Tiramos inúmeras fotos, compartilhamos com nossos pais (hoje avós carecas) em tempo real. Criamos o sonhado programa de viagem, no nosso canal do YouTube, para mostrar que ter filhos não é desculpa para ficar em casa.

Só que hoje, infelizmente, sentimos falta de muitas coisas. De se perder e encontrar lugares incríveis, em vez de recalcular a rota. Das sugestões dos nativos sobre comidas deliciosas, e não simplesmente ler avaliações de turistas. De olhar para paisagens e pensar qual será o melhor ângulo, no lugar de bater dezenas de fotos todas iguais. De fazer amigos ao pedir para alguém bater sua foto, em vez de esticar o pau de selfie. De caminhar e olhar o horizonte a olho nu, e não através de uma tela. De ter tempo de sentir saudades de quem ficou pra trás, em vez de falar a todo momento. De guardar alguns momentos da sua viagem para si, sem ter a necessidade de compartilhar absolutamente tudo. De ficar sem wifi, para realmente se conectar. Pense nisso, crie coragem e tenha a melhor viagem da sua vida.

Blog de três jornalistas perdidos na vida que resolveram colocar uma mochila nas costas e se perder no mundo.

9 comentários em Você já se perguntou como era mochilar há 15 anos?

  1. Tava pensando ontem sobre como meu jeito de viajar já mudou desde meu primeiro intercâmbio, em 2009, quando ter um notebook era quase um luxo e smartphone nem pensar… Lembro de como achava incrível poder conversar com minha irmã em tempo real, por Whatsapp, quando fui estudar na França em 2012, e de como me enrolava pra entender as melhores formas de chegar nos lugares olhando mapinhas de transporte escritos em outras línguas em vez de simplesmente colocar o destino no Google Maps. O post tá massa e a reflexão do último parágrafo é sempre necessária. 🙂

  2. Nossa, imagino o tanto de perrengue e por outro lado, descobertas e novidades! Realmente era outra vida! Adorei o texto, super interessante pensar em outra era de viagem!

  3. Quando ainda tinha uma camêra, fazia questão de só levar ela quando viajava. Cheguei a ficar 30 dias numa viagem sem contato nenhum com internet. E como foi incrível. Vc realmente passa a viver mais a viagem e todo aquele momento. Vou inclusive tentar fazer isso na próxima. Obrigada, por esse texto! Pela inspiração do dia (:

    • Oi Camila, fiquei feliz em saber que vc se inspirou e curtiu o post. Fiz uma viagem no ano passado para Montevideo e só levei o celular, mas não tirei nenhuma foto. Realmente estava precisando de férias das câmeras. Confesso, que foi um exercício complexo pra mim. Mas, ao mesmo tempo libertador, curti td só com os olhos!

    • Oi Camila, fico feliz em saber que o texto te inspirou! Ainda não consegui essa proeza de ficar sem internet. Mas, na minha última visita a Montevideo não levei nenhuma câmera e olha que isso é realmente um exercício de desapego para mim. Não tirei nenhuma foto (nem com o celular) e tbem não gravei vídeos. Acho que estava precisando de férias de tudo! E foi muito gostoso, a viagem ficou mais leve 🙂

  4. Sensacional este texto! Nossa! Voltei no tempo e me deu saudades dos negativos e dos cartões telefônicos e talvez até da falta de comunicação. Será que com a evolução da tecnologia acabamos perdendo muito da essência das viagens para longe? Refletindo em 3, 2, 1! Amei o texto! beijos

  5. Acho que esse foi um dos melhores textos já publicados aqui. Viajei no tempo imaginando como era fazer um mochilão há 10, 15, 20 anos atrás! Imaginei os perrengues, as câmeras gigantes e pesadas (que pra mim fazem fotos melhores que as de hoje!), a falta de comunicação com os parentes…
    Prometo nunca mais reclamar!

    • Oi xará, fiquei feliz em ler seu comentário! Realmente era muito mais “difícil” do que é hoje em dia, mas menos divertido. Aliás, talvez até fosse mais, porque perrengues sempre viram histórias para contar e rir, né? Obrigada pelo elogio 😘

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