A cidade-quartel de Elvas e suas Fortificações

A cidade-quartel de Elvas e suas Fortificações

Bem me lembro quando vi pela primeira vez a foto de um forte em formato de estrela na lista dos Patrimônios da Humanidade, em Portugal. Desde então, Elvas e suas fortificações entraram também no hall de lugares portugueses que eu precisava visitar.

A cidade fica no Alentejo, bem próxima à fronteira com a Espanha: o rio Guadiana, que é um de seus limites, também marca a divisa com o país vizinho. A estrutura de defesa, que inclui castelos, muralhas, aqueduto e os tais dois fortes em forma de estrela, é considerada o maior e mais bem conservado conjunto de fortificações abaluartadas do mundo, que cobre um perímetro de mais de 10 km.

Elvas foi a primeira cidade fronteiriça portuguesa a tornar-se fortificada permanentemente depois da restauração da Independência contra a Espanha, que governou o país por 20 anos após uma crise sucessória. A revolução que devolveu o controle do Reino de Portugal aos portugueses ocorreu em 1640. Daí até 1668, os dois países estiveram em guerra até que, com o tratado de Lisboa, a independência de Portugal foi oficialmente reconhecida.

Entre 1645 e 1653, foi construída uma fortaleza em Elvas, seguindo métodos holandeses. Ou seja, são sete baluartes e quatro meio baluartes.  Para quem, como eu, não sabe o que é um baluarte (foto abaixo) ou uma fortificação abaluartada, cabe aqui uma explicação.

Elvas portuga

Antigamente, bastava uma muralha alta para defender uma fortaleza. Sua função era impedir que os soldados inimigos conseguissem escalar e invadir a cidade. Porém, com o surgimento da artilharia móvel, foi necessário repensar essa lógica, afinal, um dragão de gelo canhão conseguia facilmente derrubar essa defesa.

Além de aumentar a espessura e diminuir a altura das muralhas, surgiram os baluartes, que são as muralhas construídas em ângulo. As fortificações modernas abaluartadas, que surgiram na Itália no período do renascimento, eram pensadas de uma forma geométrica: não só as muralhas, mas todos os componentes da fortaleza eram feitos para que o que sistema não fosse vulnerável: baluartes, trincheiras, minas, caminhos cobertos e fossos.O desenho era todo pensado para que nenhuma parte da fortificação fosse atingida por um tiro direto sem que o inimigo estivesse completamente exposto aos tiros dos defensores.

Elvas portugal

As muralhas da cidade de Elvas e o Forte de Santa Luzia foram construídos durante a guerra da Restauração. Entre 1645 e 1653, foi construída a fortaleza no entorno de Elvas, seguindo um modelo holandês, com sete baluartes e quatro meio baluartes. Já o Forte de Santa Luzia foi finalizado em 1648. Essas construções serviram de sistema defensivo na batalha de Elvas, contra o exército espanhol, entre 1658 e 1659.

O Forte de Nossa Senhora da Graça

Na época da guerra, o exército espanhol ocupou o monte de Santa Maria da Graça, a cerca de 8 km de Elvas, buscando dominar o vale ao redor das construções. Com o passar do tempo, as artilharias foram evoluindo e os portugueses concluíram que, no caso de outra guerra, um canhão posicionado naquele mesmo forte conseguiria atingir a cidade com eficácia. Por isso, no século 18, começou a ser construído ali um novo forte.

Elvas portugal

Elvas vista do Forte da Graça

Teria que ser uma construção de grande capacidade defensiva, porque se ela fosse tomada, a cidade também cairia. Teria que ter forte armamento e guarnição. Com essa necessidade de tanta gente, também seria necessário espaço para alojamento. Além disso, como o espaço disponível para construção era limitado, toda a edificação da fortaleza foi pensada para proteger a cidade do inimigo em todos os ângulos e com várias obras logísticas subterrâneas e à prova de bombas, além de uma grande cisterna para dar autonomia aos soltados no caso de cerco.

O Forte da Graça foi construído de 1763 a 1792. Chegou a abrigar 1792 homens, durante os estados de guerra: foram duas. A Guerra das Laranjas, em 1801, e a Guerra Peninsular, em 1811. Nas duas ocasiões, resistiu ao cerco. Com a Guerra Civil, de 1828 a 1834, o forte tornou-se prisão política. Em 1875, passou a ser utilizado como prisão militar. Isso foi até 1989, quando foi oficialmente desativado.

Elvas portugal

Na mesma época da construção do Forte da Graça também foram construídos os Fortins de São Mamede, São Pedro e São Domingos, todos parte do sistema de defesa que foi tombado pela UNESCO.

A visita ao Forte da Graça é interessantíssima. Em primeiro lugar, dada a dimensão do local. Em segundo, devido ao verdadeiro labirinto de corredores e passagens subterrâneas. Dá para perceber bem a estratégia de defesa e, ainda, lá do alto, ter uma vista completa da Elvas, dos arredores e até da Espanha em dias claros. Para saber mais informações sobre os horários da visita, consulte o site oficial.

Cidade de Elvas: o que fazer

elvas portugal

Eu confesso que não gostei tanto de visitar Elvas quanto curti me perder no labirinto estrelado que é o forte da Graça, mas vale a pena fazer um passeio de algumas horas por ali. É possível visitar, por exemplo, o Castelo, construção de 1228, baseado numa estrutura muçulmana anterior. Há também igrejas, como a de Nossa Senhora da Assunção, antiga Sé de Elvas, de 1517. A Igreja das Dominicas, com planta octogonal e interior de afrescos renascentistas, e a Igreja de S. Pedro, fundada em 1229, a mais antiga da cidade.

Elvas portugal

O Aqueduto da Amoreira é uma construção impressionante, com cerca de 8 km de extensão, desde a nascente do rio Amoreira até a fonte da Misericórdia, no centro da cidade. Trata-se de uns dos exemplos de arquitetura hidráulica em Portugal, pois além das gigantescas arcadas de até 31 metros, também conta com galerias subterrâneas e canais. A construção começou a ser feita em 1537, mas só foi completada em 1622.

Elvas portugal

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Ao caminhar pelas muralhas, em alguns pontos específicos dos baluartes e do castelo, é possível ter uma vista incrível dos arredores, incluindo os fortes e o aqueduto.

Sou jornalista, tenho 29 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite “morar no aeroporto”. Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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