Cervejas, pintxos e revolução no País Basco

Cervejas, pintxos e revolução no País Basco

“Dois zuritos e dois pintxos, mesedez“, disse meu amigo Joseba, colocando algumas moedas de euro sobre o balcão. A atendente, uma jovem usando roupas punks e piercings, serviu dois copos de cerveja pequenos e nos passou, enquanto escolhíamos o que íamos comer entre os pequenos tira-gostos dispostos sobre o mostruário de vidro. A Herriko Taberna da pequena cidade de Ugao era o terceiro e último bar da nossa peregrinação noturna, feita bem ao estilo local. No País Basco, a tradição das noites é tomar um ou dois zuritos de cerveja em cada lugar, comer um pintxo e partir para o seguinte. E aquele bar em especial não foi incluído por Joseba no roteiro sem motivo.

As Herriko Tabernas são uma verdadeira instituição entre a juventude politizada do País Basco. Estão presentes em uma centena de cidades e vilas da região. Seu nome em euskera significa Taverna do Povo e há décadas se consagraram como um ponto de encontro da izquieda abertzale, a esquerda independentista basca. À primeira vista, parece um lugar comum e modesto, desses botecos de bairro que nunca vão aparecer na lista de tendências de nenhum guia descolado. E nem é essa a intenção.

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Na de Ugao, o salão amplo e claro tinha poucos adornos além de um grande painel com as fotos de líderes da Revolução Cubana de 1958. Os painéis, contou Joseba, são temporários e sempre homenageiam líderes e causas de esquerda diferentes. No som, uma banda de rock dessas modernas e engajadas enchia o ambiente com letras em euskera que eram incompreensíveis para mim.

Herriko Taberna de Bilbao e Ugao

Herriko Tabernas em Ugao e Bilbao

Meu amigo pegou um dos adesivos deixados no balcão junto com outros panfletos. Havia um mapa do País Basco desenhado com os dizeres “Euskal Preso eta iheslariak etxera”. Era um apelo para as autoridades espanholas pela repatriação dos presos políticos e foragidos bascos. “São pessoas que foram presas fora daqui há muitos anos e até agora não puderam retornar para casa, seja aqui ou no País Basco Francês. Alguns deles estão em prisões a 500 km do local onde vivem e nas Herriko fazemos vaquinhas para ajudar as famílias a pagarem os custos de uma visita. A campanha é para que eles possam cumprir penas em prisões mais próximas”, contou ele. Eu já tinha visto aquela mesma mensagem antes em bandeiras, murais e cartazes em Bilbao e, no próprio bar, você pode adquirir camisas com a mesma estampa por uma dezena de euros, para ajudar a causa.

Essa, aliás, não é a única causa promovida pelas Herriko Tabernas. Camisetas, bandeiras e cartazes reivindicativos estão a disposição de quem quer mostrar apoio à legalização de drogas leves, liberdade sexual e igualdade de gênero, respeito aos direitos humanos, apoio a países do terceiro mundo, em especial os latino-americanos e, até mesmo, ao ex-grupo terrorista ETA, que lutava pela independência basca.

A relação entre as Herriko Tabernas e o ETA sempre foi polêmica. Em 2002, políticos espanhóis começaram uma batalha jurídica na tentativa de tornar ilegais os estabelecimentos. A alegação era que a Banaka SA, empresa que gerenciava as tavernas, usava o dinheiro de um chamado “imposto revolucionário”, pago pelos pequenos e médios empresários donos dos bares, para financiar a atividades do grupo.

A disputa só teve fim em 2014, quando a justiça condenou 20 dirigentes por integração com associação terrorista, três anos depois do ETA declarar um cessar fogo geral e permanente. Do outro lado, no entanto, há quem afirme que essa era mais uma tentativa forçada do governo central em Madrid de associar toda e qualquer ação da esquerda independentista ao grupo terrorista.

Os bares, no entanto, seguem funcionando à toda e na legalidade em qualquer vila basca com um número suficiente de revolucionários para fazer clientela, ainda que sua vocação subversiva continue desagradando muita gente. Seus frequentadores são fieis e têm com o lugar uma relação afetiva que vai além das cervejas e pintxos baratos. “Mais que um bar, as Herriko Taberna são lugares de encontro, de solidariedade e de mobilização social”, conta Joseba.

Imagem destacada: Etxaburu (Etxaburu) – (CC BY-SA 4.0)

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma.

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2 comentários em Cervejas, pintxos e revolução no País Basco

  1. Oi, naty! Sempre vejo quais são os seus posts de cara. O rapaz de BH é artista e jornalista técnico, a luiza escreve sobre viagens. Mas vc sempre coloca a questão política, vide Galeano…
    Já fiz o caminho de santiago duas vezes e cansei de ver os bascos dizerem que não são espanhóis ou franceses.
    Me perdoe por não concordar com vc, essa questão de nacionalidade pra mim é matéria de apropriação por radicais que apenas querem impor a sua forma de pensamento aos incautos…
    Os bascos, e os catalães, perdem tempo querendo independência, pauta puramente esquerdista…
    O que vale é respeitar a liberdade de cada um escolher o que prefere, e que normalmente é aquela que tira as pessoas da miséria, o que só o trabalho e a força de vontade consegue. Alguns chamam isso de capitalismo…
    Gosto muito, muito, do blog de vcs, mas já tenho mais de 50 anos. Como disse churchil, quem não é liberal aos 20 anos, não tem coração, mas quem não é conservador aos 30, não tem é juízo…
    Vale? rs rs rs

    • hahah Ei Denise 🙂

      Na verdade, o objetivo do texto é apenas contar a experiência de ter visitado um desses bares com um amigo basco. Nem tenho certeza da minha opinião sobre o tema, por isso não tem como você estar discordando de mim! É um assunto bem complexo. Eu sempre tive problema com ideias independentistas e nacionalistas porque para mim elas sempre estavam ligadas a ideias xenofóbicas e de superioridade.

      Quando fui morar na Espanha, custei a digerir que poderia haver movimentos nacionalistas de esquerda. Inclusive todos os meus amigos bascos e da catalunha são independentistas de esquerda e mesmo debatendo muito com eles o assunto não compreendi direito como as duas ideias podem conviver. Mas me ajudou a entender um pouco melhor quando percebi que na Europa, a relação com a terra, cultura, ancestralidade e pertencimento é bem diferente da nossa aqui nas Américas. Isso até mesmo se reflete nas leis de cidadania. Nos países americanos, cidadão é quem nasce ali. Na Europa, é passado pelo sangue.

      Enfim, é assunto que dá pano pra manga! Mas obrigada por comentar! 😉

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