O Palácio de Vila Viçosa e a história da Dinastia de Bragança

O Palácio de Vila Viçosa e a história da Dinastia de Bragança

Ninguém nunca me contou que bem no interior de Portugal, numa cidadezinha alentejana chamada Vila Viçosa, que tem menos de 10 mil habitantes, ficava um palácio tão rico e luxuoso para nem Versalhes colocar defeito. O Paço Ducal de Vila Viçosa é um edifício que começou a ser construído em 1501 pelos Duques de Bragança. Anos mais tarde, essa família assumiu a coroa portuguesa, instaurando assim a Dinastia de Bragança. E foi a responsável, inclusive, pelos reinados no Brasil, com Dom Pedro I e Dom Pedro II.

Hoje é possível ficar impressionado com a fachada de 110 metros coberta de mármore, circular pelos salões do palácio, suas pinturas, peças de tapeçaria, esculturas, móveis e objetos de decoração. O palácio pertence à Fundação da Casa de Bragança, criada pelo último rei de Portugal, D. Manuel II, que deixou em testamento a iniciativa da fundação para gerir seus bens familiares que não pertenciam ao estado português, transformando em museu o paço em Vila Viçosa.

Vila Viçosa Alentejo Portugal 1

Porém, é preciso voltar muitos anos para entender o porquê dessa pequena cidade, que fica a cerca de 190 km de Lisboa, abrigar um palácio tão magnífico. E senta que lá vem história, porque é dessas narrativas medievais cheias de reviravoltas e busca pelo poder, no melhor estilo Game of Thrones.

A história da Dinastia de Bragança

D. João I, também conhecido com Mestre de Avis, era filho ilegítimo de D. Pedro I, o de Portugal, não do Brasil. Quando seu irmão, filho legítimo, D. Fernando I, morreu, rolou uma crise sucessória. A única filha legítima que restava era casada com o Rei de Castela, o que ameaçava a independência de Portugal. E a rainha não era também nem um pouco querida pela corte, porque assumiu publicamente um affair com um nobre galego. Além do Mestre de Avis, competia pela sucessão outro irmão, que também se chamava João, mas era filho de D. Pedro I com a D. Inês de Castro, a rainha morta (já contei essa história aqui!).

Com o apoio da nobreza, entre eles um jovem chamado Nuno Álvares Pereira (guarde esse nome), o mestre de Avis foi até o Paço Real, em 1383, e assassinou o amante da rainha. Como seu irmão legitimo foi capturado e preso em Salamanca pelo Rei de Castela, o caminho estava aberto para o Mestre assumir o poder. Só que obviamente isso não aconteceria sem uma boa briga: o Rei de Castela, por conta do casamento, se declarou rei de Portugal, e de 1383 a 1385 uma guerra civil se desenrolou no país, com cada vila e casa nobre apoiando um lado.

O tal nobre antes mencionado, D. Nuno Álvares Pereira, provou-se um grande general e estrategista a favor do Mestre de Avis e, futuramente, ganhou o título de Condestável de Portugal. Ele foi o responsável pelas inúmeras vitórias que garantiram que em 1385 D. João I fosse declarado rei pelas cortes portuguesas. Isso não quer dizer que a guerra com Castela acabou, porém. Os conflitos se arrastaram até 1400, com a assinatura, no ano seguinte, de um tratado de paz e reconhecimento da independência de Portugal.

O Condestável de Portugal, que também era filho bastardo, passou a ser muito amado por conta de seu papel fundamental na independência contra Castela. Com isso, lhe foram doadas pelo rei diversas terras, tornando-o principal senhor do reino. E aí entra a sua capacidade estrategista, para além da área militar. D. Nuno tinha uma única filha, D. Beatriz, e dada sua posição na corte, somente um casamento real estaria a sua altura. Porém, caso D. Nuno aceitasse isso, seu nome se misturaria com o da casa real e não faria juz ao seu legado. Resolveu então casar D. Beatriz com o filho ilegítimo do rei, D. Afonso. Com isso, em 1401, o Rei cria o Ducado de Bragança e doa uma série de terras ao casal – e D. Nuno faz o mesmo, tornando a Casa de Bragança a mais rica de Portugal.

As estratégias de consolidação familiar de D. Nuno não param por aí. Em 1415, quando decide largar a vida militar e se dedicar à caridade e a religião, ele distribui toda a sua herança igualmente aos três netos. Isso não era comum para época: normalmente, a herança seria concentrada para sua filha ou, muito raramente, ao neto primogênito. Porém, ao fazer isso, garantiu poder, dinheiro e uma capacidade para alianças matrimoniais que normalmente segundos filhos nunca teriam. Isso tudo sem atrapalhar em nada o ramo principal da Casa, que já era riquíssimo.

D. Nuno seguiu sua vida religiosa e foi canonizado santo em 2009. Sua família, com essa estratégia, cresceu forte, com ramificações poderosas, casamentos dignos de reis, sobrevivendo aos reveses históricos sem perder a importância. Passou a ser conhecida como a sereníssima Casa de Bragança. Em 1501, D. Jaime, no cargo de Duque, começou a construir o Paço Ducal de Vila Viçosa.

Vila Viçosa Alentejo Portugal

Em 1580, quando o rei D. Sebastião desapareceu (provavelmente morreu, mas não se tem certeza) numa batalha no Marrocos, iniciou-se uma nova crise sucessória. O resultado, porém, foi menos favorável à independência Portuguesa, porque foi o rei Filipe II da Espanha quem assumiu o trono. E então, durante 60 anos, Portugal foi governado por monarcas espanhóis. Ao mesmo tempo, o palácio em Vila Viçosa funcionava como uma corte paralela, não só militar mas também com vida cultural única no país.

Os reis espanhóis, atentos ao perigo que a casa de Bragança representava, lhes vetaram casamentos para controlar aumento de terras e ainda mais proximidade com casas reais. Não foi suficiente, porém, para impedir que, em 1640, os nobres portugueses se revoltassem contra a dinastia filipina e fizessem a revolução de Restauração da Independência. Tal revolução estava centrada na ascensão de D. João, Duque de Bragança, ao título de D. João IV. E a casa de sua família iniciou a Dinastia de Bragança, que governou o Brasil até 1889 e Portugal até 1910. Literalmente, indo de bastardos a imperadores em algumas centenas de anos.

Visita ao Paço Ducal de Vila Viçosa

Com a ascensão do Duque de Bragança à rei, o paço ducal perdeu um pouco de prestígio, pois passou de residência principal à apenas mais uma das propriedades da coroa. Mesmo assim, algumas mudanças ao longo dos reinados foram feitas, principalmente no século 19, nos reinados de D. Luis e D. Carlos, que passaram a frequentar o Paço anualmente no verão. Inclusive, o rei D. Carlos dormiu no palácio sua última noite antes de ser assassinado, em 1908 – e seus aposentos foram conservados intactos e fazem parte da visita. Em 1910, a república foi proclamada, o Paço foi fechado e somente foi reaberto 40 anos depois, com a criação da Fundação da Casa de Bragança.

Vila Viçosa Alentejo Portugal

A visita ao Paço é guiada e funciona em horários específicos, que variam ao longo do ano: vale a pena olhar o horário no site oficial antes de ir.  A entrada custa 7 euros e o passeio dura cerca de uma hora. Também é possível visitar, por um valor adicional, a Armaria, a Coleção de Porcelanas Chinesas e o Museu de Carruagens. Não é permitido tirar fotos dentro do palácio.

O que fazer em Vila Viçosa?

Vila Viçosa é uma cidadezinha bastante agradável, focada da extração de mármore em seus arredores. Vale a pena dedicar algumas horas extras para explora-lá.

Vila Viçosa Alentejo Portugal

Da praça central da cidade, a Praça da República, você vê a Igreja do Colégio, construída em 1636 pelos Bragança. Na mesma praça, mas do outro lado, fica o castelo de Vila Viçosa, do período de D. Dinis, em 1297, que também é de propriedade da Fundação da Casa de Bragança. O castelo foi transformado em Museu de Arqueologia e Museu da Caça. Infelizmente, por conta de uma infestação de mosquitos, não consegui visitar.

Vila Viçosa Alentejo Portugal

 

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Em frente ao Paço Ducal fica o Convento e Igreja dos Agostinhos, construção que começou em 1267, mas foi completamente reformada na época do palácio. O prédio é considerado monumento nacional, mas raramente é aberto ao público.

Vila Viçosa Alentejo Portugal

No site da cidade você encontra uma lista com todas as igrejas e prédios históricos.

Onde ficar em Vila Viçosa?

Apesar de Vila Viçosa ser bem pequena e poder ser visitada em poucas horas, pode ser que valha a pena dormir ali para visitar também os arredores no Alentejo ou para aproveitar algumas das acomodações luxuosas da cidade, dignas na nobreza que um dia ali habitou. São quatro propriedades de 3 a 5 estrelas, em prédios históricos, e com notas excelentes no Booking, você pode conferir todas as opções aqui.  Entre eles, vale destacar a Pousada Convento de Vila Viçosa, que faz parte das propriedades históricas luxuosas do grupo Pousadas de Portugal. As diárias custam a partir de €100.

Como chegar em Vila Viçosa?

Eu aluguei um carro no Alentejo e fiz o trajeto desde Évora, que é de cerca de 60 km de distância. É possível fazer o caminho pela autoestrada A6, que tem pista dupla novinha, mas tem também pedágio, ou pela estrada N254. Veja aqui informações sobre como alugar carro em Portugal. 

Vila Viçosa Alentejo Portugal

Ainda, há três horários de ônibus direto para Vila Viçosa partindo de Évora e de Lisboa, pela Rede Expressos.

Sou jornalista, tenho 29 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite “morar no aeroporto”. Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

4 comentários em O Palácio de Vila Viçosa e a história da Dinastia de Bragança

  1. Olá Luiza
    Bem haja pela Excelência do seu trabalho de “mil andanças”.
    1-De Albarracin até Lisboa pela linha defensiva do Tejo tem castelos em Amieira do Tejo, Belver(com 4 museus, Alamal e pedestrianismo), Abrantes, Almourol, Santarém e Lisboa(Cascais). Que recomenda visitar primeiro para perceber o “Tejo Internacional”?
    2-De Vila Viçosa e excelente artigo que apresenta suscitou as Guerras da Restauração(cerca de 30 anos)com Madrid em Badajoz para conquistar Lisboa.
    Assim, visitar lugares como Portalegre, Elvas, Estremoz, Palmela, Setúbal, entre outros permite maior compreensão do que se observa(“espírito do lugar”)
    Grato pela atenção.
    Com as mais cordiais saudações
    Ventura

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