Histórias das minhas casas de intercâmbio

Quem já fez intercâmbio sabe que a casa dos intercambistas é uma terra meio sem lei. Sim, um bando de jovens juntos, com boa parte deles morando fora da casa – e da influência – dos pais pela primeira vez é, sem dúvida, uma receita de sucesso para a bagunça. Mas isso não é necessariamente ruim: festas com gente do mundo inteiro, todo jantar costuma ser um festival de comida internacional, conversas e risadas.

Felizmente, eu me lembro muito mais das coisas boas do que das chatas de compartilhar uma casa com outros intercambistas. Mas, como eu sou conhecida por atrair situações bizarras, claro que eu teria uma ou duas histórias para contar desse meu período de vida. E como eu fiz mais de um intercâmbio, claro que as histórias se multiplicam.

O caso da invasão do quarto

Nossa casa na Índia tinha dois andares, três quartos e cinco moradores. Eu dormia no quarto do andar de cima e não tinha que dividí-lo com ninguém, porque o outro menino da casa morava na sala anexa. Nossa casa tinha festa semana sim e semana também, que costumavam acontecer no andar de baixo. Acordei no dia seguinte desses eventos e fui ao banheiro, onde descobri uma camisinha usada no lixo – que eu me lembrava muito claramente de não ter sido minha.


A missão de jornalismo investigativo para descobrir qual tinha sido o casal safadinho invasor envolveu o Rafa e a Naty. A gente ficou confabulando as possibilidades e até contamos a história na frente de quem achávamos ser o culpado, para avaliar as reações.

Mas isso não importa. O que importa é que na semana seguinte, tivemos outra festa. Estávamos todos lá nos divertindo até que, no meio da noite, eu resolvi ir ao banheiro e os do andar debaixo estavam ocupados. Lá fui eu usar o meu banheiro, no andar de cima. Ao sair, disse para a galera: “Peraí que vou ali conferir se alguém está fazendo sexo no meu quarto”. E subi a escada rindo. Até que eu girei a maçaneta e… a porta não abriu. Tentei de novo, só para conferir que estava mesmo trancada. Comecei a bater na porta, muito educada #soquenao. Na verdade eu estava socando a porta e gritando: “Esse é meu quartooo! Abre essa porta!” De forma um pouco mais violenta que esse cara aí.

Quando abriram, me deparei com uma cena que jamais imaginei. Eram duas meninas que eu nunca tinha visto na minha vida, com cara de europeias. As duas estavam de pijamas! A minha cama, que consistia em três colchonetes empilhados, estava desfeita, com os colchões separados, prontos para elas dormirem. Bom, mas eram três colchões, então onde está a terceira pessoa? Como se fosse num passe de mágica, o terceiro elemento saiu do meu banheiro, usando a minha toalha que eu tinha acabado de buscar da lavanderia.

WTF?

Foi a gota d’água. Não perdi meu tempo me perguntando quem diabos eram aquelas pessoas e nem como elas tinham ido parar na minha casa e no meu quarto. Eu só comecei a chamar elas de loucas e mandar elas sumirem dali. Enquanto elas saiam me olhando com cara feia, uma delas comentou em inglês com a outra: “Mas ela tem tantos colchões, que egoísta, podia dividir com a gente”.

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Depois que expulsei elas de casa, fui descobrir entre os convidados se alguém na festa tinha alguma ideia de quem eram as loucas. Diz que elas eram viajantes que chegaram na casa da AIESEC de uns amigos nossos pedindo abrigo. Como eles estavam saindo para  a festa, levaram elas junto. E elas acharam que era uma boa ideia encontrar um quarto, trancar a porta e dormir, sem se dar ao trabalho de pedir antes para o dono.

O dia que eu fiquei trancada para fora de casa

Essa história aconteceu nos Estados Unidos. Mas não é sobre invasão de quartos. Antes que vocês se perguntem, sim, lá meu quarto também foi invadido, só que por um casal de adolescentes, um deles irmão da minha gerente no McDonalds. E eu peguei eles no ato, na cama da minha roommate. Legal, né?

Pois é, mas a história que vou contar é outra. Não foi exatamente na minha casa. Fomos para uma festa na casa de outros brasileiros, que viviam num apart-hotel, próximo à montanha. Era um grupo enorme, tipo 15 pessoas, que viviam em dois apartamentos lá. No meio da festa, apareceu um grupo de jovens estadunidenses que estavam ali para esquiar no final de semana. Jovens brasileiros + jovens americanos = festa.

Bom, tudo começou a dar errado quando dois dos brasileiros resolveram que eles queriam ficar com a mesma norte-americana. Nesse meio tempo, parte da festa foi transferida para o apartamento dos americanos, por algum motivo que eu desconheço. Aí passou um tempo sem que ninguém soubesse de nada, afinal era uma festa. Mas deu a hora de ir embora e eu e minha amiga tínhamos deixado nossas bolsas e casacos no apartamento dos brasileiros, onde o evento começou.

Quando chegamos na porta do outro apê, encontramos uma menina e um menino (brasileiros) batendo loucamente na porta. A gente perguntou o que aconteceu e um deles explicou: “O fulano brigou com o ciclano porque os dois queriam ficar com a americana, que não queria ficar com nenhum dos dois. Aí eles começaram a discutir sobre como se odiavam, resolveram partir para a agressão física, no processo, quebraram uma parede, talvez alguns dentes. Por fim, a briga foi separada e enquanto um saiu do apartamento com quem apartou a briga, o outro trancou a porta e foi dormir”. Repetindo, ele trancou a porta com a minha bolsa e, mais importante – num frio de -10, meu casaco de neve – lá dentro.

really

As meninas não puderam hospedar nem a mim nem a minha amiga na casa delas, que já estava lotada, ainda mais com os meninos que também ficaram para fora. Com isso, tivemos que recorrer aos americanos, que nos receberam. Enquanto eu conversava com as meninas e reclamava sobre a babaquice humana, minha amiga pegou um casaco emprestado com os meninos e saiu correndo do nada, sem falar com ninguém. Depois dessa, foi todo mundo dormir em seus respectivos quartos, e eu no sofá, refletindo sobre como aquela noite tinha sido uma furada.

Eu já estava quase dormindo quando minha amiga apareceu de volta, trazendo um casaco que eu tinha em casa. Salvadora da noite. Nós devolvemos o casaco do menino e fomos andando de volta para casa no frio e na neve, de madrugada.

Moral da história ou aprendizados para a vida:

1. Se você morar numa casa com intercambistas, tente manter o seu quarto trancado. Nunca se sabe o que pode acontecer ali durante sua ausência.

2. Não convide estranhos para festa na casa dos outros. Nunca se sabe se eles são loucos.

3. Sempre mantenha seu casaco e celular onde você possa vê-los. Ficar no frio, sem casaco, não é uma experiência que você queira viver.

 

Clube Grandes Viajantes

Olá, somos a Luíza Antunes, o Rafael Sette Câmara e a Natália Becattini. Há 10 anos fazemos o 360meridianos, um blog que nasceu da nossa vontade de conhecer outras terras, outros povos, outras formas de ver o mundo. Mas nós começamos a sonhar com a estrada ainda crianças e sem sair de casa, por meio de livros sobre lugares fantásticos. A gente acredita que algumas das histórias mais incríveis do mundo são sobre viagens: a Ilíada, de Homero, Dom Quixote, de Cervantes; Harry Potter, Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos. Todo bom livro é uma viagem no tempo e no espaço. E foi por isso que nasceu o Grandes Viajantes: o clube literário do 360meridianos. Uma comunidade feita para você que ama ler, escrever e viajar.

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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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2 comentários sobre o texto “Histórias das minhas casas de intercâmbio

  1. Hahahahahahahah! Boas histórias! Fiz intercâmbio work and travel nos EUA e também tenho algumas histórias engraçadas…
    Sobre a casa em que morei, a história mais engraçada que me veio a cabeça é a do dia que um mexicano misteriosamente surgiu dentro do meu quarto.
    Numa bela manhã, eu estava tranquilamente dormindo sozinha no quarto (as meninas que dividiam o quarto comigo estavam trabalhando e os meninos tinham saído), quando acordei com um “HELLOOOO” desconhecido. Meio assustada, acordei e me deparei com a seguinte figura: um mexicano de chapéu e botas cowboy, usando uma camisa que imitava a bandeira dos Estados Unidos e um daqueles cintos com fivela gigantesca. NA PORTA DO MEU QUARTO.
    Primeiramente achei que estivesse tendo alguma alucinação. Daí me enchi de pânico. O mexicano ficou só me olhando. Aí, tomei coragem e perguntei: WHO ARE YOU?. Aí ele explicou que era o encanador que veio consertar o chuveiro que estava, de fato, estragado. Ele disse que o dono da casa, após nós termos reclamado, mandou ele ir lá resolver o problema e deu a chave da casa para ele. Aí ele simplesmente entrou e foi procurar alguém (eu, no caso, que estava sozinha). MORRI de medo! Mas deu tudo certo, haha!

    1. hahaha, que medo Yasmim. Eu acho que eu teria gritado muito.

      Nessa minha casa dos EUA uma vez também surgiu um homem estranho saindo do porão. Sorte que todo mundo tinha acabado de chegar em casa e ele explicou que era o Landlord e foi checar o sistema de aquecimento.

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