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Por que há tanto ódio na internet?

“Você precisa de um tanto de cérebro. Este post é fraquíssimo”. O comentário é de um leitor do 360, num texto despretensioso e que só queria deixar uma segunda-feira mais leve. Para (minha) sorte, é exceção aqui no blog: em meio a mais de 25 mil comentários, críticas nesse tom passam longe de representar 1% do total. Longe mesmo.

Críticas bem feitas e educadas são sempre bem-vindas, aqui ou em qualquer conversa, seja online ou presencial.  Produzem diálogos melhores, geram debate, causam reflexão e o crescimento de todos os envolvidos, principalmente quando os debatedores estão prontos para ouvir uns aos outros e a expor suas ideias com educação e de forma ponderada. A beleza da internet está na capacidade de dar voz a todos que queiram falar. Mas a maior revolução comunicacional em séculos – talvez em toda a História – também gerou desafios.

Hater e troll. Os dois termos são usados para definir comentaristas de internet que estimulam discursos de ódio ou apenas pretendem chamar atenção e bagunçar a caixa de comentários de um blog ou site. O comentário que abriu este texto, por mais que tenha sido chato e num tom desnecessário, foi leve. Era só um troll. Bastou não alimentá-lo e ele se cansou e desistiu da provocação.

ódio na internet

O que assusta na internet é a quantidade de ódio que é publicada todos os dias. São os haters. São os discursos de ódio em blogs, sites e redes sociais. Discursos que defendem preconceitos, desrespeitam direitos humanos básicos, esquecem a empatia e estimulam a violência. Se os trolls são raríssimos no 360, os haters podem ser contados nos dedos. Ainda bem.

Mas basta entrar num grande portal e procurar a caixa de comentários para a tristeza bater.  Nesses locais, é comum que os comentários de ódio não sejam apenas frequentes. Eles são maioria. Por exemplo, entre em qualquer notícia que fale sobre um caso estupro. Qualquer uma. Os comentários dão nojo e quase sempre vão do “historinha mal contada” para o “foi merecido”. Não foi diferente com o caso das duas viajantes argentinas assassinadas no Equador, que já discutimos aqui.

A conectividade que reduziu fronteiras e aproximou o mundo parece ter aumentado preconceitos e gerado ódio. Num mundo que viaja cada vez mais e que se diz aberto ao diferente, impressiona a quantidade de gente que está pronta para odiar o próximo. Impressiona quantos estão dispostos a odiar pela tela do computador.

Veja também: Viajar pode quebrar preconceitos

ódio na internet

Na Espanha, uma pesquisa acompanhou, durante oito meses, os comentários em notícias sobre ciganos e imigrantes, feitos nos três maiores portais do país. Cerca de 60% dos comentários eram intolerantes e envolviam preconceitos e estereótipos. Resultados parecidos foram encontramos em notícias sobre homofobia e antissemitismo. Para os pesquisadores, a intolerância está mais presente online que offline.

“Nós entendemos que há uma falsa sensação de privacidade. Quando alguém está comentando, sente como se estivesse dentro de um pequeno fórum ou na sala de sua casa. Por outro lado, o anonimato favorece isso. Depois desse estudo, tenho a sensação de que a ira e o enfado são emoções que mobilizam muito mais do que sentimentos positivos”, explicou Alex Cabo, numa entrevista que você pode ler aqui. E aí entra outra parte da equação: alguns portais fecham os olhos ou até estimulam comentários de ódio porque esse tipo de discussão aumenta a audiência. A radicalização do discurso é estratégia para conseguir mais page views.

É mais fácil ser intolerante e odiar online. É mais simples não ter empatia quanto o interlocutor é um avatar no Facebook. Raquel Recuero, professora da PUC de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e autora do livro ‘A Conversação em Rede: A Comunicação Mediada pelo Computador e as Redes Sociais’, completa o raciocínio: “(As pessoas) não veem a audiência, que é invisível. Elas interagem com uma tela, e com uma audiência imaginada. No calor da emoção, acabam falando coisas para essa audiência, que, claro, não é todo mundo. Isso gera mais agressão ainda, já que as pessoas que não foram intencionalmente agredidas se ofendem, e por aí vai”.

Mas não se engane, todo esse ódio tem endereço certo e só reforça preconceitos milenares. Numa matéria publicada nesta semana, o britânico The Guardian pesquisou todos os comentários deixados no site desde 2006. E descobriu que 8 mulheres apareciam na lista dos 10 autores do Guardian que eram mais perseguidos por haters e trolls. Os dois homens da lista são negros.

A UNESCO também fez um estudo sobre o assunto e lançou um manual para ajudar a conter o ódio online. E mostrou que o discurso de ódio aumenta em períodos tensos, como eleições e crises, e não tem limites geográficos. Isso acontece na Espanha, no Brasil e no restante do mundo.

ódio na internet

Ódio na internet: o que fazer

Houve um tempo em que eu reagia aos (pouquíssimos) comentários agressivos que recebia no 360 com sarcasmo. Eu estava errado. Hoje, prefiro outro caminho – mostrar que a crítica e a discordância são aceitas, mas que poderiam ter sido feitas num tom educado. E dar meus argumentos, sem ironias e procurando o bom debate.

Essa escolha se mostrou melhor, seja aqui no 360, no Facebook ou no dia a dia. Já a Liz, blogueira do Young Adventuress, faz uma lista anual com os “melhores” comentários de ódio que ela recebe no ano. E olha que ela, que viaja desde os 16 anos e resolveu encarar o mundo sozinha, é alvo frequente dos haters.

A pior escolha é evitar o confronto. Mesmo nos grandes portais de notícias, onde comentários preconceituosos e de ódio chegam a 60% do total, o número dos que adotam esse discurso é pequeno em relação ao total de leitores do site. O problema é que ocorre uma espiral do silêncio. Quando as pessoas mais tolerantes e moderadas entram na discussão e percebem o tom radicalizado do debate, elas acabam preferindo não participar.

E essa escolha faz com que a voz dos radicais pareça ser maior do que de fato é. Aparecem na conversa apenas aqueles que gritam mais alto, mesmo que sejam minoria. “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”, teria dito Martin Luther King. Verdade que permanece na era digital. “Temos que estimular a intervenção daqueles que são mais tolerantes, para que participem dos fóruns. Se não, os intolerantes se apoderam dos fóruns e isso tem consequências, como esse efeito de alto-falante que os faz parecerem maiores do que são”, concluiu Alex Caboo pesquisador daquele estudo espanhol.

Eu sei, muitos de vocês podem estar se perguntando o que este texto tem a ver com um blog de viagens. Tudo. Mais do que conhecer novos lugares e relaxar nas férias, viajar é um convite para sermos mais tolerantes, para aprendermos a ouvir o outro e aceitarmos diferentes pontos de vista. É uma oportunidade de dialogar com outras culturas e povos, sempre com educação e respeito. Não precisamos exercer isso apenas quando estamos na estrada. Já que hoje grande parte da vida se dá online, é uma boa ideia começar por aí.

*Imagem destacada: shutterstock.com

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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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25 comentários sobre o texto “Por que há tanto ódio na internet?

  1. Ah, se todo que usa a internet se preocupasse em ler os debates no forum de um blog inteligente…tudo seria diferente, conseguiríamos realmente dar sentido a frase: Mudar o mundo!

  2. Essa parte do espiral do silêncio, pode em parte ser também porque muito do discurso de ódio vem baseado em frases prontas, falácias, rótulos descontextualizados, etc. E, se a pessoa já vem de pedra na mão e uma fé pétrea em todo um conjunto de ideias e conceitos tomados da forma mais simplista… aí fica difícil. Eu brinco dizendo que o que rola em parte na internet é a twiterização das discussões, muita palavra de ordem feita pra caber em menos de 140 caracteres. Num caso desses, fica até inviável tentar um debate.

    Outra coisa de que eu reclamo muito é algo que vejo até na imprensa. Muita gente escreve ou posta coisas que não trazem alguma reflexão ou uma perspectiva diferente, mas só uma reafirmação de uma posição que já têm, sem elaborar mais cuidadosamente algum conteúdo (como quem diz: “essa é minha posição, e eu sou f*#@ porque falo mesmo”). E por conta dessa autoafirmação, o conteúdo perde importância e às vezes é até tratado com desleixo. Acho que isso é um estímulo ao hábito do “quem grita mais, ganha”. Em casos mais extremos, isso faz com que o ato de marcar posição se ponha à frente do ato de comunicar algo (como vi hoje uma crítica ao prefeito – que eu detesto, inclusive – , mas a postagem era uma mistureba desencontrada de críticas de coisas que não eram relacionadas). Então, transmitir uma ideia, que até poderia seduzir alguém de coração mais aberto a pensamentos diferentes, fica em segundo plano. Desse jeito a troca de ideias fica quase impraticável.

    Quanto ao Facebook, acho que o próprio formato da plataforma leva a isso. O formato não é de diálogo. Quando a gente bate um papo, conversando pessoalmente com a pessoa, como num balcão de bar, mesmo com alguém de quem a gente discorda, a gente ouve, questiona, dá uma cutucada de leve, argumenta de volta… a gente sempre vai tateando, vendo até onde a gente pode ir, avança mais um pouco e tal. É um “lá e cá” constante, e no mano-a-mano. O facebook é como se fosse um palanque, a opinião é dada como um pacote fechado (a postagem), não há troca até o fechamento do “pacote”. E é espalhado pra um público maior, de gente muito variada. O que vem de volta é uma reação àquele pacote. E se acontece uma troca de mensagens na sequência, não tem a agilidade de uma conversa. Pelo formato que o facebook oferece, aquilo não funciona bem pra ser espaço de diálogo. Acho que, quando a gente pensou que o facebook poderia ser isso, a gente imaginou um papel que aquele ambiente não tem como cumprir.

    Escrevendo demais aqui. Eita! Dá pra imaginar mil coisas a respeito. Acho que escrevi demais um pouco pelo efeito da cerveja, outro por me incomodar com isso. kkkkk

    Mas eu fico mais é com aquele trecho de samba do Paulinho da Viola: “ninguém pode explicar a vida num samba curto”. X)

    1. Baita comentário, Jorge! Obrigado por escrever!

      Adorei o conceito de twiterização das discussões. E não tinha pensando na questão do Facebook, que o próprio modelo do site leva a isso! Acho que você tem razão.

      Abraço.

  3. Excelente texto, interessante a parte que diz sobre os leitores que são tolerantes e não se envolvem em discussões de haters, trolls e etc, sendo como um espiral silencioso que apenas leem as informações e saem pacificamente, me identifiquei com isso já que eu sou desse tipo, e até pensei na possibilidade de existir inúmeras pessoas que agem desse tipo também, já que geralmente muitas páginas tem muitas visualizações nas estatísticas, mas que não coincide com o números de comentários.

    1. Acho que a maioria, Diih. Quando vemos algo assim, a vontade natural é só de sair do debate, mas aí deixamos o argumento de ódio ou sem moderação vencer.

      Obrigado pelo comentário.

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