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O que aprendi morando sozinho

Roncos que vêm do sofá. É isso que escuto enquanto escrevo este texto, no escritório do meu apartamento, em Belo Horizonte. Quem dorme de forma barulhenta é meu companheiro de teto e de dia a dia, um simpático cachorro chamado Whisky. Há 12 meses moro sozinho, pelo menos do ponto de vista humano da coisa. Além do Whisky, o outro morador da casa leva a vida de forma, digamos, vegetativa: é um boldo enorme que herdei de um vizinho que se mudou para Porto Alegre.

Cheguei a pensar em dividir o apartamento com alguém que pudesse ajudar a pagar o aluguel, afinal o Whisky e o Boldo preferem se abster desse tipo de responsabilidade doméstica. Após alguns meses procurando, sem sucesso, os companheiros de teto ideais, desisti da tarefa e abracei um desejo que aos poucos tomou forma: morar sozinho.

Embora eu goste muito da minha vida solitária no centro de Belo Horizonte, por onde centenas de milhares de pessoas circulam diariamente, tenho que admitir que nem tudo é fácil. Parafraseando o Tio Ben, grandes poderes trazem grandes responsabilidades, inclusive quando o assunto é viver só. O Whisky e o Boldo concordam comigo.

whisky, dachshund

Olha a preguiça

Pagar contas

A minha primeira preocupação, assim que passei a viver sozinho, foi com o risco de ser engolido pelas contas. Aluguel, condomínio, água, luz, gás, IPTU, telefone e internet, cada conta com uma data diferente de vencimento e muitas delas com valores que não vão com a cara da minha conta corrente.

Eu achava que sabia me virar na arte do orçamento pessoal antes, quando morei em repúblicas, comprei um carro e viajei pelo mundo, mas nada se compara com os poderes jedi necessários para bancar uma casa sozinho. Virei mestre na arte das pedaladas fiscais e aprendi que vez ou outra as contas vão atrasar, ainda mais para alguém que não tem salário fixo, mas que algumas delas não podem deixar de ser pagas na data certa. Nunca. O mundo pode acabar em ligações de cobradores da NET, mas o aluguel precisa ser pago sem atraso, afinal a multa é altíssima e há fiadores que assinaram contratos na base da amizade ou do parentesco, mas que jamais devem ser incomodados.

Luz, internet e condomínio podem esperar um pouco naqueles meses mais escuros, mas é fundamental não perder o equilíbrio das contas e não deixar que elas se acumulem. Por ironia, a única vez que deixei uma conta atrasar por muito tempo foi por esquecimento: não me lembrei de pagar uma conta de luz, paguei as duas próximas e só descobri a falha meses depois, quando recebi um aviso de corte de energia. Deu tempo de corrigir o erro. Desde então, faço um check list mensal de contas pagas, para evitar problemas.

contas pra pagar

Foto: Shutterstock

Decorando a casa

Decidi ter uma casa legal e que me deixasse feliz, por mais que isso custe algum dinheiro. Tudo na vida é uma questão de escolhas e prioridades. Do mesmo jeito que economizei em absolutamente tudo para poder dar uma volta ao mundo e viajar mais, resolvi gastar parte do meu salário comprando móveis e tornando meu apartamento mais parecido comigo. Sofá, estante, rede de descanso, quadros, decoração: tudo isso tem um custo.

Por isso, lógico que a casa não fica pronta de uma vez. Até hoje não mobiliei toda a sala, mas aprendi a ter paciência e saber que, pouco a pouco, tudo se ajeita. O importante é ter um plano e saber em qual direção quero ir. Espero ter o apê pronto ainda nessa encarnação. Se não der, bem, nem o Gaudí conseguiu, né? Fora que ambientes vazios, digo, clean, estão na moda. E assim o Whisky tem mais espaço para correr e o Boldo pode crescer até ocupar toda a área que seria daquela estante que ainda não comprei ou do bar que ainda não fiz.

Tarefas domésticas

Não há praga pior que louça suja. Já pensei até em trancar os armários da cozinha com cadeados, deixando só um prato, um copo e talheres para uma refeição do lado de fora. Só assim para evitar a geração espontânea de louça suja que ocorre na minha pia.

Passo uma hora lavando tudo. Esfrega aqui, seca ali, guarda acolá. Ufa! Bora fazer um misto quente que deu fome. Olho pro lado e puft: tem uma faca suja de manteiga, um prato e um copo na pia. “Beleza, é pouca coisa”,  me iludo. Tomo banho, trabalho um pouco e volto na cozinha, apenas para tomar um susto com o Everest em forma de louça que se formou numa manhã.

Elas brotam sem você perceber. E não adianta fingir que não viu. O Everest continuará lá, pronto para engolir o resto do apartamento. Sabe aquele copo que você deixava na pia só por alguns minutos, até o fim daquele filme, quando morava com seus pais ou com outras pessoas? Spoiler: não eram elfos domésticos que davam um jeito nele, mas as pessoas que moravam com você. E não há elfo que te ajude quando você está por conta própria.

o que aprendi morando sozinho

A mesma coisa vale para o restante das tarefas domésticas. Varrer a casa frequentemente, passar desinfetante, tirar poeira dos móveis, limpar o banheiro, lavar e colocar a roupa para secar são outras funções suas e de mais ninguém – ou então você acabará tendo que usar uma sunga de cueca e vai se surpreender quando as formigas levarem tudo embora, à moda dos Buendía.

No meu sistema ideal, limpo a casa semanalmente. E tento, no dia a dia, não tirar as coisas do lugar. O problema é quando uma sequência de viagens, de trabalho ou pessoais, não me deixa ficar em casa por muito tempo. É o começo do caos.

Comida

Comer fora todo dia? Impossível. E a questão não é só fazer a própria comida, mas lembrar de ir ao supermercado religiosamente. Não tem nada pior do que terminar o expediente com fome, abrir a geladeira e ter a sensação de que você acabou de morder um pastel de vento. E nem só de macarrão viverá o homem, embora seja inegável que ele salve vidas. Uma das minhas maiores dificuldades é evitar que a comida estregue na geladeira e vá para o lixo, afinal frequentemente tranco tudo, faço as malas e vou viajar. Fora que é complicado comprar porções individuais das coisas.

Além da comida, é importante fazer uma lista com tudo que precisa ser colocado no carrinho do supermercado, caso contrário vai faltar algo importante, seja sabão em pó ou papel higiênico. Trazer as coisas do supermercado é outra tarefa complicada, quase hercúlea, afinal não tenho carro. Desisti das sacolas e optei por fazer compras de mochila. Coloco tudo lá dentro e volto pra casa com as compras nas costas. Fica muito mais fácil carregar. O que não pode ir na mochila, para não amassar ou por falta de espaço, vai numa ecobag.

como é morar sozinho

Não deixarás a casa cair aos pedaços

Só não me entrego ao marido de aluguel porque o orçamento não permite. Por isso, tive que aprender a me virar quando algo para de funcionar. A resistência do chuveiro, lógico, foi o primeiro teste. Depois foi o chuveiro todo que teve que ser trocado, o ralo do banheiro que entupiu, uma tomada que parou de funcionar, a janela que emperrou (e por aí vai).

Eu sempre tive uma preguiça enorme desse tipo de tarefa, mas, bem, nada disso será resolvido sozinho. No começo, adotei a milenar técnica da procrastinação. O chuveiro precisava ser trocado, mas fazia um calor enorme na cidade, então por que diabos não deixar o Rafael do inverno cuidar disso, e por enquanto abraçar o banho frio e de quebra economizar na conta de luz?

Essa vida durou algumas semanas, até que criei vergonha na cara, comprei um chuveiro novo, abri um tutorial do YouTube e troquei a geringonça, sem grandes dificuldades. Por falar nisso, os tutoriais do YouTube viraram meus melhores amigos, seja para desentupir um ralo de banheiro ou para aprender a cozinhar algo que vá além do basicão. Até nó de gravata aprendi a dar no YouTube – não que isso seja útil.

A vida não é uma farra

Festa toda semana? Só se você for louco. Se já é complicado arrumar a casa sozinho, imagine limpar, sem ajuda, um apartamento que recebeu 30 pessoas no dia anterior. Embora eu receba visitas de tempos em tempos e faça cervejadas ocasionais por aqui, viver sozinho não é sinônimo de festa toda hora. E, acredite, não falta gente interessada em usar o apartamento para propósitos festivos quando estou fora da cidade, pedido que é respondido com um “mas é claro”, expressão que pode ser traduzida por “jamais”.

Por falar em farra, tive que aprender um novo mantra: não beberás diariamente. Depois de um dia inteiro na frente do computador, é fácil querer abrir a geladeira, pegar uma cerveja e passar a noite na frente da TV, afinal não há ninguém para te julgar ou te encaminhar para uma reunião do A.A. E, ao contrário do que muita gente pensaria, não curto chá de boldo e prefiro, se possível, evitar ressacas frequentes. E não bebo destilados.

morar sozinho

Cuidando de você (e dos outros)

Uma parte assustadora de morar sozinho é quando você se dá conta de que não tem ninguém para te ajudar em caso de emergência. De queimaduras na cozinha a cortes nos dedos, de uma doença inesperada a um problema que você tem na rua – seus amigos e parentes demorarão a notar que você não voltou para casa e que algo não está bem. Tudo isso dá medo. E você vai ter que se virar.

Além de tomar mais cuidado e bolar planos mirabolantes que poderiam ser acionados em caso de emergências, deixei uma chave extra de casa com parentes e abracei o medo de estar só em meu Reino de poucos metros quadrados. Quer dizer, nem tão só: o Whisky e o Boldo dependem de mim. E isso é ótimo. Alimentar, levar para passear e brincar com o Whisky são algumas das partes que mais gosto do meu dia a dia. E, convenhamos, isso me ajuda a sair de casa três vezes por dia, rompendo com a ilha do home office.

Com ele, aprendi a inacreditável sensação e senso de responsabilidade que há em ter outra vida totalmente dependente da sua. O Whisky, claro, não dá sossego quando quer descer para passear ou acha que está na hora da comida. O Boldo dá menos trabalho, mas murcha quando não recebe sua cota de água.

Os limites da solidão

Eu sempre gostei da solidão. Sou introspectivo e tenho pavor de conversa fiada. Quando passo muito tempo na companhia de outras pessoas, mesmo de amigos e familiares queridos, logo preciso de meu espaço, para poder recarregar as energias e conversar com aquela voz interior que faz questão de ser sempre ouvida. Por isso, morar sozinho nunca me fez me sentir solitário – fora que tenho um cachorro sempre por perto.

Por outro lado, faço questão de sair da toca, seja para bares com amigos, para visitar parentes, para caminhar ou para ir ao cinema. E, mesmo sozinho, tenho sempre companhia, seja pela internet ou pelo telefone. No fim das contas, a solidão nunca bate de verdade.

Tudo é transitório

Gosto do meu apartamento, do meu bairro e da vista da minha janela, por mais que o barulho da cidade que acorda ou teima em dormir me incomode. Apesar disso, sei que tudo é passageiro. Essa não foi minha primeira casa (já nem me lembro quantas foram) e certamente não será a última.

Belo Horizonte

Por conta do aluguel e do condomínio, que não estão cabendo no bolso, e de um desejo de estar mais perto da minha família, comecei a pensar em me mudar daqui e já estou em busca de um apartamento mais econômico. Mesmo que o endereço se altere, não mudará o lar. E pode ser que chegue o dia em que morar sozinho não seja mais interessante pra mim. Até lá, sigo aprendendo a arte de governar um apartamento na companhia de um dachshund. E, claro, do Boldo.


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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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49 comentários sobre o texto “O que aprendi morando sozinho

    1. Oi, Aline.

      O Whisky fica na casa do meu pai. O Boldo e as outras plantas que hoje eu tenho ficam aqui em casa mesmo, mas monto um sistema de autoirrigação. Além disso, de tempos em tempos peço pra algum parente vir aqui em casa e verificar como as plantas estão, isso pro caso de viagens mais longas.

      Abraço e obrigado pelo comentário.

  1. Muito bom!!! Parabéns!!
    Gostei muito da narração! Incrível!
    De igual forma, tinha o desejo de ser jornalista. Já morei em alguns lugares, viajei e viajarei novamente sozinha. Hoje resido em Santa Cararina, na cidade de meus país, mas levo comigo a canção que diz: ” as roupas moram no armário, mas preferem as viagens!”. Sucesso no seu blog, na dua estrada e vida!
    Parabéns!

  2. Obrigada pela ideia de fazer compras de mochila! Tão simples e eu nunca tinha pensado nisso! Tá salvando minhas idas ao mercado. Valeu mesmo =D

  3. Oi Rafael texto incrível,um dia não por vontade mas pelo destino iniciei minha vida sozinha,interessante que antes acreditava que seria impossível pois amava o aconchego de outras pessoas,mas o auto conhecimento me fez compreender que sou minha melhor companhia e hoje quando saio conto os minutos para retornar ao meu mundo,nele me refaço e me encontro e detalhe nunca mais senti solidão.

    Abraço.

  4. Cara…ótimo texto! Leve e descontraído e de quebra algumas dicas sutis…Também moro sozinho e digo que isso é muito bom e gostoso! Ninguém pra encher a paciência…e eu entendi perfeitamente a parte da cerveja…na minha geladeira não falta! rsrsrsr! Moro em Brasília. O que achou da cidade ? Vai sair muitos posts dela? Abração!

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