Rarámuri, a língua escondida nas montanhas mexicanas

Rarámuri, a língua escondida nas montanhas mexicanas

Encapsulada entre colinas íngremes, as palavras da língua tarahumara ecoam em paredes inclinadas. No México, as montanhas e as pessoas protegem um idioma que viaja com o vento pela região. As mulheres, vestidas de cores e babados, o propagam desde seu ventre e o ensinam a seus filhos. Os cânticos de seus antepassados levantam a poeira, pó que ainda não conseguiu enterrar uma cultura. A língua dos rarámuri vive nas montanhas como um componente a mais da natureza da Serra Tarahumara, no estado mexicano de Chihuahua.

“Kuira-ba!”. A saudação rarámuri retumba interminável na serra. As sipuchakas – saias longas – das mulheres e meninas rarámuri parecem ser o recurso de algum pintor para dar cor a uma paisagem em que predominam os tons da terra. Os anciãos se riem enquanto colocam as koyeras – bandanas – que levam em sua cabeça. A relação com seus netos se mantém intacta porque ainda compartilham a mesma língua.

Muitos dos homens já não utilizam a roupa tradicional. Os jeans, chapéus e camisetas de manga curta são itens diários do owí – o homem – rarámuri. Isto se deve ao fato que é o membro da família que mais interage fora da comunidade, o que também o converte em bilíngue. Mas, para além da forma de vestir, ele se mantém fiel a suas tradições. O povo resiste perene ante a invasão cultural.

Sierra Madre Occidental, no noroeste do México

Vista das Barrancas del Cobre e da Piedra Bolada. Foto: Alejandra Gayol. 

A comunidade rarámuri pode vangloriar-se por ser uma das culturas originárias que melhor preservam a língua entre os mais jovens. A maioria das escolas abertas na serra lecionam em espanhol, mas o tempo fora das salas de aula deixa mais marcas. Recolher o milho com seus irmãos, perder-se entre os campos brincando com as cabras, esconder-se na escuridão das cavernas nas quais habitam os seres de suas lendas. O dia a dia na serra é uma maneira de entender a vida e a natureza traduzidas na língua na qual aprenderam a organizar seus sonhos e medos.

Senhor com as típicas roupas Rarámuri, no noroeste do México

Corredor da Ultramaratona da Serra Tarahumara com sua akakas. Foto: Víctor Hugo García Ulloa (CC).

Os rarámuri são caminhantes insaciáveis, conhecidos por sua agilidade para correr através do sinuoso terreno da serra. Por isso, ganharam o título de “os homens dos pés alados”. O apelido vem da interpretação dos chabochi – mestiços ou pessoas não-rarámuri – que traduziram a palavra “rara” como “pé” e “muri” como “correr”. Também os batizaram como tarahuamaras, mas eles se autodenominam rarámuri, que quer dizer simplesmente “homens”.

Em diferentes ocasiões ganharam ultramaratonas internacionais. Eles competem com seu calçado tradicional, as akaka, sandálias feitas com pneus velhos grudados com correias. Os sapatos de última geração são coisas de seus inexperientes rivais. Mas os rarámuri não ganharam esse título nas competições. A serra é grande. O Cânion do Cobre é quatro vezes maior que o Grand Cânion, nos Estados Unidos, em extensão. E duas vezes mais profundo. As distâncias entre as diferentes famílias que compõem cada comunidade são eternas, e as presas durante a caça têm muito espaço por onde escapar. Correr se torna algo essencial e cotidiano.

Menina Raramuri na Sierra Madre Occidental no México

O rarámuri ainda é a língua predominante entre as crianças. Foto: Joseba Urrutikoetxea.

Os bares e as discotecas não chegaram às grotas, nem é necessário. Os rarámuris fazem a festa, porque a festa é o que a natureza precisa para seguir seu curso, seus antepassados para seguir o presente e os membros para seguirem como uma comunidade. A dança entra em combustão com o tesgüino, uma bebida ancestral de milho fermentado que acompanha todas as suas cerimônias, como o Yumali, no qual se invoca a chuva, ou o Rutuguli, que os conecta com as alewá – as almas.

Os rarámuri crêem firmemente que são o pilar do mundo. Que não haveria vida sem eles. Eles dançam e fazem festa sem descanso para reviver a terra, para que a água flua, para que o vento se mova e para que exista vida animal e vegetal. Nada poderia existir sem os rarámuri. Nem sem os vivos, nem sem as almas dos mortos. O mundo não funcionaria sem sua cultura, não avançaria sem suas tradições. A língua rarámuri não poderia desaparecer, porque assim o mundo ficaria em silêncio.

Reportagem de Alejandra Gayol publicada originalmente em espanhol no Projeto Wakaya e traduzida para o 360meridianos por Natália Becattini. 

Proyecto Wakaya

Blog de três jornalistas perdidos na vida que resolveram colocar uma mochila nas costas e se perder no mundo.

2 comentários em Rarámuri, a língua escondida nas montanhas mexicanas

  1. Ola, um texto agradável e respeitoso com gentes distantes, com modos de Viver particulares. É um alivio ler algo que traga o senso do (re) conhecimento dos povos diversos. Muito grata

    • Olá Vânia, fico muito feliz que você tenha gostado! Fique ligada aqui no 360 apra mais textos sobre as culturas originárias da América Latina!

      Abraços!

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