Como a tradição do chá da tarde inglês veio de Portugal

Como a tradição do chá da tarde inglês veio de Portugal

No salão elegante, algumas mesas eram ocupadas por grupinhos animados. Duas amigas riam, três mulheres – usando coroas feitas de papel – celebravam com prosecco. Fui recebida com curiosidade por estar sozinha e encaminhada para a minha mesa perto da janela, que eu havia reservado algumas horas mais cedo. Logo veio a sorridente garçonete, com uma caixinha branca. Dentro dela, estavam minhas opções de chá. Eram doze variedades, que iam do tradicional darjeeling, que é tomado com leite e açúcar, as clássicas infusões, como hortelã.

“Você pode escolher o que quiser, se não gostar eu mando trazer outro”, explicou a moça. Ela também deixou a caixinha comigo por alguns minutos para que eu pudesse pensar, sentir o cheiro e pegar as ervas que fariam meu chá. Ou melhor, chás, porque durante a minha experiência de chá da tarde inglês eu bebi três bules de “sabores” diferentes.

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A curiosidade com o fato de eu estar sozinha vinha por conta da quantidade de comida que seria servida para acompanhar meu chá. A bandeja de três andares vinha recheada. No primeiro nível, eram cinco tipos diferentes de sanduíches salgados, como sabores como brie e salmão defumado. No segundo nível, os famosos scones – uma espécie de bolinho crocante – acompanhamento tradicional do chá inglês, servido com geleia e creme. E, ainda, creme brule, bem francês. Para terminar, no nível superior tinham três tipos diferentes de tortas, biscoitos e suspiro.

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Os tais scones, deliciosos!

O chá da tarde, ou o chá das cinco, ou simplesmente beber chá em qualquer hora do dia, é uma tradição bastante inglesa. Mas qual foi a minha surpresa ao descobrir que a tal tradição é, na verdade, importada de outro canto do mundo, canto esse que colonizou o Brasil. Sim, o hábito do chá no Reino Unido só surgiu com a influência de uma mulher portuguesa, a Rainha Catarina de Bragança.

Catarina era filha o rei português D. João IV e nasceu no Paço Ducal de Vila Viçosa – eu já contei a curiosa história desse lugar e dessa poderosa dinastia portuguesa aqui. Como seu pai foi colocado no trono após a Guerra com a Espanha, que garantiu a reconquista da independência de Portugal, era importante que Catarina se casasse com algum outro monarca europeu, para fortalecer os laços reais. O escolhido acabou sendo Carlos II, da Inglaterra. Além da esposa, o monarca da Inglaterra, Escócia e Irlanda também recebeu, como dote de Portugal, a cidade e fortaleza de Tânger, no Marrocos, e a ilha de Mumbai, na Índia Oriental (o que explica bem como Portugal foi perdendo todos os seus territórios coloniais ao longo do tempo).

Em maio de 1662, a nobre portuguesa foi para Inglaterra. Levou consigo alguns bens preciosos. Entre eles, folhas de chá e louça chinesa. Reza uma lenda – não confirmada – que as ervas empacotadas estavam embaladas com os seguintes dizeres: “Transporte de Ervas Aromaticas”, ou seja T.E.A. (tea é chá em inglês). Apesar disso ser lenda, fato é que a aristocracia portuguesa já consumia chá, porque tinha uma conexão mercantil com a China, graças a colônia em Macau.

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Não que os ingleses nunca tivessem bebido chá até então. Mas a bebida ainda não era produzida na Índia e o chá era considerado algo medicinal e não uma hábito diário elegante. Por isso os ingleses podem agradecer à Rainha Catarina.

“Quando Catarina casou-se com Charles, ela tornou-se o foco de atenção – tudo, de suas roupas a seus móveis, tornaram-se fonte para fofocas na corte. Seu hábito de tomar chá regularmente encorajou outros a beberem. As ladies correram para copiá-la e ser parte do seu círculo”, conta Sarah Beth Watkins, autora do livro Catherine of Braganza: Charles II’s Restoration Queen, em entrevista para BBC.

Ao mesmo tempo, tanto o chá, quanto as belas porcelanas chinesas eram tão caras que somente a elite tinha acesso. O resto da plebe tinha que copiar como dava. Eventualmente, com o tempo e as novas rotas comerciais, o hábito espalhou-se entre as classes mais baixas. Hoje, como vocês podem observar pelo relato do início do texto, ainda é possível ter a experiência clássica e luxuosa do chá da tarde, ou melhor, Afternoon Tea, em casas de chá.

Você encontra várias opções de “Afternoon Tea” na grande maioria das cidades do Reino Unido. A minha experiência foi no Oh Me Oh My, em Liverpool, e custou 15,95 libras, com tudo incluído. Eu escolhi o local pelas boas reviews que achei na internet e por conta do preço médio. Há opções bem mais caras, incluindo aquelas que trocam o chá por prosecco ou que fazem chás temáticos.

Sou jornalista, tenho 29 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

Um comentário em Como a tradição do chá da tarde inglês veio de Portugal

  1. Que história fascinante…sempre, desde pequena, gostei de beber chá. Não por ser portuguesa, mas pelos vários sabores que podemos encontrar e a sensação quente e confortável que ele deixa no peito. Fiquei muito surpreendida com essa descoberta que por acaso não sabia, mas tenho a perfeita noção de que portugueses amam chá… não tanto hoje em dia mas mais antigamente.

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