Os mistérios da vida após a morte no Egito Antigo

Os mistérios da vida após a morte no Egito Antigo

O que mais me chamou a atenção quando entramos no planalto da Necrópole de Gize e nos deparamos com as pirâmides do Egito foi o que o Omar, nosso guia, disse. “Vocês sabem por que nunca encontramos nenhum palácio faraônico do Egito Antigo?”, ele perguntou. “É de se imaginar que poderosos governantes como eles viveriam em lugares luxuosos. Mas não, só encontramos pirâmides, tumbas e templos. Os palácios provavelmente devem ter sido construídos com tijolos como esse aqui” – e apontou para uma construção simples, daquelas de lama e terra batida. “Isso é porque a casa que eles viviam na Terra não era tão importante quando a casa na vida eterna”.

Boa parte da vida de um egípcio, três ou quatro mil anos atrás, era a preparação para a morte. Avó, pai e filho, os faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, (ou seus nomes egípcios: Khufu, Khafre e Menkaure) mandaram construir as pirâmides de Gizé enquanto ainda viviam, em 2560, 2530 e 2510 a.C., respectivamente. Pelas datas a gente vê que a vida deles aqui na Terra não era longa. O complexo da Necrópole de Gizé é, como o nome diz, uma cidade dos mortos, que também conta com as pirâmides menores, dedicadas às rainhas. E com a Esfinge, templos funerários e várias tumbas e cemitérios.

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piramides do egito necropole de gize

piramides do egito plato de gize

Ainda durante a vida, os faraós mandavam construir não só a pirâmide, mas também os respectivos templos, chamados de templos do Vale, além do templo funerário. As esfinges, em duplas, guardavam a porta desses templos. Essa que visitamos, dizem ter sido construída com o rosto de Quefren. Omar nos explicou como era o processo que acontecia depois da morte do rei. “Eles traziam o corpo até o templo, de barco. Então, todo o processo de embalsamento e mumificação durava 70 dias, por causa do ciclo da estrela Sirius, que ficava ausente do céu por esse período. Seu retorno marcava a inundação anual do rio Nilo e o solstício de verão”.

piramides do egito e templo da esfinge

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Templo do Vale ou Templo da Esfinge

A crença na vida após a morte e a necessidade de preparação para a vida eterna perduraram por todas as fases do Antigo Egito, pelos Impérios Antigo – quando as pirâmides foram construídas -, Médio e Novo, quando os templos em Luxor, do Vale dos Reis, foram erguidos.

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E não era só entre os faraós que o embalsamamento e a mumificação dos corpos aconteciam. Todas as práticas e rituais funerários eram levados a sério por todos, já que ali se acreditava que a morte não era o fim da vida. O processo do embalsamamento, segundo os textos do historiador Heródoto, da Grécia Antiga, variava de complexidade e preço dependendo da riqueza da família.

familia estatua tumba

Família de um rico (e anão) cidadão egípcio

O Livro dos Mortos

Um guia para a vida depois da morte. Essa é uma boa explicação para o que conhecemos hoje como o Livro dos Mortos, cuja tradução mais exata seria “Saída para a Luz do Dia“. Foi no Império Novo que surgiu o Livro dos Mortos, como uma coleção de feitiços, orações e hinos escritos em papiros e colocados nos túmulos.

Numa exposição no Museu Victoria and Albert, em Liverpool, aprendi que os ensinamentos do livro serviam como um passo a passo para os mortos entrarem no mundo inferior. A palavra livro, porém, não é uma descrição correta. Era mais um conjunto de textos em diferentes papiros. Os feitiços de proteção do Livro dos Mortos também eram escritos nas bandagens das múmias. Já o caixão oferecia proteção física e mágica ao corpo.

mumia e tumba

A jornada da alma no mundo dos mortos era descrita com detalhes. Lá na terra inferior, o sol viajaria ao contrário, do oeste ao leste, quando renascia. Os egípcios queriam que sua alma seguisse a jornada do sol, passando por 12 horas de “noite” no caminho. Tais horas eram, na verdade, regiões geográficas guardadas por criaturas assustadoras. O morto só poderia passar se demonstrasse conhecimento sobre os segredos do submundo, como os nomes desses guardiões ou dos deuses.

Por exemplo, o feitiço 145 do Livro dos Mortos diz: “Abra meu caminho! Eu sei quem é você, eu sei seu nome e eu sei o nome do deus que lhe guarda”. Com tal conhecimento, eles podiam passar para a próxima fase, a Sala das Duas Verdades, onde seriam julgados.

O morto era julgado pelo Deus Osiris, de acordo com o peso de seu coração. Se o peso fosse menor do que a Pena da Verdade, ele era uma pessoa honesta e ganharia uma vida eterna. Se falhasse, o deus Tot anotava o veredito num papiro e o monstro Ammut, o engolidor de mortos, se encarregava de dar fim ao espírito. Ammut era representado como uma mistura de um leão, crocodilo e hipopótamo, os três maiores animais devoradores de homens que os egípcios conheciam na época.

Se tudo desse certo no julgamento, o morto entrava na terra de Osiris, Aaru. Ali, um enorme campo era considerado um paraíso da agricultura, no qual todos seriam chamados a trabalhar depois da morte. É esse chamado para o trabalho na vida eterna que garante que, em qualquer exposição sobre o Antigo Egito que você visitar, encontrará uma centena de pequenas figurinhas. Essas esculturas são chamadas as shabti, que surgiram a partir do Império Médio, de 1975 a 1640 a.C.

egito antigo estatuas

“Elas representavam os servos daquele que estava na tumba. Cada uma era um trabalhador, para cada dia do ano”, explicou Omar durante a visita ao Museu Egípcio, no Cairo. Ainda segundo ele, nos túmulos mais antigos, ainda datados da pré-história (ou seja, antes da escrita ser criada), encontraram também as múmias de servos, o que leva a pensar que eles foram mortos para acompanhar seu amo. Mas os egípcios não eram um povo que banalizava a morte e não faziam sacrifícios, logo essa prática foi substituída pelas estátuas.

figuras servos egito antigo

Aliás, o túmulo era um lugar não só de proteção do corpo mumificado contra maus espíritos, também era o espaço onde deviam estar todas as informações para que a alma o reencontrasse. Por isso que em tantos túmulos é possível encontrar não só estátuas, mas pertences e anotações em hieroglifos sobre quem foi a pessoa e qual a vida que ela levou.

Quando o Egito foi tomado por Alexandre, o Grande, e os gregos passaram a governar, os segredos de como fazer múmias não foram passados para para frente. As múmias deixaram de ser tão cuidadosamente preparadas e eles sequer faziam caixões.

*O 360meridianos viajou a convite do Turismo do Egito. 

Sou jornalista, tenho 29 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite “morar no aeroporto”. Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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