Trem-fantasma: as estações que deixaram de existir em Berlim durante a Guerra Fria

Trem-fantasma: as estações que deixaram de existir em Berlim durante a Guerra Fria

No dia 9 de novembro de 1989, após uma confusa conferência de imprensa, o porta-voz do Partido Socialista Unificado da Alemanhã, Günter Schabowski, afirmou que, a partir daquele momento, seria permitido viajar entre os dois lados do Muro de Berlim. Não tardou para que as primeiras pessoas começassem a se aglomerar no check point em frente à ponte Bösebrücke, na Bornholmer Strasse, exigindo passagem do lado oriental para o ocidental. O coronel Harald Jäger guardava, naquele momento, o posto de segurança sozinho. Tentou, sem sucesso, pedir informações para seus superiores, mas só recebeu ordens confusas. Frustrado e incapaz de conter o povo, ele simplesmente abriu os portões e liberou a passagem.

Eu podia ver essa ponte e a avenida Bornholmer da janela do apartamento que me abrigou por cinco semanas em Berlim. Minhas anfitriãs eram alemãs bem jovens, cujas famílias viveram do lado leste do muro, a RDA (sigla para República Democrática Alemã), ou setor soviético. Segundo elas, a estação que hoje conhecemos como S-Bornholmer Str. era antes dividida: uma das linhas ia por baixo da terra e a outra por cima, tudo para que as divisões criadas com muro fossem respeitadas. Essa era uma das Geisterbahnhof, o nome alemão para as chamadas estações-fantasma.

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Sachsenhausen, o campo de concentração em Berlim

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Crédito Foto: Federal Archives, picture 183-1989-1118-018 / Roeske, Robert / CC-BY-SA 3.0

Quando a Segunda Guerra Mundial terminou e as potências aliadas – Estados Unidos, Inglaterra, Rússia e França – decidiram dividir a Alemanha e Berlim de acordo com suas próprias ideias, o desenho urbano da cidade não estava exatamente no topo da lista de preocupações. Com isso, a divisão de Berlim entre as quatro partes fez com que certos distritos, de posse dos soviéticos, estivessem por todos os lados cercados por territórios da Berlim Ocidental. Em 1961, quando o muro foi construído da noite para o dia, toda a complexa rede de transporte público foi afetada.

Segundo meu amigo Felipe, um aficionado por história, autor do blog Fotostrasse e que mora há seis anos em Berlim, uma forma fácil de identificar qual era o lado comunista e qual era o lado capitalista da cidade é reparar no mapa de transporte público. Veja bem:

As linhas de tram se concentram em um lado da cidade

O mapa de trams é muito mais elaborado de um lado da cidade. Isso porque, segundo o Felipe explicou, os soviéticos preferiram investir nesse tipo de transporte, que era mais barato e simples de executar. Já do lado ocidental, mais investimento em estações e linhas de metrô.

Além disso, diversas estações que existiam pré-muro começavam na área ocidental, passavam pela oriental, e continuavam para a área ocidental. O que acontecia se você estivesse nesse metrô? Na linha S, por exemplo, você ouviria um “Última parada em West Berlin”, ao passar pela Gesundbrunnen. Então, o trem seguiria em velocidade mais baixa, passando por uma ou várias estações-fantasma pouco iluminadas, com vislumbres de guardas armados da Alemanha Oriental, alguns dentro de proteções e concreto.

Nos mapas do metrô da Berlim Ocidental, as tais estações-fantasmas eram marcadas com “Bahnhöfe, auf denen die Züge nicht halten” ou seja, “estações onde os trens não param”. Já para quem estava do lado oriental, os mapas não mostram a existência das linhas ocidentais ou as estações-fantasma. Era como se aqueles lugares nunca tivessem existido. As entradas e escadas foram seladas com concreto e as placas removidas.

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Entrada de uma das estações-fantasma, U Bahn Stadtmitte. Foto: Von Frits Wiarda – Eigenes Werk, CC BY-SA 3.0

Três linhas foram cortadas dessa forma: a U6, U8 e o túnel Nord-Sud da S-Bahn.  Com isso, várias estações de S e U em Berlim que hoje são muito movimentadas eram estações-fantasmas até 1989 – Potzdammer Platz, Alexander Platz, Nordbahnhof. Havia, porém, uma anomalia. Bem no meio do território soviético ficava uma estação que não adquiriu o status de fantasma. Era Friedrichstrasse, também conhecida como o Palácio das Lágrimas (Tränenpalast).

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Mapa das estações fantasma. Crédito: Von Ericmetro – Eigenes Werk, CC0

Como a Friedrichstraße não só era uma estação de metrô, mas também de trem, esse era um lugar onde várias linhas que passavam pela Berlim ocidental se cruzavam na Berlim soviética. Com isso, a RDA construiu, em 1962, um posto de fronteira do hall da estação de trem e passou a controlar passaportes e vistos de quem queria viajar para a Berlim do ocidente por S-Bahn ou U-Bahn.

Um elaborado labirinto de barreiras e seguranças separava dois mundos, para evitar as frequentes tentativas de fuga. Era por ali que os cidadãos da Berlim ocidental poderiam cruzar para visitar parentes que viviam do outro lado. O nome Palácio das Lágrimas explica bem a emoção das despedidas. Estima-se também que espiões infiltrados de ambos os lados usavam a estação como ponto de acesso, e que membros do partido comunista podiam passar por ali sem revista ou sem ter a visita documentada.

24 horas depois que o Coronel Jäger abriu os portões da Bornholmer Strasse, outros seis check points da cidade passaram a liberar a passagem. A primeira estação-fantasma que foi reaberta ao público foi Jannowitzbrücke, em 11 de novembro de 1989, dois dias depois da queda da muro. Porém, ainda havia uma check point ali que funcionava como alfândega e controle de fronteira da RDA.

Quando essas estações-fantasmas foram reabertas, ainda havia nelas sinalizações dos anos 1940 e 1950. Hoje, quase 30 anos depois da queda do Muro de Berlim, é impossível distingui-las por seu valor histórico, salvo por algumas exposições gratuitas.

placa estação metro berlim

Crédito foto: Von Deror avi – Eigenes Werk

Serviço: como explorar a história das estações-fantasma

A organização Berliner Unterwelten promove tours pelos túneis abaixo do muro que existiram na época da Guerra Fria e passa por alguns desses locais fantasmas. Eu fiz com eles apenas o tour pelo Bunker da Segunda Guerra Mundial, mas achei o trabalho incrível e recomendo demais. Eles têm tours em inglês e espanhol que custam 12 euros.

Na estação de Friedrichstrasse fica um museu sobre o Palácio das Lágrimas. A exposição gratuita tem áudios, videos, fotos e textos sobre o período que vai de 1961 a 1989.

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queda do muro de berlim

Memorial da Bornholmer Strasse

Em frente à estação da Potzdammer Platz fica uma instalação com parte do Muro de Berlim e alguns murais com textos e fotos. Também gratuita e aberta, na rua, é o memorial em frente a S Bornholmer Str. Saindo da estação, à esquerda da ponte, fica uma série de murais com fotos, mapas, textos e áudios sobre o dia em que o Muro de Berlim caiu.

Sou jornalista, tenho 29 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite “morar no aeroporto”. Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

5 comentários em Trem-fantasma: as estações que deixaram de existir em Berlim durante a Guerra Fria

  1. Olá, Luiza. Sou muito fã do blog e gostaria de fazer uma correção. A sigla correta para a Alemanha oriental em alemão, República Democrática Alemã (RDA em português) é DDR (Deutsche Demokratische Republik) e não GDR como você escreveu na matéria acima. Bjs e sucesso.

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