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A crônica de um viajante desesperado por dinheiro

Tudo que ele queria era dinheiro para viajar. Não só para isso, mas também para pagar as contas e, se não fosse pedir demais, o suficiente para criar uma poupança gorda para o dia em que voltaria ao Brasil. Dois anos tinham se passado desde que ele abandonara o curso na UFMG para fazer um intercâmbio de três meses nos Estados Unidos.

Três meses que valeram por uma vida. Ele deixou o Brasil com um daqueles pacotes de Work and Travel, se dividindo entre o balcão de uma rede de fast food e viagens pela América do Norte. Não demorou para o intercâmbio virar emprego, para a casa temporária virar a oficial. A passagem de volta logo foi perdida; o curso na universidade foi trancado e rapidamente esquecido de vez. Querendo crescer na vida, migrou em busca de oportunidades cada vez melhores.

Foi assim que deixou Connecticut, estado ao norte de Nova York, e seguiu de carro para a Flórida, onde trabalhou em bares, hotéis e festas de casamento. Há muito ele tinha percebido que juntar dinheiro no exterior não seria tão fácil como tinham lhe dito. No Brasil, nos Estados Unidos ou na Europa, ainda é preciso pagar contas. Ganhar em dólares ajuda, mas os gastos na mesma moeda têm seu impacto no orçamento. Não que faltasse grana no fim do mês, longe disso. Mas para quem tem tantos planos, tantas viagens, tantas festas, para quem está naquela fase da vida em que poupar parece bobagem, sempre é bom ter uns trocados a mais.

Por do sol em Nova York - Skyline

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Cansado e com saudade da família e dos amigos, ele comprou uma passagem de volta para o Brasil e marcou a data de saída do emprego. Daquela vez ele ia mesmo, prometeu. Num sprint final digno dos melhores atletas, tentou aumentar os ganhos nos últimos meses nos Estados Unidos. Acumulou horas de trabalho e abriu mão de horas de sono; limitou as festas e bebereiras, adiou planos e arquitetou o sonho: muito trabalho, uma roadtrip à Kerouac, uma semaninha em Nova York e depois casa.

Mas planos são, como garantiu aquela frase clichê que ele viu no Facebook, o tipo de coisa que fazemos enquanto a vida acontece. Com o prazo final se aproximando e a falta de grana no banco, parecia que o único jeito seria adiar novamente a volta. O que daria razão para a mãe, que há tempos tinha aprendido que o retorno do filho era quase que um evento messiânico, aquele dia prometido que nunca chegava.

Foi nesse momento que chegou outra coisa, uma proposta. E tudo mudou. Trabalho fácil, que pagava muito bem, mas cuja função era, err, polêmica, para dizer o mínimo. Descobriu a vaga durante uma viagem de fim de semana para o Texas, em que ficou na casa de uns colombianos que tinha conhecido em Miami. E que casa! Quase uma mansão, com móveis e eletrodomésticos caríssimos. “Como vocês conseguem manter isso?”, perguntou. Gostou da resposta, mas teve medo.

Ele pensou uma, duas, três vezes. E aceitou o trampo: até sexta sou garçom, a partir de segunda serei uma cobaia humana. Largou o emprego para ingerir pílulas com efeitos questionáveis para saúde. A diferença é que dessa vez ele iria ganhar dinheiro de verdade – e no fim até passaria a se alimentar melhor.

Nos Estados Unidos, a indústria farmacêutica paga caro para quem está disposto a testar o funcionamento de certas drogas. Quanto mais complexo o tratamento, mais dólares no bolso – testes de fim de semana costumam render dois mil dólares, procedimentos de 10 a 15 dias podem chegar a seis mil. Mas não precisa se preocupar, diziam, tudo que você ingerir já foi exaustivamente testado em macacos. As pílulas só chegam aos humanos se não houve problemas com os bichos. É seguro, você tem que passar por uma bateria de exames antes de ser aceito, só pra garantir que tudo vai dar certo. Dá para fazer uma poupança e auxiliar no desenvolvimento de novos remédios. Ainda ajudo os outros, pensou. No fim, Nova York.

Começou pelos testes mais simples, para remédios que controlavam dores de cabeça. De uma só vez ele teve tudo que o resto do mundo sonha: dinheiro e tempo, já que seu novo trabalho exigia muito pouco do último e dava de sobra do primeiro. Como não teve efeito colateral, alçou voos mais altos. Na sala de uma clinica, um grande relógio vermelho marcava as horas. “Às 17h vocês tomam a primeira pílula. Às 17h05 vamos tirar uma amostra do sangue de todos. Exatamente cinco minutos depois vocês tomam um copo d’água”, explicaram os cientistas. Só me diz onde assinar.

Durante um teste de medicamento para colesterol alto, ficou cinco minutos gemendo numa maca. A dor passou da mesma forma que chegou, e o fim do teste foi assistindo um filme. Outro exame provocou uma crise coletiva de coceira, mas o pior, sem dúvida nenhuma, foi um para bexiga descontrolada. Pior para os colegas de firma, que sofreram horrores enquanto ele assistia ao filme do dia e se alegrava por aparentemente ter caído com um placebo.

Anos depois, em mesas de bar, contaria que foi por causa das drogas que conheceu os Estados Unidos de um lado ao outro; que o estilo da hospedagem mudou completamente; que a vida virou uma sucessão de festas e, por que não, compras. Encheu malas e malas de roupas novas, adquiriu os eletrônicos mais modernos e fez uma poupança que o manteria por meses, quando finalmente voltasse para casa. Era um dinheiro tão fácil que resolveu estender, mais uma vez, a estadia no país – numa dessas resolvo minha vida, pensou.

Vinte e dois testes, alguns quilos a menos e 80 mil dólares depois, recebeu a ligação de um laboratório que ficava do outro lado do país. “O senhor precisa voltar aqui imediatamente. Não, não podemos dar detalhes, mas é urgente. É que os macacos morreram”.

Desligou o telefone e voltou para casa.

Este é o primeiro conto de uma série que será baseada em casos reais. Quem me contou essa história foi um grande amigo, o Saulo, que hoje vive em Belo Horizonte. Tem um relato interessante que pode aparecer aqui? Fale com a gente, no email [email protected], e nos ajude a contar boas histórias.

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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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13 comentários sobre o texto “A crônica de um viajante desesperado por dinheiro

    1. haha.

      Bom, ele tá bem, hoje dá aulas de inglês aqui em Belo Horizonte. Nunca voltou aos Estados Unidos e não quis saber de voltar ao laboratório, então ele mesmo não sabe o fim da história. 😛

      Obrigado pelo comentário, Andrea. 🙂

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