Aprendi que viver entre fantasmas é melhor do que viver sem eles

Ando entre fantasmas. Os meus, os dos outros, e que de mim eram só conhecidos, e aqueles que nunca existiram em lugar algum além da minha imaginação. Subo o tobogã da Contorno e me encontro com minha mãe, que desce a avenida em forma de saudade – foram tantos encontros exatamente ali, eu voltando da aula e ela indo para a Savassi, que é impossível não vê-la, mesmo uma década depois.

Me acostumei a observá-la toda vez que passava em frente à casa, da janela de onde ela, sempre sorrindo, tanto me viu chegar. Ficou mais difícil agora, com a janela dando lugar aos tapumes de um prédio em construção… Se vou ao supermercado me lembro das várias compras em família naquele mesmo estabelecimento. Olho para uma esquina e ela está ali, com meus avós maternos, que também já se foram.

Eles aparecem na Praça do ABC, na Feira da Bernardo Monteiro, na padaria da Rua Maranhão. No Ginástico, na Avenida Getúlio Vargas, na Praça da Liberdade e na sorveteria São Domingos. No boteco que virou hamburgueria artesanal e no clube que hoje é supermercado – memórias de um banho de piscina entre prateleiras repletas de mercadorias. Tantas lembranças que, confesso, por alguns anos tive medo dessa parte de Belo Horizonte. E por ali não gostava de passar.

vista de belo horizonte, prédios da zona centro-sul

Passou o tempo e eu aprendi a colocar todas essas memórias em outra gaveta, mais feliz. Hoje, se os encontro numa esquina qualquer, solto um sorriso involuntário. Se vejo minha mãe caminhando em frente ao shopping, me alegro. Aprendi que viver entre fantasmas é melhor do que viver sem eles – o que, no fim das contas, seria mesmo impossível.

Não perdi tanta gente assim, eu sei, e por isso agradeço todos os dias. Mas as perdas que já ocorreram só alimentam o medo terrível pela saudade que ainda há de vir. E aí a gente percebe que viver entre fantasmas pode até ser inevitável, mas é fácil evitar os vivos – e fazemos isso com frequência. Problemas surgem, planos são alterados e encontros deixados para depois, adiamentos sem data definida no meio do turbilhão que é a vida. Talvez esse seja um dos grandes aprendizados dos trinta e poucos: pra mim, estar perto de quem amo vale muito mais do que uma vida de aventuras do outro lado do mundo.

“Do lado esquerdo carrego meus mortos. Por isso caminho um pouco de banda”. O verso é do Drummond, que tem obra vasta quando o assunto é morte. Ele também escreveu sobre os mortos que habitam em nós – os defuntos humanos e as memórias mortas, de coisas e lugares que já não existem. A vida traz, aos poucos, a certeza de que tudo é transitório.

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Numa crônica sobre BH, onde o poeta viveu na juventude e para onde não teve coragem de voltar na velhice, ele lamenta o boteco querido que já não existe mais, a Serra do Curral que já não era a mesma e os casarões que foram dando lugar aos prédios. O problema não é a cidade seguir em frente, afinal ela também é parte dessa transformação constante que engole a tudo e a todos. É perceber que até a cidade por onde espalhamos nossos fantasmas um dia será um espectro daquela que conhecemos. “Destruídas lá fora, as coisas vão se recompondo cá dentro, até que, com a nossa morte, se acabem de vez”, escreveu ele, em outra crônica.

Estava pensando nisso e concluí ser essa a razão para eu ser tão apaixonado por Belo Horizonte. Não é só pela comida, pelo número absurdo de bares, pelo infinito de prédios emoldurados pela Serra do Curral. Nem pela Pampulha, pelo jeitão de interior, pelos jogos no Independência e pelos prédios e museus da Praça da Liberdade. Tudo isso conta, claro, mas se amo essa cidade, o faço porque em todos esses lugares amei e fui amado; porque a cada esquina me deparo com lembranças, boas e ruins, que contribuem para formar quem eu sou. Todo dia que caminho por BH, ainda mais quando por ruas muito conhecidas, é um dia feliz do melhor turismo que existe, o afetivo. Funciona da mesma forma, só em outra proporção, para cidades onde também vivi momentos importantes da vida, como São Paulo, Porto Alegre, Santa Maria e um ou outro destino fora do Brasil.

A vida é longa e nela cabe muita coisa: churrascos de domingo, casa de vó, conversa despretensiosa com quem amamos, beijos, abraços, e, por que não, brigas, raiva e até um pouquinho de tédio. E, claro, tem espaço para uma multidão de novas memórias, novos lugares, novos amores. O clichê é real, mas nem por isso compreendido sempre: por mais triste que seja, a eterna transitoriedade de tudo grita para que aprendamos logo a dar valor aos que nos amam inesgotavelmente.


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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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8 comentários sobre o texto “Aprendi que viver entre fantasmas é melhor do que viver sem eles

  1. Crônica perfeita!! Quando revisitamos os lugares, vem até a memória todos os sentimentos. O passar do tempo torna os momentos felizes em novamente felizes, o que até há pouco tempo trazia ressentimentos. O tempo é nosso grande amigo, por isso também devemos valorizá-lo frente as pessoas que amamos. O texto mostra toda tua sensibilidade.

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