Em tempos de pandemia, um pouco de medo não faz mal a ninguém

Com a angústia como companhia, nem o mais isolado de nós consegue ficar sozinho na quarentena. Ainda é difícil digerir como tudo aconteceu, fatos em série que mudaram a vida ao redor do globo.

Por aqui não foi diferente. Há pouco mais de 20 dias eu me preparava para uma sequência de viagens, quando, um após outro, os compromissos foram cancelados. Confesso que encarei as mudanças de planos com alívio: enfrentar o coronavírus na estrada era algo que eu definitivamente não queria fazer.

Como é de se esperar numa empresa cujo foco é turismo, quando apagaram as viagens, fecharam as fronteiras e sumiram com os voos, desapareceu também o nosso ganha-pão. Não tenho a menor expectativa de que ele reapareça pelos próximos meses – e, mesmo quando ressurgir, acho que fará isso de forma tímida, num mundo com mais distâncias e bem menos viajantes.

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Preocupações orçamentarias? Claro, várias. Nessa altura, com a pandemia implodindo a economia, só não as têm quem tem dinheiro de sobra. Seres afortunados que, se topassem seguir as medidas de isolamento, poderiam até riscar itens da lista de angústias coletivas. No lugar disso, alguns preferem aumentá-las: foram vistos por aí em boiadas, digo, carreatas, destemidos em seus veículos de luxo e pedindo a volta de um mundo que já não existe mais. Ao mesmo tempo, o desemprego bate na porta e a falta de dinheiro para comer força quem realmente quer se isolar a correr o risco das ruas.

Enquanto a caravana passa, os cães ladram e a pandemia se aprofunda, muitos de nós não tivemos tempo de lamentar pelo que foi perdido, seja o dinheiro suado, o emprego de anos ou os planos cuidadosamente traçados ao longo de meses. Se tem uma coisa que a vida adulta rapidamente ensina é que a angústia causada pelos boletos sequer é comparada com aquela que envolve saúde.

Há quem diga que tudo não passa de histeria. E até é verdade que o medo, esse ser indomável, se espalha mais rapidamente que o vírus, contaminando bem mais que duas ou três pessoas a cada esquina. Mas, neste momento, a quem falta o medo, falta também sensatez. E isso não é ser alarmista. Sei que a Covid-19 deixa 80% das pessoas sem sintomas graves – muitas delas até sem quaisquer sintomas, batalhão de saudáveis que, se desquarantenados, infectam outros tantos. Mas vai me dizer que só isso já não é motivo suficiente para angústia?

Em meio a tantas infecções, a ponta do iceberg num mar de contágio, lotam-se os hospitais, que temem não dar conta da demanda. E mortes, já contadas aos milhares, dezenas de milhares, alguns pesquisadores prometem centenas de milhares. Afinal, o percentual de letalidade pode até parecer baixo, mas definitivamente não desprezível, ainda mais quando o número de infectados cresce exponencialmente.

O escritor inglês John Donne ensinou que a morte de qualquer pessoa nos diminui, porque somos todos parte do gênero humano. Quando elas ocorrem no plural, coletivas até na impossibilidade de velório e na proibição do luto, os que têm alma morrem também coletivamente, mesmo quando sobrevivem.

“E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”, ele nos ensina, numa frase imortalizada por Hemingway, que a usou de epígrafe em uma de suas maiores obras.

Frase que pode muito bem ser adaptada para tempos de pandemia: não pergunte quem foi aquele idoso que morreu sozinho numa UTI, sem direito sequer a uma procissão de abraços na família enlutada; não queira saber quem foi o jovem que, mesmo com 26 anos e sem outros problemas de saúde, partiu desse mundo por conta de um vírus de gripe. O mesmo vale para o trabalhador de baixa renda que, agora sem emprego e abandonado pelo patrão e com a demora do governo, é deixado à mercê da fome e do vírus. Toda morte é a sua, é a minha, é nossa.

Quando caminhões do exército começarem a carregar corpos para despedidas solitárias, tal qual ocorre na Europa, estarão lá os cadáveres da nossa civilização.

Pensando bem, a quem falta o medo e a angústia, falta é empatia. E seres assim jamais vão entender uma quarentena, afinal estão sempre sozinhos, até quando cercados por multidões.


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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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2 comentários sobre o texto “Em tempos de pandemia, um pouco de medo não faz mal a ninguém

  1. Como disse o filósofo Jolivet: “O homem é livre pra escolher entre o bem e o mal, mas será eternamente responsável pela escolha que fizer “.

    Parabéns pelo texto.

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