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Não há dor maior do que sofrer sem despedida

“Filho, tenho uma notícia muito triste pra te dar”. Enquanto meu pai juntava coragem para anunciar a dor sem fim, mergulhei no vazio e encontrei o desespero. “Sua mãe morreu”.

Mãe. Morreu. Justo a combinação de palavras que não poderia ocorrer – mãe deveria ser sinônimo de eternidade. Mas a minha já não vivia há 12 horas – doze horas que eu passei vivendo, viajando, bebendo, passeando, rindo. Vivi desmedidamente enquanto morria quem me deu a vida.

Eu curtia o verão sul-africano, mas meu mundo já tinha acabado. Minha família estava em pedaços e, desesperada, tentava me encontrar a um oceano de distância. Isso aconteceu há uma década, quando mensagens intercontinentais não viajavam por apps e smartphones eram sonhos longínquos.

Quase 10 anos, hein, mãe? Saudade.

De lá pra cá, viajei mais, sempre vencendo o pavor, esse é o nome, que toma conta de mim a cada embarque para longe de casa – desconheço alguém que trabalhe viajando que tenha mais medo de viajar. Mesmo assim, morei fora, rodei o mundo, passei a escrever sobre turismo e contar histórias de além-mar.

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Escrever virou minha vida inteira, mas essa foi a única história que não contei. Preferi guardar você só pra mim. Se agora violo o segredo, não é pelo passar da década, embora o tempo ajude a acomodar as dores nos cantinhos da alma. Conto porque tenho medo.

Num momento em que tantos morrem, temo perder os meus; na hora em que a vida vale tão pouco, me encho de terror ao constatar o amor infinito que carrego no peito. E o tanto que tenho a perder. Se a pandemia nos sobrecarrega de receios, a empatia lota o coração com a dor dos outros. Poucas vezes a dor foi tão simultânea e, ao mesmo tempo, tão solitária.

Veríssimo escreveu sobre a ironia de que ninguém estará presente na ocasião social mais importante da vida: o próprio velório. Não saberemos quem foi e quem faltou, quem chorou sem parar e quem saiu para tomar um cafezinho. A era do coronavírus acaba com o problema, mas às avessas. Agora nem mortos e nem vivos vão aos velórios, que não existem mais.

cemiterio-despedidas

E nem devem existir, já que aglomerações podem levar ainda mais pessoas ao outro mundo – o vírus não respeita o luto. Mas assumir isso não resolve a tristeza das perdas sem abraços, sem choro coletivo, despedidas, últimas palavras ao lado do caixão. Sem o remoer de remorsos e os pedidos de desculpas.

Desaparecem também piadas, brincadeiras fora de hora e o resgate de memórias familiares que, ainda que tímida e precocemente, começam a surgir ali. E que lá na frente concluirão o luto. A despedida pode ser televisionada – e assim tem sido mundo afora – mas, quem diria, avatares não substituem seres humanos. E até nisso a desigualdade dá as caras: organizar velório online é privilégio de classe média.

A pandemia acaba até com os derradeiros segundos em família antes da volta ao pó, durante o carregar do caixão ao encontro da cova, agora feito por sepultadores em roupas de astronauta. E isso quando ela permite uma sepultura, a eterna morada particular, o deitar com nossos antepassados.

Há casos, menos raros do que gostaríamos, em que impera o terror das valas coletivas, das câmaras frigoríficas, do amontoar de corpos. O colapso da saúde é também o da dignidade.

Quando minha mãe se foi, descobri que existe medo após a morte: o de não chegar a tempo das despedidas.

Ônibus, táxi, noite insone em hotel, pesadelo. “Meu Deus, não era sonho, meu Deus.” Táxi, aeroporto, avião, mais um, ônibus, troca de aeroporto, último embarque, desembarque, pega as malas. Trinta e seis horas se passaram até que eu pudesse, enfim, chorar com minha família. Deu tempo – e todos os dias sou grato por isso.

Até agora perdemos 20 mil vidas, mas número não descreve sofrimento. E não há dor maior do sofrer sem despedida.

Leia também: Aprendi que viver entre fantasmas é melhor do que viver sem eles


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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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2 comentários sobre o texto “Não há dor maior do que sofrer sem despedida

  1. Poxa, que texto intenso…
    Eu cheguei até aqui pra buscar benchmarks de tipologia de textos, mas acabei ficando até o fim impactado com essa história. Meus sentimentos pela sua perda e por todos que infelizmente perderam alguem nestes dias que estão nos ensinando a sermos mais amorosos.

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