Casas também morrem – e com elas se vão, aos poucos, cidades inteiras

Da minha varanda avisto o passado. Fecho os olhos. Vejo uma casa com três janelas, todas gradeadas. A parede é totalmente tomada pela hera, que avança, paciente, ano a ano, até que chega ao muro da frente. A planta só dá uma folga no portão cinza. Portão que passou décadas destrancado — e produzindo um ruído forte, metálico, enferrujado, a cada abertura.

Resolvo entrar. Puxo o portão — o barulho, guardado em algum cantinho da memória, ressurge, e coloca um sorriso em meu rosto. Nas duas pontas da garagem, bancos de concreto, que eu e meus primos fazíamos de traves, para o futebol de todos os domingos.

Abaixo das três janelas e só visível de dentro, outra, a do porão. E no canto esquerdo da casa, uma escada. Degraus de pedra até a porta de entrada. Porta que por décadas se abriu para a mesma família, que recebeu as mesmas pessoas. E que sobreviveu a algumas delas. Como se só elas, a porta, a casa, fossem eternas.

Abro os olhos. Da minha varanda avisto o futuro. A quinhentos metros de mim, no alto do morro que conheço tão bem, vejo crescer um arranha-céu. As três janelas não estão mais lá. Nem a porta, as paredes cobertas de hera, o portão cinza, a garagem, a casa. Foram demolidas, desmontadas, apagadas por uma cidade que precisa crescer.

Trocadas por tapumes azuis, andares que sobem ao céu, guindaste amarelo que trabalha sem parar. Entre e confira: apartamentos de dois e três quartos, operários de capacetes vermelhos que constroem outras histórias enquanto desmontam parte da minha. Tudo isso no endereço que por décadas foi meu, foi nosso, foi familiar. E se acabou.

Por uma dessas coincidências da vida, passei na porta da casa justo no dia da demolição — ela já estava sem telhado, sem janelas, sem hera. Sem vida, aceitava em silêncio o triste avançar do trator.

A gente raramente pensa nisso, mas casas morrem. E como cidades nada mais são que a soma de suas casas, prédios e construções, para elas o fim também chega. A Belo Horizonte que hoje existe não é mesma de cem anos atrás: foram-se os fícus, a cidade-jardim, várias praças, algumas igrejas, quase todos os teatros, a maioria das casas, os bondes e até os rios, que descansam eternamente debaixo do asfalto.

E a própria capital mineira, para nascer, apagou do mapa o vilarejo que existia no endereço que hoje é belo-horizontino. Igrejas e casarões centenários jogados ao chão para que do chão pudesse brotar a metrópole republicana.

curral del rei

Curral del Rei, vilarejo fundado em 1701 e que existia onde hoje está Belo Horizonte

Não é assim só aqui, claro, mas em todo lugar. De Recife a São Paulo, de Natal a Porto Alegre. O Rio de Janeiro de hoje também não é o mesmo de séculos atrás. Surgiram novas praias, enquanto outras desapareceram. O eixo da cidade mudou completamente — e o Rio, que por séculos esteve de costas pro mar, se voltou ao Atlântico. Virou memória o Palácio Monroe, imponente sede do Senado Federal. E até o Morro do Castelo — sim, um morro inteiro — foi arrasado, transformado em aterro e, depois, em aeroporto.

A modernidade não poupou nem a tumba original de Estácio de Sá, apagada junto com a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, fundada por ele em 1° de março de 1565, tirando do mapa a terra maravilhosa dos tupinambás.

Há cidades que mudam tanto que trocam até de nome. Florianópolis já foi Nossa Senhora do Desterro; Belo Horizonte nasceu Cidade de Minas e João Pessoa atendeu por Nossa Senhora das Neves, Frederikstad e Cidade da Parahyba, muito prazer. Até que mataram o tal do João Pessoa e garantiram o nome atual. E uma revolução.

O avançar da história é inevitável. Quando a gente olha com séculos de diferença, é simples aceitar isso. É fácil olhar pra Roma e entender que os romanos e suas ruínas são passado; observar Paris e imaginar a Bastilha, contemplar Londres e enxergar as várias cidades que não existem mais, mesmo estando todas ali.

Difícil é aceitar que as casas, as nossas casas, os nossos bares, lugares, pilares, estão, aos poucos se acabando.

“A família é pois uma arrumação de móveis, soma de linhas, volumes, superfícies. E são portas, chaves, pratos, camas, embrulhos esquecidos, também um corredor e o espaço entre o armário e a parede onde se deposita certa porção de silêncio, traças e poeira que de longe em longe se remove… e insiste”

Carlos Drummond de Andrade, em Rosa do Povo 

morro do castelo, rio

Morro do Castelo, no Rio de Janeiro, em pintura de 1885. Toda a região desapareceu na década de 1920. A terra do morro foi utilizada para aterrar o pedaço de mar que mais tarde recebeu o aeroporto Santos Dumont.

Dia desses vi outra demolição, parecida com a da casa de minha família materna. Foi no Prado, um dos bairros mais tradicionais de Belo Horizonte. E que ainda está repleto de construções dos anos 1930 e 1940, feitas naquele modernismo que tomou a capital mineira após o Niemeyer encarnar por aqui.

Ao caminhar por uma rua de poucos prédios, trombei com uma pequena multidão. Juntos, todos olhavam para a casa, que era, peça a peça, desmanchada por um trator. Modernismo em pedaços transformado em passado.

— É triste né?

— A senhora morava aqui?

— Não, sou vizinha. Nem me lembro que família era, já tem anos que está vazia. Mas olha só, tanta gente assistindo, tanto silêncio. Parece um funeral.

Clube Grandes Viajantes

Olá, somos a Luíza Antunes, o Rafael Sette Câmara e a Natália Becattini. Há 10 anos fazemos o 360meridianos, um blog que nasceu da nossa vontade de conhecer outras terras, outros povos, outras formas de ver o mundo. Mas nós começamos a sonhar com a estrada ainda crianças e sem sair de casa, por meio de livros sobre lugares fantásticos. A gente acredita que algumas das histórias mais incríveis do mundo são sobre viagens: a Ilíada, de Homero, Dom Quixote, de Cervantes; Harry Potter, Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos. Todo bom livro é uma viagem no tempo e no espaço. E foi por isso que nasceu o Grandes Viajantes: o clube literário do 360meridianos. Uma comunidade feita para você que ama ler, escrever e viajar.

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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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5 comentários sobre o texto “Casas também morrem – e com elas se vão, aos poucos, cidades inteiras

  1. Lindo texto. Comovente. Uma pena que mt se perde assim. Obras mais significativas deveriam.ser conservadas. Nao tenho coragem de ver uma demolição. É uma das coisas mais tristes q existem.

    1. Nossa, é triste demais, Luciana.

      Foi terrível o dia que vi a casa dos meus avós, de minha mãe, ser demolida.

      Abraço e obrigado pelo comentário.

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