Toda hora é hora para uma arepa

Parada em uma nesga de sombra projetada por um casarão colonial da cidade amuralhada de Cartagena das Índias, eu tentava decidir qual dos cavaleiros do apocalipse venceria o duelo interno que eu enfrentava naquele momento. De um lado, o calor brigava para que eu permanecesse bem ali onde estava, protegida do sol implacável que só o Caribe Colombiano conhece. Mover-me parecia uma decisão inconcebível e a ideia de ficar por ali parada até anoitecer parecia não apenas aceitável, mas também bastante lógica. Do outro, a fome urgia, despertando em mim o instinto mais básico de sobrevivência.

Demorou um pouco até que, com um suspiro de rendição, eu seguisse contornando os muros da cidade em busca de algo para comer, decidida a não gastar fortunas dentro dos restaurantes superfaturados que pipocam no centro histórico. Mas, se existe alguma verdade universal, é que você nunca vai encontrar aquilo que você está procurando enquanto você está procurando, e atendendo a essa lei da física quântica, todos os vendedores de comida de rua de Cartagena desapareceram no momento em que eu tomei a decisão de ir até eles. A salvação só veio do lado de fora do muros, no tumultuado centro da cidade, das mãos de um senhor que gritava “Duas arepas e um refresco por 4500 pesos”.

Comida de rua em Cartagena

Só parei para pensar na procedência da água do suco de tamarindo vendido ali aos litros na metade do copo, mas o líquido gelado me convenceu que me preocuparia com as consequências mais tarde (consequências essas que nunca vieram, ufa!). Já na primeira mordida da primeira arepa, duas coisas ficaram claras para mim: 1) uma só teria sido mais que suficiente para matar minha fome e 2) eu queria comer arepas todos os dias, pelo resto da minha vida.

A arepa nada mais é que um bolinho achatado feito de farinha de milho. E é nessa receita simples que mora a genialidade do prato. O sabor suave, a textura macia que mescla delicadamente com o queijo derretido no interior explicam porque esse é um dos maiores ícones gastronômicos não apenas da Colômbia, mas também da vizinha Venezuela, país com o qual trava uma disputa silenciosa e sem sentido pelo reconhecimento do prato. É que a fórmula mágica da arepa remonta aos indígenas que habitavam a região muito antes da colonização, quando ali ainda não se conhecia essa coisa de fronteiras e postos alfandegários.

Arepas colombianas

É verdade que, ao longo dos séculos, cada país encontrou sua própria forma de tornar a arepa mais sua. Na Venezuela, o pãozinho costuma ser usado como base de um sanduíche, com um corte no meio para receber o recheio. Na Colômbia, o formato mais se parece a um bolinho. Há também variações regionais dentro dos países, cada cantinho inventando sua forma de comer a arepa. O que não muda de nenhum dos lados da fronteira é a versatilidade do prato: é servida no café da manhã, almoço e jantar. Toda hora é hora para uma arepa.

Mas engana-se muito quem pensa que a arepa tem qualquer coisa a ver com as tortilhas de milho onipresentes no México. A matéria-prima pode até ser a mesma, mas as tortilhas são finas e servem para acompanhar e, algumas vezes, até mesmo como “embalagem” do prato principal. Já as arepas mais se assemelham a pães e são as estrelas da refeição. Os recheios são bem-vindos e podem variar de acordo com a criatividade do chef, mas a arepa assim, sozinha, já se basta.

Talvez fosse a fome do momento, mas eu não encontrei, em toda a viagem, outra arepa que me fizesse tão feliz quanto aquela primeira. Durante minha busca, conheci as muitas versões dela. Descobri que elas podem ser grelhadas, cozidas, fritas, feitas com farinha de milho branco ou amarelo, mais grossas ou mais finas, de ovo ou de queijo.

Dias mais tarde, em Santa Marta, descrevi exatamente o que eu procurava à senhora que vendia arepas na beira da praia. “Ah, essa, minha filha, essa não se vende a essa hora do dia, você tem que voltar mais de tardinha”, disse ela. Entendi, então, que não só toda hora é hora de arepa, como também há uma arepa para cada hora.

Imagem destacada: Shutterstock, By LMBrauer

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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter inconstante, a Vírgulas Rebeldes, na qual publico crônicas e contos . Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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6 comentários sobre o texto “Toda hora é hora para uma arepa

  1. Minha boca encheu de água aqui. Amava quando as migas colombianas faziam essa maravilha de delícia de lanche para a gente na república.. Que vontade que deu.

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