Artur Azevedo e as crônicas dos primeiros anos de Belo Horizonte

O dia 12 de dezembro de 1897 marcou a inauguração da então Cidade de Minas Gerais. Ainda com obras para todos os lados e a promessa de ser um símbolo de modernidade, a transferência da sede do poder do estado buscava uma ruptura definitiva com o passado colonial. E foi recebida, por todas as partes, como um sinal dos novos tempos que começavam na jovem República brasileira.

Alguns anos depois, o escritor Artur Azevedo foi escolhido pelo jornal carioca O Paíz para visitar a nova capital de Minas e retratar, em forma de crônica, os primeiros anos daquela que se propunha a ser um símbolo do progresso para o estado e o país. 

A Belo Horizonte que Artur Azevedo encontrou

Batizada de Belo Horizonte apenas três anos após sua fundação, nome herdado do antigo Arraial que havia por ali e que até a Proclamação da República se chamava Curral del Rei, a nova capital de Minas foi a primeira cidade planejada no país no período moderno.

Imagem do curral del rey

Matriz da Boa Viagem de Curral del Rei, que existiu até a década de 1920 no centro de Belo Horizonte

Inspirada nos modelos urbanos de Paris e Washington, ela exibia avenidas largas e extensas, malha perpendicular com ruas que se interceptavam na diagonal, inúmeras praças e áreas verdes e espaços que valorizavam tanto o paisagismo urbano quanto os belos edifícios projetados para serem prédios públicos. Tudo isso dentro dos limites da Avenida do Contorno, uma via circular que delimitava as divisas da cidade. 

O projeto do arquiteto e urbanista Aarão Reis foi considerado, na época, sofisticado e inovador. A proposta buscava refletir os valores da República e o pensamento positivista, em contraste com as ruas estreitas e tortuosas das vilas coloniais do Império, em especial a antiga capital mineira, Ouro Preto. 

As crônicas do escritor refletem muito do sentimento dominante da época. Azevedo se mostra impressionado com a modernidade da cidade, na qual, afirmou, tudo era “novo, novinho em folha. (…) as ruas, as casas, os próprios habitantes, pois é raro encontrar ali pessoas velhas.”

A grandiosidade do projeto também o marcou. Sua primeira impressão foi de não haver na cidade “Nem uma rua: tudo avenidas! Nem uma habitação modesta: tudo palácios, palacetes, ou casas assobradadas, de aparência nobre, sacrificando ao jardim uma boa parte do terreno”.

Praça da Liberdade, BH, na inauguração da cidade (foto antiga)

Muitos dos locais citados por ele nos artigos já não existem: foram demolidos e substituídos. Algumas das ruas mudaram de nome. As árvores, na época ainda pequenas e incapazes de proteger as pessoas do sol, cresceram nas décadas seguintes, o que acabou trazendo para Belo Horizonte o apelido de Cidade Jardim. Mas isso também não demorou a mudar, e nas décadas seguintes muitas dessas árvores deram espaço para o concreto. 

Parte da opulência que tanto impressionou o escritor também já desapareceu, após mais de um século de vida urbana. E, em muitos momentos, o descaso com o patrimônio público que leva à deterioração dos espaços. Mas ainda tem muito da BH que Azevedo viu na cidade que moradores e visitantes encontram hoje. 

São diversos marcos, nomes e edifícios que ainda fazem parte do dia a dia da capital e podem ser reconhecidos nas ruas, o que faz com que a leitura deste livro seja como embarcar em uma viagem ao passado.

Publicada nas edições do Paíz entre novembro de 1901 e fevereiro de 1902 e reproduzida no Diário de Minas no mesmo período, a coletânea conhecida como Um Passeio a Minas soma 13 crônicas sobre diferentes aspectos da vida na jovem capital mineira. Todas elas foram reeditadas e reunidas pela primeira vez em formato de livro para o Clube Grandes Viajantes

Artur Azevedo e o teatro brasileiro no século 20

Artur Azevedo Na década de 1920, o antigo Teatro São Luiz, no Maranhão, mudou seu nome para Teatro Arthur Azevedo. A homenagem foi merecida: o escritor maranhense é considerado um dos principais dramaturgos do país. 

Nascido em São Luís, em uma família de costumes ousados para a época (seus pais viveram juntos por muitos anos e só se casaram quando o primeiro marido da mãe morreu de febre amarela), Artur já mostrava interesse pelas artes cênicas aos oito anos, quando adaptava textos de autores como Joaquim Manuel de Macedo. Aos 15, escreveu sua primeira peça, Amor por anexins, que foi representada inúmeras vezes em todo país. 

Irmão de outro famoso nome da literatura nacional, Aluísio Azevedo, Artur escreveu milhares de artigos sobre eventos artísticos e chegou a escrever e atuar em mais de cem peças no Brasil e em Portugal. Algumas delas são encenadas ainda hoje, como A joia, A Capital Federal, A almanjarra e O Mambembe. Os dois irmãos Azevedo estavam no grupo que fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897. 

Por meio de seus artigos na imprensa, militou ativamente pela construção do Teatro Nacional no Rio de Janeiro, cidade para a qual se mudou devido ao trabalho como funcionário da Fazenda e onde passou boa parte da vida adulta. Artur é ainda hoje lembrado como um dos grandes responsáveis por fazer a obra sair do papel. 

Mas não foi só na dramaturgia que ele fez história. Jornalista publicado em alguns dos principais veículos do Brasil, Azevedo também escreveu diversas crônicas e contos. Nesses gêneros, assim como em suas peças, seu tema favorito era o cotidiano da vida carioca.

Observador perspicaz dos hábitos urbanos, ele se interessava por temas como as relações humanas – que iam da vida familiar à amizade, paixão e infidelidade -, as festas e celebrações tradicionais, os enterros, despedidas, encontros e reuniões. Tudo o que se passava pelas ruas da então capital do país virava matéria-prima para suas obras, o que acabou por transformá-lo em um documentarista acidental das transformações vividas pela cidade na época.

O escritor chegou a fundar publicações literárias, como A Gazetinha, Vida Moderna e O Álbum. Era amigo de Machado de Assis, a quem dedicou um volume de contos publicado em 1889 e com quem colaborou em A Estação e no Jornal Novidades, ao lado de nomes como Olavo Bilac e Coelho Neto. 

Ao contrário dos outros escritores de quem foi contemporâneo, no entanto, seu estilo não se encaixava tanto na literatura parnasiana, vertente em voga na época. O escritor tinha uma personalidade alegre e expansiva e, em especial quando se dedicava à poesia, esbanjava lirismo e sentimentalismo, sem nunca perder o bom humor. 

Clube Grandes Viajantes

Olá, somos a Luíza Antunes, o Rafael Sette Câmara e a Natália Becattini. Há 10 anos fazemos o 360meridianos, um blog que nasceu da nossa vontade de conhecer outras terras, outros povos, outras formas de ver o mundo. Mas nós começamos a sonhar com a estrada ainda crianças e sem sair de casa, por meio de livros sobre lugares fantásticos. A gente acredita que algumas das histórias mais incríveis do mundo são sobre viagens: a Ilíada, de Homero, Dom Quixote, de Cervantes; Harry Potter, Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos. Todo bom livro é uma viagem no tempo e no espaço. E foi por isso que nasceu o Grandes Viajantes: o clube literário do 360meridianos. Uma comunidade feita para você que ama ler, escrever e viajar.

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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter inconstante, a Vírgulas Rebeldes, na qual publico crônicas e contos . Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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