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Quem foi o Barão de Marajó: do Pará para o mundo

José Coelho da Gama e Abreu começa o livro Do Amazonas ao Sena, Nilo, Bósforo e Danúbio se desculpando pela falta de talento literário. Para ele, aquela obra era apenas uma forma de ordenar e relembrar as impressões e memórias dos muitos lugares em que passou. A modéstia, no entanto, não se justifica: o Barão de Marajó, como ficou mais conhecido, escreveu um importante relato do processo de formação da identidade nacional em uma época em que as fronteiras e a projeção do território brasileiro ainda estavam se delineando.

Filho de uma família aristocrática do Pará, o Barão ocupou cargos de poder ao longo de toda sua vida: era amigo de Dom Pedro II, foi presidente das províncias do Pará e do Amazonas, deputado, senador e intendente republicano da cidade de Belém. Antes disso, estudou na Universidade de Coimbra, em Portugal, país no qual já havia vivido entre 1835 e 1845, período em que sua família precisou fugir do Pará devido à Cabanagem.

A revolta popular que tomou a província entre 1835 e 1840 tinha as famílias de ascendência portuguesa como um de seus principais alvos e teve como motivação popular a exigência de melhores condições de vida para as populações das cabanas ou palafitas nos entornos dos rios.

A insatisfação, no entanto, acabou sendo apropriada pelas elites locais como arma política contra o governo regencial. Seu alcance foi tão grande que se expandiu por outras províncias pelos rios Amazonas, Madeira, Tocantins e seus afluentes.

Fotografia de Barão de Marajó

Barão de Marajó. Foto: Autoria Desconhecida/Domínio Público.

Anos mais tarde, o Barão retornou ao velho continente algumas vezes e visitou também a América do Norte em outras oportunidades, entre elas como representante do Pará e dos interesses da Amazônia na Exposição Universal de Paris, em 1889, e na Exposição Universal de Chicago, em 1893. Apesar dos longos anos que passou na Europa, o Barão sempre se se reconheceu e se orgulhou de sua origem amazônica, e era essa identidade que norteava sua atuação política.

Defendia as viagens como um instrumento de aprendizado, e as que realizou, tanto pelo Brasil quanto no exterior, acabaram fazendo parte de seu processo de formação política e intelectual e influenciando, por exemplo, o planejamento urbano que buscou levar para Belém desde o começo de sua carreira como diretor das Obras Públicas, aos 22 anos.

Mais que buscar inspiração fora, ele acreditava que era viajando pelo Brasil que aprenderia o que precisava saber para desempenhar bem seu trabalho na vida pública. Para ele, era preciso conhecer as províncias e os lugares mais distantes dos grandes centros para que as políticas fossem pensadas de forma a respeitar as individualidades regionais e, com isso, garantir a unidade nacional, algo ainda bastante instável naquela época.

Em Do Amazonas ao Sena, Nilo, Bósforo e Danúbio, ele escreveu uma crítica ao deslumbramento do brasileiro com as viagens ao exterior quando não conheciam ainda nenhuma das províncias do próprio país. Ele acreditava que esse desconhecimento dos políticos sobre o território que governavam acabava levando a políticas pouco condizentes com a realidade enfrentada pelo povo.

Gama e Abreu era também um abolicionista, democrata e um apreciador das artes, da educação e da ciência. “Um homem de seu tempo e de seu país”, como escreveu Machado de Assis. Uma importante figura da transição entre Império e República que forneceu relatos valiosos sobre a Amazônia da época, mas que acabou de alguma forma esquecido com o passar dos anos. Apesar do legado que deixou para a cidade de Belém, apenas uma rua ali, localizada no Bairro do Comércio, homenageia seus feitos.

O Barão teve uma vida longa para padrões da época. Morreu em 1906, aos 72 anos, em Lisboa, onde havia fixado residência no ano anterior para um tratamento de saúde. As condições de sua morte nunca foram bem explicadas e a hipótese de suicídio rondou os jornais e o círculo intelectual da época. A suspeita é que ele tenha tirado a própria vida como uma forma aliviar as dores causadas por uma doença incurável.

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Defensor da Amazônia e do norte do país

Para o Barão de Marajó, a fonte do progresso e da modernização do Pará era a Amazônia. Ele defendia a exploração econômica das riquezas da floresta e a utilização dos rios amazônicos como uma via de ligação entre as cidades da região, por meio de barcos a vapor. Mas suas ambições não paravam por aí. Ele sonhava com linhas transatlânticas com as capitais europeias e a abertura de portos para a navegação e o comércio com as principais potências da época.

Esse sonho de desenvolvimento para o norte foi bastante explorado em Do Amazonas ao Sena, Nilo, Bósforo e Danúbio. Ali, ele percorre uma rota inversa às das narrativas de viagem sobre a floresta até então: sai do Pará para o nordeste brasileiro e, de Recife, para Lisboa.

Apesar de sua formação europeia, o Barão de Marajó sempre procurou olhar para os lugares de forma imparcial. Não poupava críticas às cidades mais famosas do continente, assim como não tinha problemas em tecer elogios.

Não se julgue pelo que vou dizer que sou daqueles que desdenham de tudo quanto é nacional, elogiando o que é estrangeiro, não: há muitas coisas em que prefiro o Brasil posto que mais atrasado à civilizada Europa, mas nem o amor do pátrio solo, nem mal entendida vanglória me farão deixar de censurar aquilo que no meu país achar digno de crítica.

Ele também defendia que os problemas urbanos se originavam da falta de planejamento e não de uma suposta inferioridade moral ou cultural de seus moradores (conceito muito popular na época). Por isso, prezava por ruas arborizadas e amplas, escolarização em massa, implantação de medidas de saneamento básico e construção de praças e prédios públicos imponentes.

Tal é o aspecto que apresentam os bairros inferiores de Alexandria a quem desembarca; o espetáculo não é belo, mas não deixa de ser curioso para quem o vê pela primeira vez. Dizem muitos que tudo isto mostra atraso e falta de civilização, mas esquecem estes críticos levianos, que nestes bairros menos opulentos, faltam as ruas arborizadas e os passeios asfaltados, outros há em que estes melhoramentos se encontram, tornando-os em nada inferiores aos bons bairros de muitas cidades europeias de segunda ordem.

Impressões do Barão de Marajó sobre o Brasil

Graças a seu espírito observador e crítico, o Barão de Marajó foi uma figura essencial não só para a Belém do século 19, como também para a formação da identidade do Brasil como uma república moderna e unificada. Durante a viagem que fez do Pará a Lisboa, documentou diversos aspectos de uma urbanização que começava a ocorrer de forma desorganizada em vários pontos do país, fez anotações sobre a economia, as instituições e até mesmo sobre as diferenças regionais da época.

barão do marajó

Em seus relatos, nota-se a vontade de que o Brasil se transformasse em uma potência moderna. Um os pontos mais interessantes de se observar em seus relatos são as criticas à cultura política nacional, que ele acreditava ser um empecilho para o progresso: muitas delas permanecem atuais até hoje.

O primeiro de que falarei era um destes políticos que vivem em contínua jeremiada sobre o pouco apreço que tem merecido os seus dotes e serviços; (…) é por isso que o país vai mal, que o progresso fica estacionário, que as instituições políticas se acham pervertidas. Estes tipos que servem a todos os governos, e que se proclamam protótipos de honradez, (…) julgam-se a pedra filosofal de todos os sistemas políticos, mas em verdade seguem um único, o de arranjar qualquer lugar rendoso dado seja porque governo for. No Brasil, em que a febre política é moléstia muito comum, estes originais são frequentíssimos (…)

Os relatos do Barão se inserem dentro da tradição das narrativas de viagem com viés descritivo e científico que estava em evidência desde o século 18. Os diários eram utilizados para coletar e organizar as impressões do escritor sobre um local visitado, buscando extrair dele o máximo de informações possível. Partindo de seu lugar de nascimento, o Barão começa sua exploração enaltecendo o verde e a alegria das ruas de Belém, seus prédios e palácios.

No Maranhão, ele exalta a amabilidade dos moradores locais – incomparável, segundo ele – e a arquitetura do enorme teatro, hoje conhecido por Teatro Arthur Azevedo. Nota, porém, que as ruas eram descuidadas e que não havia passeios agradáveis para circular. No Ceará, correu para ver uma jangada em alto mar e o trabalho dos pescadores e elogiou a índole dos cearenses, que lhe pareceram audaciosos e trabalhadores.

No Rio Grande do Norte, se mostrou decepcionado ao entrar na capital, e na Paraíba se impressionou com o Convento do Carmo. Não poupou elogios a Pernambuco: para ele, havia mais bom gosto em Recife que no Rio de Janeiro, na época capital do Império. Apesar disso, relatou detestar o Bairro do Recife, segundo ele “pouco asseado, com becos em que parece que uma só pessoa custará a passar, com ruas quase todas tortuosas, casas de péssima construção, deixa ao turista uma péssima impressão”.

Do Amazonas ao Sena, Nilo, Bósforo e Danúbio foi publicado entre 1874 e 1876 pela Editora Universal, em Lisboa. O livro foi bastante elogiado na época, tendo sido inclusive criticado pelo escritor português Camilo Castelo Branco, que o classificou como “um livro de cunho moderno, com superior quilate de despretensão”, além de bem escrito, bem humorado e com um bom discernimento que se contrapunham ao tédio em geral causado pelos relatos de viagem.

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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter inconstante, a Vírgulas Rebeldes, na qual publico crônicas e contos . Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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