Dica de leitura: Na Pior em Paris e Londres

“Brigas, gritos desolados de vendedores ambulantes, berros de crianças que apanhavam cascas de laranjas no chão e, à noite, músicas entoadas a plenos pulmões misturadas com o cheiro azedo das latas de lixo – assim era a atmosfera da rua. É sobre a pobreza que eu escrevo. E eu tive o primeiro contato com a pobreza nesta favela”. Acrescento: numa favela de Paris.

O relato acima foi escrito por George Orwell, no livro “Na Pior em Paris e Londres”, e a tal favela ficava numa região de Paris que hoje é frequentada por turistas e onde a hospedagem passa longe de ser baratinha: o Quartier Latin. Orwell, que escreveu dois dos maiores clássicos do século passado (1984 e A Revolução dos Bichos), morou ali no fim da década de 1920, assim como outros escritores e intelectuais.

Ele se mudou para Paris depois de pedir demissão do seu cargo na Polícia Imperial Indiana, em Burma, atual Myanmar e que na época fazia parte do Império Britânico. Como tantos jovens da geração perdida, Orwell queria ser escritor. E se a fama veio, com os dois principais livros de Orwell fincando lugar na prateleira de mais vendidos do século, ela não veio facilmente. O aspirante a escritor passou por dificuldades, foi assaltado e precisou trabalhar como lavador de panelas num restaurante parisiense.

Na Pior em Paris e Londres

George Orwell (Foto: BBC, Creative Commons)

Além da própria situação financeira, Orwell, que na realidade se chamava Eric Arthur Blair, aproveitou essa época para entender a pobreza, experiência que mais tarde foi usada em “Na Pior em Paris e Londres”, livro com fundo biográfico e que foi publicado em 1933.  “Estávamos apenas cumprindo nossas obrigações; e como nosso primeiro dever era ser pontual, economizávamos tempo sendo sujos”, escreveu Orwell, sobre seu trabalho na cozinha de um restaurante de Paris, causando espanto e indignação entre donos de hotéis e restaurantes em toda a Europa. A família dele, garantem alguns, também se envergonhou pelo que ele relatou ali – e só se tranquilizou quando ele resolveu adotar o famoso pseudônimo.

“Um lavador de panelas é um escravo, um escravo fazendo um trabalho estúpido e enormemente desnecessário. Ele é mantido no trabalho, em última instância, por causa de um sentimento vago de que ele poderia ser perigoso se tivesse algum lazer”, descreveu Orwell, que também falou sobre a péssima condição de trabalho. Nessa época, ele trabalhava 17 horas por dia, seis dias por semana, sem intervalos e algumas vezes sem tempo de voltar para casa, já que o metrô estava fechado quando ele saía do serviço e ele teria que voltar ao restaurante em algumas horas.

Vista noturna de Paris

Foto: Wikimedia Commons

E esses eram os dias bons. Sem dinheiro e antes de conseguir trabalho, o personagem precisou vender todas as roupas – até ficar somente com as do corpo -, passou dois dias sem comer e precisou dormir nos bancos das praças de Paris ou em barcos ancorados no Rio Sena, já que voltar para a pensão onde ele alugava (e não pagava) um quarto era inviável.

Convivendo com bed bugs, comendo mal, bebendo bastante e, com sorte, trabalhando sem parar ou sem ter tempo para pensar. Assim era a vida de muitos parisienses. É impossível não se lembrar de outro escritor famoso que passou dificuldades em Paris e viveu por lá mesma época. Assim como Orwell, Hemingway passou fome em Paris e disse que aquela era a pior cidade do mundo para não se alimentar bem, já que comidas tentadoras eram exibidas por todas as vitrines e em todas as esquinas da cidade. Isso não mudou.

Além de relatar como era a vida em Paris há um século, na segunda parte do livro Orwell muda o foco para Londres. É que depois de se cansar da rotina massacrante nos restaurantes parisienses, o personagem pede ajuda para um amigo, que oferece um emprego melhor no Reino Unido – e dinheiro para fazer a viagem até lá.

Londres, Inglaterra

O problema é que o emprego falhou, o dinheiro faltou e o único caminho foi perambular pelas ruas de Londres. Sem alternativa, Orwell mergulhou no universo dos mendigos. Durante dias, viveu mendigando, indo de albergue em albergue e aproveitando bitucas de cigarro encontradas no chão e a comida dada por organizações religiosas.

Passada a experiência, ele fez uma análise da vida dos mendigos londrinos e disse que nunca mais pensaria que todos os vagabundos são bêbados ou que todos os homens desempregados simplesmente não têm energia para trabalhar. “O dinheiro se transformou na grande prova de virtude. Nessa prova, os mendigos são reprovados e, por isso, são desprezados. Se fosse possível ganhar dez libras por semana mendigando, a mendicância se transformaria imediatamente numa profissão respeitável.”

Na Pior em Paris e Londres ajuda a entender o contexto das duas cidades há 100 anos, no período entre as duas Guerras Mundiais. Também ajuda a abrir os olhos para a pobreza, já que o próprio autor faz isso, a partir do momento em que é forçado a viver uma vida que antes ele desconhecia ou quando se propõe a fazer isso para escrever sobre o assunto, numa espécie de jornalismo gonzo. Mas, mais importante, é que para mim, acostumado com as dificuldades latino-americanas, o livro mostra que muitos dos problemas que hoje vivemos eram realidade na França e na Inglaterra daquela época.

George Orwell, Na Pior em Paris e Londres

Imagine ruas parisienses sujas, repletas de mendigos, com gente pedindo esmola e passando fome. Imagine favelas no coração das grandes cidades europeias. Imagine flanelinhas pedindo dinheiro para motoristas londrinos e gente que ganha a vida trabalhando 18 horas por dia nas piores condições possíveis.  E para ganhar uma miséria. Essa era a realidade lá, algo que o turista hoje não vê mais.

Não que a pobreza tenha acabado na Europa: ela só mudou de endereço, foi para a periferia. Basta se afastar do eixo turístico para observar coisas parecidas. Na Pior em Paris e Londres é um convite para exercermos a empatia e, quem sabe, desejarmos um mundo um pouquinho mais justo.

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Olá, somos a Luíza Antunes, o Rafael Sette Câmara e a Natália Becattini. Há 10 anos fazemos o 360meridianos, um blog que nasceu da nossa vontade de conhecer outras terras, outros povos, outras formas de ver o mundo. Mas nós começamos a sonhar com a estrada ainda crianças e sem sair de casa, por meio de livros sobre lugares fantásticos. A gente acredita que algumas das histórias mais incríveis do mundo são sobre viagens: a Ilíada, de Homero, Dom Quixote, de Cervantes; Harry Potter, Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos. Todo bom livro é uma viagem no tempo e no espaço. E foi por isso que nasceu o Grandes Viajantes: o clube literário do 360meridianos. Uma comunidade feita para você que ama ler, escrever e viajar.

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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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9 comentários sobre o texto “Dica de leitura: Na Pior em Paris e Londres

  1. Bacana msm, Rafael! Estou morando em Paris desde maio e enquanto lia seu texto várias cenas que tenho visto por aqui foram vindo à mente. Orwell é mais atual do que a gente pensa. Valeu!

  2. Adorei! Gosto muito de George Orwell, vou colocar esse livro na minha lista de leitura!
    Ah, 360 meridianos, vocês são os melhores! Com certeza são de ótima ajuda para os que estão viajando, mas quero agradecer por serem perfeitos pra quem ainda é aspirante a viajante, como eu. Estou sempre de olho no “Reflexões”. Vocês trazem sempre ótimos posts que atendem tanto aos viajantes quanto aos que no momento não podem fazer as malas 🙂

    1. Obrigado, Ligia. 🙂 São os textos que mais gostamos de fazer. Inclusive, aceitamos sugestões de temas, caso um dia sinta falta de algo por aqui.

      Abraço e obrigado pelo comentário.

  3. Eu leio todos os dias o 360 Meridianos, mas hoje foi o primeiro dia que postei dois comentários aqui. Porque realmente estão de parabéns tanto você Rafael como a Natália escreveram artigos muito interessantes e que despertam uma discussão pertinente ao panorama atual em que vivemos. PARABÉNS MAIS UMA VEZ…

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