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Atlas: Amsterdam, Holanda

A diversidade e a liberdade na Holanda

“Em que outro país se pode gozar de uma liberdade tão completa?”

A frase acima é do filósofo francês René Descartes. Só que ele não estava falando da França, mas da Holanda. Numa época em que o pensamento era reprimido a ponto de Galileu Galilei ser condenado por dizer que a Terra gira em torno do sol, Descartes deixou o país natal e foi viver onde teria liberdade para trabalhar (e pensar). E liberdade e tolerância são palavras antigas nos Países Baixos.

Outra prova disso está no tratado da União de Utrecht, acordo que praticamente selou o nascimento dos Países Baixos, no século 16. Segundo a onisciente Wikipédia, esse documento garantia a liberdade religiosa, permitindo que cada um seguisse a fé que bem entendesse.

Pausa para destacar isso. Século 16. O mundo caçava bruxas – literalmente, e nessa parte da Europa as diferenças eram toleradas. É claro que isso não significa que a Holanda era (ou seja) perfeita, uma espécie de paraíso na Terra, mas vai falar que não foi um baita avanço?

A tolerância e a liberdade de pensamento levaram muitos cientistas e pensadores para o país, que virou uma espécie de biblioteca da Europa. No século 17, praticamente todo pensamento inovador era publicado na Holanda e de lá exportado para o resto do Velho Continente. Mas voltemos ao que interessa: o século 21.

Eu já sabia desse clima de tolerância quando visitei Amsterdam, em outubro de 2013. Mesmo assim, foi difícil não me impressionar com um país que parece defender os ideais certos. Veja cinco provas da tolerância da sociedade holandesa.

Política de drogas

Não se engane, uma coffeeshop ganha dinheiro mesmo é vendendo maconha, não café. Esses estabelecimentos surgiram nos anos 70, época que o país adotou um política de drogas mais tolerante. O objetivo da medida era descriminalizar o usuário e ao mesmo tempo combater o tráfico e o crime organizado. Décadas mais tarde, esses estabelecimentos viraram ponto turísticos do país. 35% das pessoas que visitam Amsterdam passam por um dos cerca de 200 coffeeshops da cidade, nem que seja só para ver como esses lugares são por dentro.

E que fique claro que o consumo de maconha em Amsterdam não é legal, mas tolerado sem punição. E tudo é regulamentado, claro: você não pode ter sua plantação em casa e sair revendendo, sem seguir as regras.

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coffee shop amsterdam

Mas e como essa política de drogas tolerante afeta a vida das pessoas? Conversamos com o Daniel, do blog Ducs Amsterdam, sobre esse e outros assuntos. Ele vive lá desde 2007, portanto fala com conhecimento de causa.  “Eu acredito que ao legalizar o comércio, diminui-se a criminalidade e marginalidade associada à venda da maconha. Ao fornecer uma alternativa legítima a quem quer vender e comprar há duas boas vantagens: a figura do traficante se torna supérflua e é possível efetuar um controle sobre o consumo”, diz ele.  E olha que o Daniel não é usuário – a única droga que ele encara é uma cervejinha de vez em quando.

Ele faz ainda faz outra reflexão importante, que mostra que também na Holanda há espaço para avanços. “Acredito que o uso de maconha deveria ser totalmente legalizado, com regulamentação inclusive para produção. Um dos problemas que a Holanda evita tocar: se a produção em larga escala é proibida, mas a venda é tolerada, de onde vem o suprimento dos coffeeshops? Quem está produzindo isso? É produzida aqui ou importada? Se é aqui, é ilegal e é reprimida. Se é trazida de fora, é tráfico internacional.”

E não, tolerar o uso da maconha não estimula necessariamente o consumo. Para explicar isso em números, dá uma olhada nesse dado divulgado pelo Huffingtonpost: cerca de 11% dos norte-americanos usam maconha. Já na Holanda da droga tolerada, a taxa de usuários é de 7%.

Prostituição

“Vocês querem ir ao Red Light District?”, nos perguntou a guia. É claro que nos fomos. Esse bairro de Amsterdam é conhecido mundialmente por ser um lugar onde a prostituição é oficial. Cinemas eróticos, boates e sex shops dividem lugar com mulheres seminuas, que se expõem nas janelas de casas. E isso acontece até ao redor de igrejas e creches.

Na Holanda, a prostituição é, aos olhos da lei, um trabalho como outro qualquer. Desde 2000, a atividade é legalizada. Quem trabalha no ramo paga imposto, é registrado e teoricamente não sofre com o preconceito. Cafetões são proibidos, assim como o tráfico de humanos, que é combatido pelo governo.

É óbvio que isso não significa que o problema não ocorra. No ano passado, seis artistas fizeram no Red Light District uma campanha contra o tráfico, que atrai milhares de mulheres com a promessa de uma vida melhor, como bailarinas. Só que nesse caso a dança é um eufemismo para a prostituição.

red light district, Amsterdam, Holanda

Foto: Rungbachduong, Wikimedia Commons

A prostituição é um assunto sempre complexo e polêmico na Holanda, que transformou o Red Light District em ponto turístico. A preocupação de hoje é evitar que uma mulher seja forçada a se prostituir.

Vale lembrar que o problema do tráfico de pessoas não é exclusivo de Amsterdam, mas um fato no mundo inteiro, tenham os países legalizado a prostituição ou não. Legalizada, pelo menos há uma tentativa de evitar a marginalização de quem vive do sexo.

Casamento Homossexual

Existe algo de errado com um mundo que não respeita o direito do outro. A questão dos direitos dos homossexuais será motivo de vergonha daqui a algumas décadas: olharemos para trás e não entenderemos como isso sequer foi uma polêmica. Cada um faz o que quer da vida desde que não faça mal ao outro.  Não deveria ser simples assim?

Bom, na Holanda é. O país foi o primeiro do mundo a legalizar o casamento gay, em 2001. Desde então, outras nações seguiram o exemplo, embora a maior parte do mundo ainda prefira ser contra ou então adotar um constrangedor silêncio sobre o assunto. Na Holanda, a adoção de crianças por casais homossexuais também foi legalizada. Já as políticas para diminuir o preconceito e discutir o assunto começaram bem antes de 2001.

Uma pesquisa do Netherlands Institute for Social Research indicou que 90% da população da Holanda não vê absolutamente nada errado na homossexualidade. Apesar disso, lá também há casos de preconceito e homofobia.

casamento Holanda

Foto: Jeffpw, Wikimedia Commons

Eutanásia

Uma dor insuportável e a certeza do médico de que se trata de uma decisão consciente. Esses são os elementos que devem estar presentes para que alguém possa se submeter a eutanásia. Adivinha qual foi o primeiro país do mundo a legalizar o procedimento?

Sim, a Holanda, em 2002, mais ou menos na mesma época que a Bélgica.

Pode até ser que você tenha dificuldades de entender o desejo de alguém de morrer em paz. Acredite, eu também não entendo. Mesmo assim, o caminho escolhido pela Holanda me parece mais correto do que o do Brasil, onde o procedimento é visto como homicídio, podendo dar ao médico uma pena de 20 anos de prisão.

De forma geral, os países que legalizaram a prática alegam que o objetivo é tirar da clandestinidade uma prática que já acontece no dia a dia.

Diversidade

O objetivo deste texto não é idealizar a Holanda, como se o país fosse livre de problemas, mas mostrar como lá existe uma tentativa de respeitar a diversidade. E isso desde o século 16. O Daniel, do Ducs Amsterdam, explicou pra gente essa face da cultura holandesa.  Deixo abaixo o depoimento dele.

“As liberdades da política holandesa têm mais a ver com dois aspectos da cultura holandesa: pragmatismo e um certo isolamento em relação ao outro. A Holanda tem uma história muito forte de marinha mercante; com isso, sempre tiveram muito contato com outras culturas, e sendo um porto, ter estrangeiros vivendo no meio deles sempre foi comum.

Um dos jeitos de lidar com isso é criando uma grande miscigenação cultural. Outro jeito é adotar uma atitude de ‘eu sou eu, você é você. Você faz o que quiser contanto que não me perturbar, e se não me perturbar não quero nem saber o que você tá fazendo’. Há uma convivência com o diferente, mas é mais indiferença do que aceitação plena. Você é bizarro e não quero ter muito a ver contigo, mas se você quer morar do meu lado, whatever.

Esse fenômeno é conhecido como ‘pilarização’: a sociedade era dividida em diversos pilares diferentes, vivendo no mesmo espaço, mas sem muita interação. É um tipo de tolerância. Dar a liberdade de as pessoas terem atitudes e escolhas diferentes, mesmo aquelas que eu acho infelizes, é uma boa coisa para gerar progresso. Ideias gostam de ser misturar e não procriam em cativeiro.”

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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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6 comentários sobre o texto “A diversidade e a liberdade na Holanda

  1. Rafael, bom dia

    Parabéns pelo blog, e fico sempre feliz quando chega uma publicação no meu e-mail. Viajar é bom demais e dicas são sempre preciosas!!!

    Boa semana!!!

    Cris

  2. Ótimo Post.

    Tanto a Holanda como os países nórdicos tem essa cultura meio “faça o que quiser desde qu não incomode ninguem”.

    Só um detalhe meio besta, mas que me surpreendeu, visto a Holanda ser um lugar bem igualitário…a familia real não paga nenhum imposto! Aliás é interessante um país assim, ter uma familia real e por consequencia uma “pequena” distinção entre nobres e o resto do povo.

    1. Verdade, Edp. Não tinha pensado nessa questão da família real. No caso britânico ainda tem a desculpa de que a monarquia é uma grande atração turística. Mas e na Holanda?

      Abraço.

  3. Excelente post!!!
    Muito legal a abordagem de mostrar que é um pais que está muito a frente no quesito tolerância, mas que também tem seus problemas.
    Parabéns!!!

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