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Atlas: Índia

Existe uma sociedade matriarcal na Índia?

Os boatos sobre a existência dela estão espalhados pela internet. Muitos juram que ela existe, enquanto outros tantos garantem que se trata de uma espécie de Atlântida – uma sociedade que só existe mesmo no mundo das lendas. E isso tem sentido. Pense o seguinte: será que é possível que exista uma sociedade matriarcal na Índia? Sim, a Índia, um dos países mais machistas do mundo?

Para contextualizar, alguns dados tristes, porém reveladores: a Índia tem uma taxa assustadoramente alta de infanticídios femininos. Nos últimos 20 anos, 10 milhões de bebês mulheres foram mortas no país, simplesmente porque os pais preferiam um menino.

Não é sem motivo que o ultrassom é proibido por lei na Índia, uma tentativa de diminuir o problema, que já causa um tremendo impacto no equilíbrio populacional. Para cada 1000 meninos que nascem no país, 914 indianas chegam ao mundo. Coloque essa diferença ao longo dos anos e você perceberá que o país tem mais homens a cada dia, fato que acaba piorando a situação das mulheres e o machismo, uma espécie de bola de neve que rola Himalaia abaixo. 

Vida das mulheres na Índia

Complicado, né? Muito. E não adianta pensar que isso só acontece com as classes “menos esclarecidas”, eufemismo barato que infelizmente costuma significar pobres. Não. O problema fica pior conforme aumenta a renda da população – a diferença de nascimentos entre meninos e meninas é maior nas áreas mais ricas e com maior escolaridade.

Um dos maiores cartões-postais da Índia mostra que o problema é antigo. O Hawa Mahal, prédio histórico de Jaipur, é conhecido em boa parte do mundo, muito disso por causa das quase 1000 janelas do casarão. O motivo para tanta janela? A purdah, palavra que em hindi significa cortina e serve de nome para a prática de esconder as mulheres dos homens.

Do alto das janelas do Hawa Mahal as mulheres indianas podiam observar o mundo com a garantia de que não seriam vistas por ele. Como diz a Wikipédia, “Purdah é uma cortina que torna nítida separação entre o mundo do homem e o da mulher”. Chegou o século 21, mas a purdah não acabou.

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Naty e Lu em frente ao Hawa Mahal, em Jaipur

Um país complexo

Apesar de todas essas evidências, é óbvio que a Índia é um país complexo, cheio de diferenças. São dezenas de religiões, dezenas de idiomas, incontáveis grupos culturais num dos países mais diversos do mundo. Em meio a tanta variedade, por que não acreditar na existência da tal sociedade matriarcal?

A primeira vez que ouvimos falar dela foi no Kerala, estado do sul da Índia  que tem um dos melhores Índices de Desenvolvimento Humano do país, superior ao de alguns estados norte-americanos. O Kerala tem a maior expectativa de vida da Índia (77 anos), o maior índice de alfabetização (95%), uma das menores criminalidades e mais mulheres do que homens: são 1084 mulheres para cada 1000 homens.

Kerala, cidade de Alleppey

Kerala

Além de tudo isso, o Kerala tem importância histórica mundial. Lembra aquela história de que os portugueses foram à Índia depois de descobrirem o Brasil? Então, eles desembarcaram no Kerala, pouco depois de 1500. Nomes como Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama estiveram lá e são homenageados em monumentos deixados pelos portugueses. Num museu que conta a história portuguesa na Índia, descobrimos que partes da sociedade do Kerala tinha características matriarcais antes da chegada dos europeus.

E essa sociedade matriarcal?

Duas matérias de veículos britânicos dão pistas sobre o assunto. BBC e The Guardian garantem que partes do Kerala e também do Meghalaya, estado no norte da Índia, tem até hoje características matriarcais. O The Guardian usa a palavra mais adequada: sociedades matrilineares.

Em sociedades matrilineares a descendência é contada pela linha materna, assim como a herança. Não é uma sociedade realmente matriarcal. Em 1891 as famílias matrilineares eram maioria no Kerala – 56%!  Hoje o sistema é bem mais raro (e até mesmo ilegal), mas ainda é possível encontrar pequenas comunidades que não deixaram os velhos costumes morrer.

No relato da BBC, conhecemos Maria, uma indiana que na época tinha 42 anos. Filha mais nova da família, coube a ela o papel de herdeira da casa dos pais, como manda a tradição local. Para isso, logo depois do casamento o marido dela se mudou para a casa da família de Maria, onde passou a viver, dentro das regras da família da esposa. Os filhos do casal também levaram o sobrenome da família materna, outro costume local.

“O que você acha do sistema matrilinear?”, perguntou insistentemente o repórter da BBC, sempre com respostas pouco afirmativas do marido. Quem acabou respondendo foi Maria. “Ele gosta”, para logo depois acrescentar que as mulheres da comunidade não confiam nos homens para cuidar de dinheiro e nem fazer outras tarefas importantes.

Na reportagem do The Guardian, um homem chamado Pariat, também de sociedades matrilineares, responde um questionamento parecido: “O marido precisa ficar contra todo um clã. Sua esposa, sua sogra, seus filhos. Então tudo que nós podemos fazer é tocar violão, cantar, beber e morrer jovens”. Segundo essas reportagens, nesses lugares há homens que lutam para reverter essa situação, já que se sentem inferiores às mulheres.

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Um estudo realizado em 2007 com base em dados do Censo indiano de 2001 concluiu que a explicação para essas sociedades matrilineares está na cultura indígena dos grupos. Já sites indianos e blogueiras do Kerala lembram que essas sociedades matrilineares têm pouco impacto real na vida das mulheres, que continuam vivendo numa sociedade que é machista, e muitas vezes funcionam apenas como uma espécie de cortina de fumaça.

Por mais que mesmo nessas comunidades as mulheres ainda sofram abusos – pouco se converte em poder político, por exemplo, e as taxas de abusos sexuais são tão grandes como no restante da Índia – ainda assim a simples existência delas mostra o quão complexa a Índia é. Um país de inúmeras facetas e que não se resume aos estereótipos que o mundo conhece. Sim, a Índia é um país caótico, sujo, colorido, vegetariano e machista. Mas também é moderna, relativamente limpa, carnívora e, por que não, matrilinear, por mais que apenas em pequenas comunidades.


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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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7 comentários sobre o texto “Existe uma sociedade matriarcal na Índia?

  1. Oi gente,adoro tudo que voces postam sobre a India,morro de vontade de conhecer esse paiz e um dia vou se Deus quizer,mas vou sozinha ,voces podem me dar mais dicas sobre isso. Podem me dizer mais ou menos quanto custa a passagem ida e vinda com uma hospedagem simples,pois tenho pouco dinheiro mais quero ir um dia la.sera que com 6 mil eu consigo ir e vir sem problemas so passar uns 20 dias por la?,,me respondam amigos por favor,,

  2. Puxa, nunca tinha ouvido falar nesse assunto de sociedade matriarcal na Índia. Bem interessante sobre a construção de Jaipur. Já tinha visto a foto,mas nunca soube a razão de tamanha extravagância. Falando nisso, vocês chegaram a visitar o estado de Tamil Naadu – vizinho de Kerala?

    1. Fomos sim, Ligia. É um estado complicado para o turista estrangeiro, principalmente para quem tem pouco dinheiro. Os hotéis são ruins, os serviços também.

      Mas, para quem se aventura por lá, o Tamil Nadu oferece templos incríveis.

  3. Adorei o texto Rafa (Super intimo) e isso que você disse, “mostra o quão complexa a Índia é”, só me faz querer ainda mais (vender um órgão no mercado negro, brincadeira) comprar passagens para que em breve possa finalmente visita-la.

    1. Pode chamar de Rafa sem problema. Você já é da casa, Renan. hehehe

      É um país incrível. Tipo, daqueles que você ama e odeia ao mesmo tempo.

      Abraço!

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