De incêndio em incêndio nossa história vai se acabando

Ainda não percebemos, mas na manhã do dia 15 de junho pegou fogo nossa pré-história. O incêndio que destruiu um prédio do Museu de História Natural da UFMG, em Belo Horizonte, passou quase que despercebido num país anestesiado por dezenas de milhares de mortes, causadas pela pandemia de coronavírus, e que vive uma sucessão sem fim de crises.

Entre as poucas notícias, muitas delas limitadas ao noticiário local, circulava uma informação: o fogo não atingiu as exposições do Museu, mas a reserva técnica que abriga as coleções de paleontologia, arqueologia e biologia, entre outras.

Se podemos mesmo celebrar a preservação de itens valiosíssimos guardados no museu, como o Presépio do Pipiripau, obra tombada pelo Iphan, pouca gente se deu conta que perder a reserva técnica é perder demais. Ou, para usar as palavras de Bonifácio José Teixeira, a “reserva técnica é o disco rígido do museu. É o que gera a possibilidade de se fazer a exposição”.

A explicação de Bonifácio foi dada em 2013, quando outro importante espaço cultural da capital mineira pegou fogo, o Museu de Ciências Naturais da PUC Minas. Na ocasião, Bonifácio chamou de “grande vitória” justamente a preservação da reserva técnica e do acervo científico — as chamas que consumiram o Museu da PUC atacaram só a exposição. Menos de um ano depois e após investimento de cerca de três milhões de reais, o espaço foi reaberto ao público.

museu de históriua natural da ufmg

Museu de História Natural da UFMG (Foto: Andrevruas, Wikimedia Commons)

“O que há de mais importante num museu é a reserva técnica, que é onde são guardadas as coleções”, explica Walter Neves, pesquisador aposentado do Instituto de Biociências da USP. E ele completa: “Exposição é uma coisa que você refaz, acervo perdido não. É que nem extinção: é pra sempre”.

O impacto do incêndio fica ainda mais claro se compreendemos o que foi extinto com as chamas. A partir do século 19, Lagoa Santa, Pedro Leopoldo, Matozinhos e outras cidades da região metropolitana de Belo Horizonte se transformaram num dos endereços mais importantes para o estudo do ser humano pré-histórico. Nessas cidades foram escavados mais de 200 esqueletos milenares, um número impressionante. “O grande trunfo dessa área é a quantidade de esqueletos humanos relativamente bem preservados. Para quem quer estudar o homem, aqui acaba sendo o principal lugar do país, explicou o bioantropólogo Rodrigo Elias de Oliveira, num vídeo produzido pelo 360meridianos e que você pode ver aqui.

Nos anos 1990, a teoria de ocupação das Américas proposta por Walter Neves sugeriu uma mudança no que se pensava sobre a presença humana no continente. De quebra, criou o primeiro ícone da nossa pré-história, a Luzia, um esqueleto de 13 mil anos que foi estudado por Neves. E que tinha sido escavado nos anos 1970, pela equipe da arqueóloga Annette Laming-Emperaire.

Veja também:
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Luzia foi encontrada nessa mesma região, num sítio chamado Lapa Vermelha 4, que fica a menos de três quilômetros da pista do Aeroporto de Confins. Luzia e os outros esqueletos pré-históricos retirados dessa área formam os chamados Povos de Lagoa Santa, fundamentais para qualquer pessoa que queira estudar o passado do que hoje é o Brasil.

Jornalista e arqueólogo observação a Lapa Vermelha 4, onde Luzia foi encontrada

Lapa Vermelha 4, perto do Aeroporto de Confins (Foto: Fellipe Abreu)

Em 2019, em entrevista por telefone, o Walter Neves explicou a importância dessa área para História do país:

“Só para o meu estudo específico, que é da morfologia craniana, a gente conta com uns 80 esqueletos (da região de Lagoa Santa). A América do Norte inteira tem meia dúzia de crânios medíveis desse período. Então, Lagoa Santa traz pra nós um fossil power muito grande. Não é possível estudar os primeiros americanos sem passar por Lagoa Santa”.

Walter Neves – Arqueólogo e bioantropólogo da USP

Desde o fim de 2018, dois terços desse fossil power se perderam. Primeiro com o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Lá estavam Luzia e a maior coleção de esqueletos humanos pré-históricos do Brasil. Meses depois que as chamas se apagaram, o Museu Nacional anunciou a recuperação de fragmentos de Luzia. “Mas, pelo que vi por fotografia, eu acho difícil que o crânio seja reconstituído a partir deles. E a Luzia estava num armário de metal, mais bem protegida. Eles tinham restos de pelo menos mais uns 150 esqueletos de Lagoa Santa. E isso estava tudo em caixas de madeira e plástico. Esse material foi todo destruído”, lamentou Walter Neves.

reconstituição de luzia que era exposta no museu nacional

Representação de Luzia, que ficava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro

Após o incêndio que destruiu o Museu Nacional, a maior coleção de fósseis humanos daquela época passou a ser a do Museu de História Natural da UFMG, que guardava cerca de 40 esqueletos milenares escavados dessa região. Nessa conta entra a coleção Harold Walter, nome do arqueólogo amador que escavou boa parte desses fósseis, a partir da década de 1930. Só a organização e a curadoria desse material demandou 10 anos de trabalho de pesquisadores, coordenado pelo Walter Neves.

Embora a UFMG ainda esteja recolhendo os cacos e não tenha informado oficialmente o que foi perdido, uma fonte ligada ao Museu confirmou, por e-mail, que “a grande maioria dos esqueletos deve estar destruída”. E os restos humanos não eram os únicos artefatos guardados naqueles prédios — também ficavam ali materiais escavados no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, no norte de Minas, “inclusive de grupos indígenas que não existem mais”.

No dia 29 de junho, Mariana Cabral, coordenadora do Centro Especializado em Arqueologia Pré-histórica do Museu, escreveu no site da UFMG: “Muito além da tragédia científica, o incêndio nessa coleção é uma tragédia humana. (..) Para além dos vestígios sobreviventes das coleções ali armazenadas, a equipe agora trabalha também no resgate de uma nova coleção, a coleção do incêndio, uma memória dolorida que não podemos deixar para trás”.

Confirmada a destruição do acervo da UFMG, o fossil power do ser humano de Lagoa Santa, que já foi incomparável, agora se limita ao acervo da USP, onde há cerca de 40 esqueletos. Além disso, há um pequeno número de fósseis espalhados por instituições de Lagoa Santa e de Belo Horizonte, como o Museu do Castelinho e o Museu da PUC. O restante do material escavado na região é a coleção do Peter Lund, encontrada no século 19 e que conta com 30 crânios. Este material está na Dinamarca.

esqueleto em posição fetal, acervo do museu do castelinho

Esqueleto de oito mil anos, acervo do Museu do Castelinho, em Lagoa Santa (Foto: Fellipe Abreu)

Em 2019, quando o 360meridianos contou a história da Luzia e dos povos de Lagoa Santa, ouvimos diversos lamentos de pesquisadores. André Prous, professor da UFMG e que passou décadas escavando a região, disse ser “extremamente decepcionante” a falta de um grande museu para contar a história dos seres humanos de Lagoa Santa. “Faltou interesse. Alguém tem que pagar para fazer alguma coisa”, completa.

Com as chamas e a perda da maior parte do material, a criação de um novo museu fica cada vez mais distante. “Em Minas sobrou muito pouco material para você rechear um grande museu sobre o Homem de Lagoa Santa. Mas antes tarde do que nunca”, diz Walter Neves. Por outro lado, ele aponta que nesse momento seria melhor investir nos museus que já existem do que criar algo novo, já que muitos deles estão em estado precário, sem investimento em infraestrutura e segurança.

“Não tem a menor condição de ter de novo uma coleção desses grupos que já se foram. Então, coleções deveriam receber um tratamento especial por parte do Estado Brasileiro. Mesmo que um museu não tenha uma boa exposição, mesmo que um museu não tenha muita pesquisa, coleções são Patrimônio da Humanidade. Teria que haver um programa brasileiro de reservas técnicas, pra a gente albergar as coleções que já existem e para que a gente não continue a perdê-las”.

Walter Neves – Arqueólogo e bioantropólogo da USP

As grutas de Lagoa Santa ainda guardam muitos esqueletos milenares e há sítios com dezenas de sepultamentos, como a Lapa do Santo. Mas enquanto não ocorre uma conscientização para proteger esse material, Walter Neves diz que é preciso pensar duas vezes antes de escavar. “Temos que parar com essa coisa de ficar escavando sem ter condições de colocar as coleções que saem das escavações em locais minimamente adequados”, diz.

crânios de Lagoa Santa

Acervo do Museu do Castelinho, em Lagoa Santa

Histórico de incêndios em museus no Brasil

Incêndios em museus são recorrentes no Brasil, como mostra a lista abaixo. O tamanho da lista sugere que não há dúvidas se outro museu brasileiro vai ser destruído pelas chamas. A questão é qual será e quando o próximo incêndio vai acontecer.

  • O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi destruído por um incêndio, em 1978. Lá estavam telas de Picasso, Miró, e Dalí, além de outras centenas de artistas. O incêndio, que durou menos de uma hora, deixou um prejuízo de milhões de dólares e abalou a imagem internacional do Brasil, que demorou mais de uma década para voltar a receber exposições internacionais de grande porte.
  • O Museu Nacional, também no Rio, foi completamente destruído em 2018. Todo o acervo histórico e científico, acumulado ao longo de mais de 200 anos, foi perdido.
  • O Teatro Cultura Artística, em São Paulo, foi destruído por um incêndio em 2008.
  • O Memorial da América Latina, também em São Paulo, pegou fogo em 2013. As chamas destruíram um auditório e uma tapeçaria de 800 metros quadrados da artista Tomie Ohtake.
  • O Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, em Belo Horizonte, teve seu incêndio em 2013. Foram destruídas três exposições, entre elas uma dedicada ao paleontólogo dinamarquês Peter Lund.
  • O Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios, em São Paulo, foi outro destruído pelas chamas. O incêndio de 2014 danificou 35 peças.
  • O Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, foi completamente destruído em 2015. Era um dos museus mais visitados do Brasil.
  • A Cinemateca Brasileira, em São Paulo, pegou fogo em 2016. O incêndio foi o fim da linha para 270 títulos, que não tinham cópia de segurança.
  • O Instituto Butantã, em São Paulo. Em 2010, um incêndio destruiu o maior acervo de cobras tropicais do país. Eram 80 mil exemplares.

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Rafael

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4 comentários sobre o texto “De incêndio em incêndio nossa história vai se acabando

  1. Artigo de uma pertinência e consciência político-sociais imprescindíveis no momento em que vivemos. Estou aproveitando a quarentena para me aprofundar em dois temas dos quais gosto muito: viagem e arte. Vira-e-mexe leio as discussões acaloradas sobre a posse e restituição de artigos históricos pelos países colonizadores, tão em voga atualmente. Mas, morando no Brasil e sendo um apaixonado pelas diversas facetas da arte, da pré-história à contemporânea, e presenciando o descaso da sociedade (afinal, não acredito que a culpa seja só do governo. Ela é um reflexo de nós) em relação a esse patrimônio, não tenho como não me perguntar: será que não é melhor mesmo que essas peças estejam nas mãos de quem cuida, valoriza, preserva? Será que merecemos e valorizamos aquilo que temos? Perdemos todos: quando não damos valor à nossa história e não a conhecemos, deixamos com que vire cinza ou que vá parar em um museu europeu, norte-americano ou até bonaerense (vide Abaporu).

    1. De fato, Henrique. Ao escrever, me peguei pensando que no fim é bom que parte do acervo esteja na Dinamarca. Uma pena, mas é verdade.

      Também não acho que seja culpa só do governo, não. E sequer de um governo só né? Porque é um problema de décadas.

      Abraço e obrigado pelo comentário.

  2. Olá, Rafael!

    Que maravilhoso ler esse seu texto, apesar de tocar num assunto revoltante, que é o descaso com nossa história.
    Sou do Rio, passei minha infância visitando a Quinta da Boa Vista e o Museu Nacional e, anos depois, estudei na UFRJ. Ainda me lembro perfeitamente o quanto eu fiquei arrasada ao ver as imagens das chamas tomando aquele lugar tão valioso e cheio de memórias para mim. Fico tão triste ao ver que essa situação continua se repetindo, agora em Minas. É muito importante ver essa iniciativa de vocês e pretendo acompanhar. Agradeço a vocês pelo trabalho em escrever essa e as outras histórias do site e compartilhar todo o conhecimento de vocês conosco.

    Um grande abraço

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