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Atlas: Minas Gerais, Brasil

Em Minas, o fantástico está em cada esquina

“Eu acho que a realidade, no Brasil, é uma ficção. Em qualquer país também é, mas no Brasil a gente conhece. O Brasil é uma ficção. Minas Gerais foi escrita por Deus, Diabo, Shakespeare, Tolstoi e por aí.”

Assim disse Roberto Drummond, um de meus escritores favoritos. O mineiro, que morreu do coração numa madrugada de 2002, enquanto assistia ao jogo entre Brasil e Inglaterra, pela Copa do Mundo, provou a máxima de que a arte imita a vida. A obra mais famosa de Roberto, Hilda Furacão, ajuda nisso, já que o livro mistura realidade e ficção a ponto de deixar o leitor sem saber o que existiu de fato e o que era criação do autor. Em todo caso, a Hilda que inspirou o Furacão morreu no ano passado, num asilo de Buenos Aires. A Hilda da vida real provou que o fantástico não tem limites: morreu pobre e sozinha, mas viúva de um dos maiores ídolos do Boca Juniors.

E não para por aí. O protagonista da obra é um certo Roberto, jornalista do interior que ganhou fama ao comprar dois nordestinos para provar que o trabalho escravo ainda existia no sertão. No sertão da década de 1960 – e ele ainda pediu o recibo da compra. Pronto, estava feita a fama. Do Roberto personagem e do Roberto jornalista e escritor.

Na mesma entrevista que abriu este texto, publicada pela Revista Revelação, o repórter pergunta ao Roberto: “Quem não conhece sua história pessoal e lê Hilda Furacão sente-se confuso porque não sabe quais trechos são reais e quais são fictícios. Era isso que você queria?”

“Não. Eu queria que todo mundo acreditasse em tudo, como se fosse verdade, que é o propósito de todo escritor. O jornalista não tem isso porque ele quer a certeza do que está contado. Eu quero a dúvida. Eu quero a ambiguidade, aquela coisa que é e que não é”, respondeu o escritor.

Este post não é sobre o Roberto, por mais que ele mereça isso. Este post é sobre o fantástico que existe em cada esquina. Se García Márquez e tantos outros foram responsáveis por mostrar ao mundo uma América Latina onde chuvas de flores se misturam com ditadores enfurecidos e mulheres arrebatadas ao céu, o Brasil também tem sua cota nessa direção.

Não estou aqui para avaliar se algo que possa ser chamado de realismo fantástico foi criado nessa terra de Dom Pedro – o primeiro do Brasil e o quarto de Portugal – e de Getúlio, embora só os nomes acima já provem que sim. Lembre-se de Roberto: o Brasil foi escrito por Deus, Diabo, Shakespeare, Tolstoi e por aí.

E o por aí é Guimarães Rosa.

Na América Latina, o fantástico está por todos os lados. Nós já fizemos um texto aqui no 360 com o mapa do folclore brasileiro, aquelas histórias que todo mundo conhece. Agora, quero mostrar histórias fantásticas e mais, digamos, jovens. E que garantem seu lugar na realidade ao aparecerem nas páginas dos jornais. Semana passada eu já citei uma aqui: como a cabeça de Tiradentes, o mártir do Brasil, foi roubada duas vezes. Duas vezes num espaço de 200 anos. Não leu? Veja aqui.

Como essa história você já conhece, deixo a próxima para o Roberto.

O Louco do Triângulo Mineiro

“Era um louco que ficava assustando muita gente, apavorando o Triângulo. O Governador era o Francelino Pereira ou o Rondom Pacheco. E então a Polícia Militar veio prendê-lo. Fez o cerco ao Louco do Triângulo. E ele já tinha virado lenda. E não o prendiam, e o Estado de Minas falando, o Diário da Tarde também, todos em pânico com o Louco do Triângulo.

Aí o governador convocou o chefe da Polícia Militar, e ele explicou que não podia prender o Louco do Triângulo porque: ‘Governador, na hora que a gente dá voz de prisão ele vira um passarinho. A gente põe numa gaiola ele vira uma onça pintada. Na hora que a gente prepara para dar aquele tiro para fazer a onça dormir ele vira um charuto. E é um perigo, governador, a gente pegar aquele charuto: e se ele virar um tigre na mão da gente?’ Isso foi dito para o governador e saiu nos jornais”.

E não foi no Sensacionalista.

Caboclo d’Água

Quer ganhar mil reais? A Associação de Caçadores de Assombração de Mariana ofereceu a recompensa para quem servisse de isca. Isca para o Caboclo d’Água, uma criatura peluda e de garras e dentes afiados que habita um ribeirão de Barra Longa, no interior de Minas. E o prêmio aumenta se você tirar uma foto do bicho: R$ 10 mil. E nem precisa ser selfie. Uma gaiola de metal chegou a ser feita para prender o animal, que tem até retrato falado. Se você trombar com ele por aí, corra. Ou tire uma foto.

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O bilionário morto que ainda faz filhos

Antônio Luciano foi um dos personagens do livro Hilda Furacão. Na obra, ele era o dono de um hotel da Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, o Hotel Financial. Isso sem contar milhares de outras posses, que faziam dele um dos homens mais ricos do Brasil. Além disso, o vilão de Hilda Furacão tinha uma onça domesticada e teria comprado o direito de fazer sexo com milhares de virgens, mulheres pobres que eram vendidas pelos próprios país. Parece que tudo nessa história tem um fundo de verdade. Exceto a onça.

O Antônio Luciano que inspirou o personagem deixou uma herança de 3 bilhões de dólares, foi dono de trinta mil imóveis em Belo Horizonte, de todas as salas de cinema da capital mineira e de quase 300 fazendas no interior do estado. Ahh, ele tem dezenas de filhos e vira e mexe aparece alguém dizendo ser descendente do bilionário, que morreu em 1990. Até incesto dizem que tem nessa história, com uma filha que diz ter sido também neta e amante dele. Como diz essa matéria da Época, nem Nelson Rodrigues, meus amigos. Nem Nelson Rodrigues.

Aqui viveu Chico Xavier

Na mesma entrevista, Roberto Drummond lembrou um nome que não poderia ser esquecido: Chico Xavier. “Em Uberaba, o Chico Xavier recebe, do além, textos do Machado de Assis e Dostoievski já traduzido para o português. E é verdade! Você compara o texto. E ele conversa com o além, dá recado, essa coisa toda. E você vai contestar?”.

Eu não.

Chico Xavier psicografou mais de 450 livros. E vendeu mais de 50 milhões de exemplares, doando a renda para caridade. Segundo a Istoé, Chico Xavier é o autor brasileiro de maior sucesso – ele vendeu duas vezes mais livros que Paulo Coelho. Ele também psicografou 10 mil cartas. E algumas delas ajudaram a inocentar acusados de assassinato.

E há outros casos de absolvição por causa da ajuda de cartas enviadas do além, como você pode ver aqui e aqui.

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O Doutor Fritz

Um médico alemão que na década de 50 atendeu mais de quatro milhões de pessoas em Minas Gerais. Esse é o Doutor Fritz, que ficou famoso em todo o mundo ao incorporar o médium José Arigó, de Congonhas, mas que depois já teria aparecido em vários lugares mundo afora.

Arigó foi processado por prática ilegal da medicina, mas isso não diminuiu seu mito. Condenado, ficou livre da pena por indulto de Juscelino Kubitschek – é que a filha do presidente foi curada pelo Doutor Fritz, garantem muitos. “Contam que Arigó devolvia a visão aos cegos, levantava paralíticos e tirava tumores, além de outras curas”, relata o Estado de Minas.

Hoje, mais de 50 anos depois da morte de Arigó, Fritz ainda opera em Minas Gerais, mas agora incorporado em outra médium. A cidade é Sabará, como continua relatando o Estado de Minas. “Há dias em que são 3 mil pacientes para o atendimento, pessoas de todas as religiões e crenças, algumas até mesmo em caravanas”.

Segundo uma das histórias mais comuns, o Doutor Fritz teria nascido em Munique, em 1876, e trabalhado como médico na Primeira Guerra Mundial. Ele não cobra pelos atendimentos.

E muitas outras…

E ainda tem o incidente de Varginha, que ficou famoso no Brasil durante a década de 90. Foi naquela época que, segundo inúmeras testemunhas, um ser alienígena foi capturado por militares brasileiros – e um deles teria morrido três semanas depois, contaminado pelo contato com a criatura de outro mundo. Para o Exército, que investigou o incidente, a aparição nada mais era que um cidadão de Varginha que vivia agachado, tinha problemas mentais e que foi confundido com alien.

Há ainda os casos dos fantasmas de Ouro Preto, em especial o que habita a República Maracangalha. E nem preciso falar do Chupa Cabra, figura comum em toda a América Latina. Para o azar das cabras.

Histeria coletiva, interpretação errada dos fatos ou presença do sobrenatural? Isso fica a seu critério. A certeza que eu tenho é que, independente da explicação que você preferir, o fantástico está  presente em cada esquina do Brasil. Ou, para citar o Riobaldo, de Guimarães Rosa, tudo é e não é. 


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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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