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Atlas: Grécia, Macedônia

A história dos países que mudaram de nome

Armados de tacos de madeira e bombas de fabricação caseira, 60 mil pessoas se reuniram em frente ao Parlamento Grego no último dia 20 de janeiro, em um protesto que terminou em gás lacrimogênio e depredação de patrimônio público. O motivo para tamanha ira era um nome: o governo estava prestes a ratificar o acordo que autorizava um vizinho, a República da Macedônia, a mudar seu nome para Macedônia do Norte.

O bafafá durava três décadas. Desde a dissolução da antiga República da Iugoslávia, em 1991, que o novo país deixava os gregos pistola. É que Macedônia também é o nome de uma região da Grécia e remete às grandes conquistas e batalhas de Alexandre, o Grande. Para eles, essa era uma tentativa de se apropriar da herança histórica e cultural da Grécia, além do fato levantar o temor de um movimento expansionista que visasse anexar a região homônima. Foi aí que a coisa ficou séria: a Grécia impediu a entrada da Macedônia na ONU até que ela aceitasse ser chamada de FYROM, um acrônimo para “Antiga República Iugoslava da Macedônia”.

Leia também: A história de Tessalônica e a Macedônia Grega

Cansadas de tanta pendenga, as duas nações resolveram, em junho do ano passado, entrar em um acordo para solucionar o conflito. O país passaria a se chamar Macedônia do Norte, abandonaria o acrônimo feioso e a Grécia pararia com os bloqueios que impedem, entre outra coisas, que o país faça parte da União Europeia. Mas a medida não agradou a todo mundo: para os gregos, há uma profunda questão identitária ligada ao nome, e aceitar que o vizinho se aproprie dele é entregar de bandeja a história do país.

No Canadá, comunidade macedonia protesta pelo direito de usar o nome

No Canadá, comunidade macedônia protesta pelo direito de usar o nome. Foto: Shutterstock, por Zoran Karapancev.

Patriotismo e identidade

A Macedônia do Norte não foi o único país a trocar de nome nos últimos anos. Em setembro do ano passado, o pequeno reino da Suazilândia, localizada entre África do Sul e Moçambique, passou a se chamar ESwatini. A mudança foi feita em comemoração aos 50 anos de independência do país, que passou meio século como protetorado britânico, e é, segundo o rei Mswati III, um abandono do passado colonial e um retorno às origens. No siswati, a língua local, ESwatini significa “terra dos suazi”, a etnia predominante no país.

A mudança, no entanto, também não agradou a todo mundo. Para os críticos, o ESwatini tinha outras prioridades no momento: o país passa por uma grave crise econômica e acesso a serviços básicos, como medicamentos para HIV, doença que atinge grande parte da população, estão em falta nos hospitais. “É um processo muito caro. Virtualmente tudo precisa mudar: mapas, placas carros, documentos legais”, diz Steven Gruzd, do South African Institute of International Affairs, em uma reportagem da Gazeta do Povo. “A ideologia pode substituir a praticidade.”

Para que uma mudança de nome seja reconhecida internacionalmente é preciso enviar para a ONU a nova grafia nas seis línguas oficiais da organização, para que sejam registradas no banco de dados dos Nomes Geográficos Mundiais. A partir disso, a ordem alfabética das cadeiras dos representantes é ajustada.

Um novo começo

Soldado exibe emblema com novo nome da Suazilandia, ESwatini

Foto: Shutterstock, por bmszealand

Muitas vezes, a mudança de nome é a manifestação do desejo de recomeçar. É comum que países que alcançam a independência ou que passam por mudanças políticas e territoriais drásticas adotem uma nova alcunha para marcar aquele ponto de virada em sua história. “É uma questão de afirmar a independência, distanciando-se do colonialismo, lembrando-se da história e tratando de passar uma borracha sobre o passado recente”, diz Steven Gruzd.

Assim como a Suazilândia, diversos países africanos optaram, em algum momento de suas histórias, por livrar-se do nome colonial. É o caso da Rodésia, que virou Zimbábue, e da Rodésia do Norte, que virou Zâmbia. Em 1990, a Namíbia deixou de ser chamada de “Sudoeste Africano”. Seis anos antes, Burkina Faso já tinha abolido a denominação colonial “Alto Volta”. O próprio Congo já foi conhecido, desde a independência da Bélgica, em 1885, como Estado Livre do Congo, Congo Belga, Congo Leopoldville, República do Congo e Zaire. Hoje, vigora a alcunha de República Democrática do Congo, que é para não ser confundida com a República do Congo, país com o qual compartilha fronteira.

Um nome mais simpático

Mais surpreendente foi o anúncio, em 2016, de que a República Tcheca mudaria seu nome para Tchéquia. A justificativa do governo é que era preciso unificar a forma como o país era chamado. A mudança, no entanto, não ocorre de maneira oficial – é apenas uma recomendação que indica como gostariam de ser conhecidos. É que, internamente, os habitantes já se referem à pátria como “Češko”, e não na versão mais comprida do nome.

Chamar o país de República Tcheca é mais ou menos o mesmo que chamar o Brasil de República Federativa do Brasil ou a Rússia de Federação Russa – além de ser longo demais, a forma completa não é nada simpática quando comparada ao diminutivo. “Eu uso “Tchéquia” porque soa melhor e é mais curto do que a “fria” República Tcheca”, disse o presidente Milos Zeman.

Já na época da dissolução da Tchecoslováquia, o governo tentou instituir a versão curta do nome, para combinar com a forma tcheca. Em alguns idiomas, como o alemão, tiveram sucesso, mas em muitos outros, como o inglês, o espanhol, o francês e o português, o que vingou mesmo foi a versão oficial. O anúncio de 2016 foi, portanto, muito mais um reforço que uma alteração de fato. Para eles, padronizar a versão curta do nome ajudaria a promover o país para investimentos e turismo, além de ser mais fácil de aplicar em materiais impressos. A vontade, no entanto, parece não ter colado ainda.


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Natália Becattini

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma e compartilho minhas impressões de mundo também no instagram @natybecattini e no twitter.

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8 comentários sobre o texto “A história dos países que mudaram de nome

  1. A questão de ser estranho chamar um país pelo seu nome completo também vale para os Estados Unidos da América, uma vez que eles s autodenominam apenas de América. Insistir em chamar o país de Estados Unidos equivale a chamar o Brasil apenas de República Federativa.

    1. Mas isso acontece com outros países também, como os Emirados Árabes Unidos, que são chamados apenas de Emirados Árabes, a República Centro Africana e a República Dominicana. No caso dos Estados Unidos, ao meu ver, é uma forma de evitar misturar com o nome do continente.

      Abraços!

  2. Sabe que visitei a Suazilândia em 2017 e quando o país mudou de nome, fiquei muito surpresa! Até então, nada se comentava por lá!! Ainda não me acostumei, e pra falar a verdade, até hj não consigo dizer que fui pra eSwatini!

    1. hahah pois é, tem mudanças que demoram a pegar mesmo, né? Quem sabe com o tempo nos acostumamos? Eu tb ainda não consigo dizer Tchéquia e eSwatini naturalmente…

  3. Artigo interessante, a gente não liga muito para essas discretas mudanças, mas que fazem parte da identidade de um povo. Muito bom ponto de vista. Vemos muito isso na história do mundo especialmente em países que estavam se livrando do julgo de outro país. Visitamos recentemente o Myanmar, que antes era chamado de Birmânia. Quando a gente fala da viagem, tem gente que nunca nem ouviu falar do país. Vou olhar com mais cuidado para este ponto na próxima viagem. Abraços

    1. Realmente Armando, a gente não liga muito, mas se a gente prestar atenção tem muita história e geopolítica por trás né? Eu gosto de saber essas curiosidades. A Birmânia é outro exemplo. Na região, a Tailândia também já mudou de nome, mas faz mais tempo….

      Abraços!

      1. A Tailândia era chamada de Reino do Sião né?
        Me lembro vagamente de aulas de história onde ouvi isso.
        Conteúdo super interessante assim como quem o escreveu 😉

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