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Atlas: Brasil

É possível uma reabertura segura do turismo durante a pandemia?

O Jalapão está entre os destinos de natureza mais desejados do Brasil. Por trás daquelas belas paisagens, uma discussão acalorada tomou a região: de um lado, a pressão de empresas que querem reabrir o Parque para turistas; do outro, moradores de uma pequena comunidade quilombola que apelam por sua saúde e suas vidas.

“Para a gente é muito importante partilhar nossa história e cultura com os visitantes. Neste momento não é viável receber de uma forma mais calorosa. O turismo para nós é essencial, ele traz benefícios para a comunidade, produzimos nossa arte e vendemos para quem chega aqui. Nós não somos contra o turismo em si. Somos contra a reabertura neste momento. Nós somos vulneráveis, a saúde é precária aqui no Jalapão”, diz Sirlene Matos, representante do Quilombo Mumbuca, uma comunidade onde vivem 42 famílias que produzem artesanato em capim dourado.

Saiba mais: Nem novela, nem pacote: conheça o Jalapão com o turismo de base comunitária

Os Mumbucas fundaram o quilombo em meados do século 19, do encontro de negros fugidos da Bahia e indígenas da etnia Xerente. “Temos aqui no quilombo a minha avó, que é parteira, ela tem 115 anos. Isso para nós é motivo de festejar todos os dias. Por mais que nos escondamos, não podemos esconder ela, que precisa de cuidados diferenciados. Os nossos velhinhos são muito importantes, fazem parte de nós, e nós não queremos perder nenhum dos nossos para esse coronavírus.”

jalapao ismael

Mulheres do Quilombo Mumbuca. Foto: Ismael dos Anjos

Segundo as conversas da comunidade com o Secretário de Turismo do Tocantins, a região depende fortemente do turismo e diversas das agências que promovem atividades de receptivo podem falir caso as atividades não sejam retomadas. “Nós sabemos que as pessoas vão ter prejuízo porque investiram, mas a vida é muito mais importante do que recursos e economia. Uma vida que se vai não se compra mais”, afirma Sirlene.

Segundo ela, existe a pressão de donos de atrativos e associações de turismo pela reabertura, mas Sirlene também lembra que a proximidade das pessoas na região facilitaria a proliferação: “Estamos dizendo ao mundo: não é hora de reabrirmos os atrativos turísticos do Jalapão”.

Na manhã de quarta-feira, 24, o Governo do Tocantins anunciou, por meio de uma videoconferência que reuniu representantes das áreas de turismo, meio ambiente e economia, que manteria fechados todos os Parques Estaduais, devido ao aumento de casos de Covid-19 no estado. Será criado um grupo de trabalho com a equipe do governo e representantes dos oito municípios que estão dentro da área do Jalapão, assim como representantes da comunidade Mumbuca.

Sirlene Matos celebrou a decisão e disse que aguarda o contato do Governo. Por outro lado, em Ponte Alta do Tocantins, um dos municípios do Parque, a Associação de Turismo Regional do Jalapão (ATUREJA) realizou um protesto de carros contra a medida, pedindo a reabertura.

Protestos antituristas

O Jalapão não é o único destino brasileiro a passar por essa dicotomia entre os pedidos de reabertura para o turismo e a proteção de seus habitantes. Em Minas Gerais, o anúncio da flexibilização gerou um protesto dos moradores, no dia 10 de junho, em Santana do Riacho, cidade que fica na Serra do Cipó. Os cartazes diziam: “Olá visitante, você não é bem-vindo aqui neste momento”.

No litoral paulista, no final de maio, quando foi decretado o “megaferiado” na cidade de São Paulo, moradores da região chegaram a fazer tumbas de areia na praia e também bloquearam a rodovia Rio-Santos com pneus queimados, em protesto contra a vinda de turistas.

Em outros lugares, a reabertura foi seguida de aumento nos casos e da necessidade de voltar ao isolamento. Foi assim em Extrema, em Minas Gerais, próxima à divisa com São Paulo. Cerca de duas semanas após o megaferiadão paulistano, a cidade registrou, em dois dias, 53 novos casos.

Foz do Iguaçu, no Paraná, também virou centro da polêmica. No dia 10 de junho, a prefeitura propôs a reabertura das atividades turísticas.

No dia 20, a cidade das cataratas recebeu uma presstrip (viagem para profissionais da mídia) do recém lançado Movimento Supera Turismo, organizado por entidades, associações e agências de viagem que buscam a retomada das atividades turísticas no Brasil “com segurança”.

Um dia após o início da viagem, que recebeu inúmeras críticas e notas de repúdio nas mídias sociais, o Parque das Aves, uma das principais atrações turísticas da região, decidiu encerrar novamente as atividades, dado o aumento exponencial de casos e a falta de leitos no Estado.

parque das aves foz do iguaçu

Os exemplos de cidades que reabriram completamente são aterradores. É o caso de Blumenau, que viu o número de pacientes infectados com o novo coronavírus subir de 68, em 13 de abril, para 951, em 23 de junho, de acordo com o Governo de Santa Catarina.

O mito da segurança nas viagens

Apesar de um destino de natureza dar a sensação de falsa segurança a algumas pessoas, é preciso lembrar que as comunidades que vivem nesses lugares não têm acesso a leitos hospitalares e estão muito mais vulneráveis aos efeitos mortais do Covid-19.

Afinal, aquela ideia de que ficar apenas em espaços abertos ou fechado numa pousadinha não leva em consideração o fato de que o acesso a serviços de saúde nesses lugares é limitado.

O Secretário-Geral da Organização Mundial do Turismo (OMT), Zurab Pololikashvili, afirma que a prioridade na retomada do turismo é proteger os mais vulneráveis, a saúde e a segurança. Apesar da reabertura estar acontecendo, o comunicado da organização diz: “Até que o turismo volte a funcionar no mundo todo, a OMT mais uma vez clama por um forte suporte ao setor para proteger empregos e negócios”.

Na teoria, apenas países que controlaram a doença estariam aptos a seguir com protocolos de reabertura turística. E apenas uma vacina permitiria ter segurança para retomar as atividades como eram antes.

Os casos de Covid-19 têm crescido em todo o Brasil, assim como a falta de leitos e equipamentos como respiradores e anestésicos. Até o momento em que escrevi esta reportagem, são 1.192.474 casos e 53.874 mortes, segundo o consórcio de veículos de imprensa. Isso sem contar as mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave Inespecífica, que passam de 21 mil, muitas delas provavelmente causadas pelo coronavírus.

Aos viajantes, lembramos: turismo é luxo, não necessidade. É hora de continuar em casa.

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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 34 anos e atualmente moro na Inglaterra, quando não estou viajando. Já tive casa nos Estados Unidos, Índia, Portugal e Alemanha, e visitei mais de 45 países pelo mundo afora. Além de escrever, sempre invento um hobbie novo: aquarela, costura, yoga... Siga minhas viagens em @afluiza no Instagram.

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4 comentários sobre o texto “É possível uma reabertura segura do turismo durante a pandemia?

  1. Muito triste acompanhar essa falta de diretivas governamentais no Brasil. Aqui na Itália o decreto mandou fechar e todos fecharam tudo até o governo do país deixar reabrir. Era proibido inclusive ir para casas próprias de veraneio visto que, como você comenta, essas cidades menores não têm estrutura de saúde para tratar possíveis casos.
    Espero que a situação aí melhore logo.

    1. Oi Deb,

      Pois é. E sem contar que essa falta de organização do governo está fazendo com que a quarentena dure muito mais tempo do que seria necessário, se compararmos com outros países que fecharam e já puderam reabrir.

  2. Muito importante um texto como esse nesse momento. Chega a me dar um no no estomago quando vejo alguns influencers por ai compartilhando conteudo de viagem sem levar em consideracao o momento emque vivemos.
    (perdao pela falta de acentuacao :/)

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