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Editorial: Deixar de se posicionar não é neutralidade


Tudo é política. Não é possível pensar um mundo melhor sem ela; não há respostas para crises ou saídas de problemas fora dela. Num primeiro momento pode parecer estranho que um site de viagem e cultura resolva se posicionar durante uma eleição presidencial, mas basta um olhar atento para perceber que estranho seria não escolher um lado.

O 360meridianos, desde a sua fundação, sempre teve um posicionamento político muito claro. E a última versão do site, lançada em junho deste ano, veio até com uma editoria somente para os textos políticos, tão valiosos quanto aqueles que falam de sociedade, cultura e história – e certamente muito mais importantes do que os que dão simples dicas de viagem. Note que esses textos podem não falar da política que pensamos no sentido tradicional, a dos partidos e governos, mas abordam assuntos que tocam na política de dia a dia, que afeta nossas vidas.

Ao longo dos últimos anos, refletimos sobre o que é e para que serve uma cidade, falamos sobre a importância dos memoriais e monumentos para evitar que erros se repitam e discutimos sobre os impactos negativos que o turismo deixa no mundo. Escrevemos sobre a gentrificação e falamos de sustentabilidade – e temos orgulho de dizer que o 360 faz mais do que só dar dicas de viagem. Como diz o nosso manifesto:

Somos um blog sobre Cultura Viageira. E isso quer dizer que buscamos ver o mundo com os olhos do descobrimento. Abordamos as viagens desde a perspectiva da diversidade e da empatia e acreditamos que elas também são uma forma de aprendizado.

No cenário internacional, já falamos sobre a censura online na China, sobre o sentimento independentista da Catalunhasobre os incertos rumos da monarquia na Tailândia, a crise que parece não ter fim na Argentina e até do Brexit. Ao longo dos últimos sete anos, sempre adotamos uma pauta progressista, inclusiva e que tenta dar voz às minorias. Incentivamos o empoderamento feminino, nos posicionamos contra o desmatamento e pela proteção dos Parques Nacionais Brasileiros, fizemos parte e republicamos aqui textos do Projeto Wakaya, sobre os povos pré-colombianos e os idiomas originários da América Latina. Refletimos sobre a importância de atrações turísticas que recontem a história da população negra.

Para tentar furar a bolha dos fundadores do 360meridianos, iniciamos, no meio do ano passado, um processo de contratação de colunistas. Foi assim que estreamos nossa coluna LGBTQI+ e que abrimos caminho para vozes e pautas diversas. É nessa direção que pretendemos seguir, de forma cada vez mais forte, nos anos que virão.

É por esses valores, da diversidade, do respeito às minorias e por conhecermos a História e sabermos o que acontece quando um país em crise escolhe uma aventura autoritária, que fazemos questão de deixar claro que votaremos em Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores, na próxima eleição – e nos posicionamos no campo oposto, e com firmeza, a tudo que defende e diz o outro candidato.

O que o outro candidato representa não está de acordo com a visão de mundo plural, diversa e inclusiva em que acreditamos. A democracia surgiu na Grécia, passou séculos hibernando e reacordou só muito recentemente. No Brasil, ela é ainda mais jovem e acabou de fazer 30 anos. Mesmo se contarmos a janela democrática, de Vargas, JK, Jango e Jânio, percebemos que nossa democracia ainda não alcançou cinco décadas de existência. Agora, notamos, com a mesma perplexidade que afeta brasileiros de todos os cantos e veículos de comunicação mundo afora que nossa jovem democracia corre o risco de morrer novamente, dessa vez não pela ação de tanques, mas pelo voto.

O termo democracia vem do grego e significa “governo do povo”. Note que não é governo da maioria, mas de todas as pessoas. Fosse o contrário, seria aceitável que uma maioria votasse para eliminar a minoria – imagine um cenário em que as mulheres, maioria numérica da população brasileira, resolvessem votar juntas para eliminar os homens, e fica evidente o quão errado é esse entendimento.

O ponto é que numa eleição presidencial elegemos não apenas o próximo governante do país, mas também a oposição, que precisa e deve ser respeitada. Quando um candidato diz que “a minoria tem que se curvar, se calar para a maioria”, acrescentando que o caminho para os que lhe fazem oposição é ou exílio ou a prisão, ele deixa claro que não respeita os valores democráticos. E essa talvez seja, de todas as declarações absurdas dadas por ele, a mais grave.

E, vale lembrar, maiorias políticas são sempre passageiras e um grupo que foi dominante por décadas pode se tornar minoritário, mas isso não significa que deva ser eliminado ou que sua voz possa ser ignorada – a roda política, numa democracia saudável, não demorará a girar e inverter tudo novamente. Acreditamos na democracia. Não gostamos de governos autoritários ou de ditaduras, sejam elas na Venezuela, em Cuba, na China, na Tailândia ou aquela que existiu no Brasil dos militares e no Chile do nada saudoso Pinochet.

Apoiar a eleição de Haddad não significa perdoar e esquecer os muitos erros do PT, que existem e devem ser investigados e punidos – como já está ocorrendo, vale dizer. Mas quando o outro lado se mostra não apenas muito pior, mas antidemocrático, não dá para ficar em cima do muro.

É nos governos autoritários que a corrupção se instala com mais facilidade e corroí as engrenagens de um sistema político. Na ânsia de evitar uma imaginária venezuelização do Brasil e de fugir de um comunismo que morreu em Berlim, em 1989, corremos o risco de virarmos justamente aquilo que muitos temem que o Brasil seja: um país autoritário, isolado do mundo, com instituições democráticas enfraquecidas e onde a oposição está presa ou cruzando a fronteira.

Deixar de se posicionar não é neutralidade, mas abraçar a ameaça; não é lutar contra a corrupção, mas eleger o fim do direito de questionar. E sem poder voltar atrás. Democracias não morrem só com tanques, mas também quando muitos optam pelo silêncio.

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21 comentários sobre o texto “Editorial: Deixar de se posicionar não é neutralidade

  1. Muito bom ler este posicionamento aqui, eu além de leitora e fã desse site também tenho junto com meu esposo um site de viagens e nos últimos meses especialmente neste processo eleitoral não publicamos nada até porque estava me sentindo como Zuzu Angel quando ela cita no filme que a ditadura estava torturando nos porões e ela estava desenhando vestidos de flores para a moda. Passamos um tempo mais engajado de forma pessoal com as questões políticas sem usar o site de viagem pois por alguma razão não via como unir as duas coisas. Com esta matéria hoje me bateu este estalo de que sim e possível e necessário fazer este tipo de posicionamento. Parabenizo a toda equipe pela coragem e pelo pioneirismo em fazer do site de viagem algo muito maior para a sociedade.

  2. A neutralidade é uma posição, sim. É reconhecer que as duas propostas são igualmente ruins e podem afundar o país. Não consigo ver o Haddad (PT) como democrata e o Bolsonaro como ditador, nem o contrário. Pra mim os dois se equivalem e representam projetos autoritários de poder. Quanto ao Bolsonaro, acho que seu comportamento se aproxima mais da retórica do Trump do que das ideias genocidas do Duterte. Reconheço que isso seja desprezível, mas está longe de ser o fim do mundo. Enfim, na minha opinião, mais importante que o resultado desse domingo, é a população fazer oposição a qualquer desmando do próximo governo. A gente tem que lembrar que quem tá ganhando não é o Bolsonaro e, sim, o anti-petismo. Não podemos ficar passivos nos próximos 4 anos.
    PS: Só vou no Haddad pro outro não ganhar de lavada e achar que pode tudo.

  3. Sempre busquei muitas dicas no blog de vocês e fico muito feliz de ver esse posicionamento aqui. Acho que viagem tem muito a ver com política, afinal podemos ver e viver um pouco de cada modelo que não o nosso. Parabéns pelo posicionamento. Virei mais fã de vocês.

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