Como a alimentação brasileira deixou de ser saudável?

Como a alimentação brasileira deixou de ser saudável?

Você é o que você come. E, querendo ou não, nossa sociedade é definida pelas tradições culinárias. Ao mesmo tempo, com a globalização e a industrialização alimentícia, essas tradições à mesa certamente vão mudando, e muitas vezes para pior.

Aqui na Europa, a experiência de ir ao supermercado é muito diferente do Brasil, em vários sentidos. Vou apontar dois que me chamam atenção: em primeiro lugar, a importância da época do ano em relação à comida. Porque é assim que as coisas funcionam – tem morango na época de morango, melancia na época de melancia. Pêssego, laranja, pera, maça, cada um no seu tempo. Não encontro morango fora da época. Além disso, os bons vinhos, queijos, azeites e embutidos disponíveis no mercado são todos locais e vêm com selos da União Europeia para garantir que são feitos por produtores de cada região específica, seguindo métodos tradicionais. Para comprar um bom vinho português, por exemplo, basta procurar um que tenha as certificações DOP, DOC ou IGP. Os selos garantem a qualidade do produto, e aí só fica a questão do gosto pessoal na hora de comprar.

Leia também: Queijo Europeu: como encontrar produtos originais

Tessalônica Grécia mercado

Mercado em junho, na Grécia. Você só encontra cerejas nessa época do ano

Logo que me mudei para Portugal, minhas amigas da Grécia e República Tcheca não entendiam por que eu lavava tanto as frutas depois de comprar, às vezes deixando de molho e tudo. Para elas bastava uma passada de água e esfregadinha. Quando eu falei dos agrotóxicos, me olharam com a cara engraçada. Antes que vocês achem que isso tem a ver com a famosa falta de higiene europeia, não é bem assim. Em 2015, o jornal francês Le Monde fez uma matéria afirmando que no Brasil “o condimento favorito é o pesticida”. Isso porque, nosso país é defensor de uma agricultura industrial, o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, vários deles banidos da União Europeia, que tem regras super restritas quanto ao uso desses químicos em suas lavouras.

Sabe no que resulta um produto fora de época e cheio de química? Além do óbvio problema de saúde, gera também um problema de sabor. Comecei recentemente a ver aquela série Chef’s Table, da Netflix, e o segundo mini-documentário é sobre o chef Dan Barber, que prega a importância da qualidade dos ingredientes para uma boa comida e uma boa nutrição. Ele faz um comentário que é um dos exemplos do problema da alimentação do mundo hoje em dia. É mais ou menos assim:

“O trigo é a chave da alimentação da sociedade ocidental, representa 65% da agricultura (*dos Estados Unidos). Nós comemos mais trigo do que qualquer outra coisa. O problema é que nós não comemos o trigo verdadeiro, integral. Comemos trigo que está morto e desnudado, porque então vai durar, é estável. Parte da razão que não tem nenhum sabor é porque o agronegócio procura por culturas capazes de durar muito tempo em viagem ou num frigorífico. Eles não procuram por sabor ou nutrição. O verdadeiro desastre é que, em tudo isso, nós perdemos o sabor do trigo. E nós perdemos todos os benefícios para a saúde. E para algo que nós comemos tanto, é um verdadeiro desastre.

É comum que brasileiros venham para Europa e reclamem da comida. Viajei há poucas semanas com um grupo de brasileiros pela Itália e ouvi reclamações comuns entre brasileiros que visitam a Europa: “A comida está sem sal. A sobremesa é fruta ou queijo? Essa porção é pequena. O macarrão está muito duro.” Ao mesmo tempo, tenho relatos de amigas que fizeram o caminho contrário, da Europa de volta para o Brasil, e dizem que já não conseguem mais comer coisas tão doces ou tão salgadas como são no Brasil.

alimentação brasileira açucar

Quantidade de açúcar em bebidas industriais

A verdade é que é muito estranho pensar que o Brasil, com tamanha diversidade de produtos e com pratos tradicionais tão deliciosos e nutritivos, tenha um problema tão grave com alimentação. Quando comida é uma comódite e um negócio milionário, ainda mais num país em que pessoas vivem perigosamente perto da fome, a chance dos resultados disso serem catastróficos para nutrição são enormes.

Numa matéria incrível, e extremamente triste, o New York Times desvendou como a grande indústria alimentícia tem se expandido vertiginosamente em países como o Brasil, visto que seu crescimento só diminui nos chamados países ricos. E como isso está intimamente ligado com obesidade e problemas de saúde. Segundo dados levantados pelo jornal estadunidense, empresas como a Nestlé criaram um verdadeiro exército de vendas, que inclui entrega de junk food e bebidas açucaradas de porta em porta em regiões pobres e isoladas: 

Assim, em um país que combate a fome e a desnutrição, também há uma epidemia de diabetes e problemas cardíacos associados a altas taxas de obesidade. Segundo o jornal apurou, nas comunidades atendidas por um Centro de Recuperação e Educação Nutricional (CREN), “30% das crianças têm obesidade e outras 30% sofrem de desnutrição, segundo os dados da organização, que descobriu que 6% das crianças obesas também estão desnutridas”.

É isso que acontece quando comemos alimentos altamente calóricos, mas pobres em nutrientes. Carlos A. Monteiro, professor de nutrição e saúde pública na Universidade de São Paulo, também em entrevista para o NYT, disse: “O que temos é uma guerra entre dois regimes alimentares, uma dieta tradicional com alimentos de verdade, produzidos por agricultores locais, e os produtores de alimentos ultraprocessados, feitos para serem consumidos em excesso e que, em alguns casos, viciam”.

arroz feijão comida brasileira

O nosso ritmo de vida não permite cozinhar isso todos os dias

Sobre como o açúcar e outros alimentos processados viciam mais do que cocaína, recomendo assistir esse documentário produzido pelo Grostein Andrade, com entrevista com a chef Paolla Carossella, que comenta sobre a falta de valores associados à comida e como o milho, trigo refinado e açúcar estão em praticamente todos os alimentos disponíveis para a população em geral.

Por conta de tudo isso, não se surpreenda quando ler um ranking como o divulgado em março de 2017 pela Bloomberg, que afirma que os italianos são o povo mais saudável do mundo. Sim, mesmo consumindo todo aquele carboidrato. Para começar, o trigo utilizado lá costuma ser mais saudável, porque a farinha que usa trigo grano duro não é refinada, oferece mais saciedade e tem menor índice glicêmico. Mas não é só isso. Apesar da massa, a Itália é um país que celebra a comida como algo importante na sua cultura. Cozinhar com alimentos frescos, azeite e valorizar a produção tradicional, tem como resultado uma população melhor alimentada e, por isso, mais saudável.

Também não me surpreendeu que, dos 25 países mais saudáveis do mundo – que foram avaliados segundo expectativa de vida, causas de morte, riscos de saúde como pressão arterial, obesidade e malnutrição -, 17 estão na Europa, continente que criou leis importantes para manter a saúde alimentar da população e a valorização dos produtores locais, como as certificações de origem. O Brasil não chega nem nos 50 primeiros.

No nosso país, a relação bastante promíscua entre a grande indústria alimentícia e a política (vamos lembrar que a produtora de carnes de papelão JBS doou 350 milhões de reais a candidatos de diferentes partidos) consegue barrar qualquer campanha no sentido de informar melhor a população sobre os perigos do consumo de açúcar para crianças. O melhor jeito para contornar isso de maneira individual é ficar mais atento às embalagens dos produtos industrializados que você comprar – tem até água engarrafada de grandes empresas que vem com mais sódio, para você sentir mais sede e comprar mais água. E, principalmente, valorizar cada vez mais os produtores locais e alimentos orgânicos E lutar e informar as pessoas que estão à mesa com você.

Sou jornalista, tenho 29 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

12 comentários em Como a alimentação brasileira deixou de ser saudável?

  1. Oi, Luiza, muito interessante o assunto. Comer pão na Europa e depois aqui, em padarias comuns, tira o prazer do café nosso de cada dia, mas a gente vai se acostumando. Triste, mas a gente vai se acostumando… E consumir alimentos mais naturais não é fácil nem de achar nem de pagar. Um quilo de farinha de trigo importada custa R$ 25, enquando a nacional sai por $5, só pra citar um exemplo, segundo me disse uma amiga que estuda gastronomia, ainda hoje, olhe que coincidência.
    Abraços e parabéns pelo artigo.

  2. Excelente matéria Luíza. Estou na Europa ha algum tempo e passei a me alimentar melhor. Estou com 10 quilos a menos. Meus problemas com a diabetes foram controlados e me sinto uma outra pessoa. Descobri novos sabores e me sinto com mais energia. Estou muito feliz por ter mudado meus hábitos alimentares e atingido minha meta de visitar 10 países da Europa viajando sozinha. Um grande abraço de gratidão por ter me incentiva do a cair no mundo. Cu XT

  3. Perfeito, falou tudo. Cansei de ver brasileiro reclamando da comida da Europa que é fabulosa, e sobre o macarrão italiano, la pasta ciutta, ela não leva os quilos de ovos que as massas daqui.Adorei sua matéria, vc sempre bem coerente em tudo 🙂 Aproveita e dá umas dicas de Portugal 🙂 abraços
    Por falar em Portugal, eu não gosto muito dos doces deles, pq leva muito ovo.

  4. amei a reportagem! realmente é uma situação gravíssima e cada um de nós, aqui do Brasil, principalmente, temos que procurar as informações, porque elas são omitidas. em relação à água vc poderia dizer qual empresa que adiciona mais sódio? estou apavorada. bjs 🙂

  5. E é mt mais fácil do que a gente pensa preparar algo saudável e rápido. Morando sozinha aprendi que se tiver cebola, alho, azeite e sal vc pode fazer praticamente qualquer coisa! É só refogar tudo e tá pronto. Vegetais, carne, ovo, feijão, arroz… tudo fica bom.

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