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O agroturismo e a vida nas comunidades rurais do ES

“O agroturismo virou o nosso negócio. Foi o que fez a gente levar o sustento para dentro de casa”. Quem disse isso foi a Bernadete, do Sítio Lorenção, propriedade familiar de Venda Nova do Imigrante, no Espírito Santo. Confesso que foi difícil prestar atenção ao que ela dizia – só consigo escrever esse texto hoje, mais de um mês depois, com ajuda do gravador. A culpa foi das várias iguarias que testávamos enquanto ela falava, com destaque para a pimenta recheada.

O principal produto da casa, no entanto, é outro: o socol, um tipo de presunto cru muito comum nos arredores da cidade. O sítio da família tem papel importante nessa produção. A matriarca, dona Cacilda Lorenção, aprendeu a receita da iguaria com os avós, que saíram da Itália e vieram morar no Brasil, no começo do século 20.

O aperitivo é feito com lombo de porco. Assim que chega ao sítio, a carne é temperada com alho, sal e pimenta. Depois, é colocada numa rede e pendurada numa sala com pouca luz, onde fica por seis meses. “Isso tudo!”, exclama alguém. “É por isso que é tão bom”, respondeu Bernadete.

Fazenda Lourenção

Toda semana, a família produz 500 quilos de socol. “A gente vivia plantando, mas se chovia muito mudava o preço da verdura. Quando nós começamos com o socol isso mudou. Antes, a gente via alguém comprar tomate e ganhar muito dinheiro. Aí a gente enchia a casa de tomate. Moral da história: não vendia nada. Hoje ficou tão bom que nós não temos mais condições de mexer com a roça”, contou Bernadete, enquanto nos empanturrávamos de pimenta recheada.

Os compradores são turistas que passam pelas montanhas capixabas, muitos em busca daquela palavrinha que abriu este texto: agroturismo. Segundo o governo federal, o turismo rural brasileiro começou a se desenvolver na década de 1980, em estados como Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O Ministério do Turismo reconhece a importância da atividade, que promove a diversificação da economia de pequenas cidades e evita a fuga em massa da população rural para as metrópoles.

Leia mais:  As Paneleiras do galpão das Goiabeiras

Socol, agroturismo no ES

Mas o quê exatamente atrai turistas às fazendas? Muitas coisas, desde hospedagem, passeios turísticos, até comprar e presenciar a produção de comidas típicas. Pode acreditar, tem muita gente interessada no assunto. E eles nem estão tão longe assim. “O primeiro turista é o vizinho, algo que nós nunca imaginamos. Quando você abre a fazenda para visitas, a vaca que faz dez litros de leite, mas que ele nunca viu, vira atração. Depois ele traz o amigo dele, que traz outro amigo… Foi assim que a propriedade passou de um turista para mil por semana”, nos contou Leandro Carnielli, representante de outro caso de sucesso do agroturismo capixaba, a fazenda  Carnielli.

A atividade que hoje sustenta a família Carnielli teve o objetivo de impedir o êxodo rural e evitar a monocultura do café. “Nós percebemos que se não mudássemos as fontes de renda e diversificássemos a agricultura, então teria que sair todo mundo daqui”, explicou o Leandro. Enquanto ele falava, nós experimentávamos tira-gostos. De novo. Só que dessa vez foram queijos da fazenda – são dezenas de tipos. Segundo o blog Rotas Capixabas, a fazenda Carnielle abastece muitos supermercados de Vitória.

Quando os Carnielle começaram a transformar o agroturismo em dinheiro, muitos vizinhos (sim, os primeiros turistas) resolveram fazer o mesmo. E o Leandro garante que a família não encarou isso como concorrência. “Turismo é produção associada. Eu faço uma parte e mando para meu vizinho que tem uva, que faz outra parte. Cada um faz, recebe o turista, mantém o meio ambiente e assim fala bem do lugar onde ele mora”, disse.

Agroturismo no Espírito Santo

A ideia se prova verdadeira em Venda Nova do Imigrante. Quando os italianos chegaram, eles compraram antigas fazendas dessa parte do Espírito Santo, locais que tinham sido abandonados após o fim da escravidão. Segundo a Wikipedia, há setenta anos todos os habitantes da vila eram italianos e o português sequer era o idioma oficial por lá. O batismo da cidade – com direito ao “Imigrante” do nome – só veio em 1988, quando o vilarejo foi promovido e virou município.

Com o passar das décadas e a criação da BR-262, que liga Belo Horizonte e Vitória, a cidade cresceu um pouco. Hoje são cerca de 20 mil habitantes.  Mas foi só mesmo com o agroturismo que Venda Nova do Imigrante achou o seu espaço na economia capixaba. Hoje, 80 famílias contribuem com o turismo local. Ou seriam elas as atrações turísticas?

Pimenta recheada

Para quem tem tempo e pode se planejar, uma boa ideia é passar pela cidade durante a Festa da Polenta, que acontece na segunda semana de outubro. Lá você vai encontrar comidas típicas, além de músicas, danças e roupas que lembram um pouco da história dessa comunidade formada pela imigração de italianos. Mas se garantir sua passagem por lá nessa época não for fácil, tente se adaptar. Se sua porta de entrada for o aeroporto de Vitória, saiba que Venda Nova do Imigrante está a 110 quilômetros da capital. Ou  nem precisa sair da BR. O Café da Roça Altoé da Montanha fica na beira da rodovia e está cheio de delícias típicas, inclusive a famosa pizza de polenta. Parar ali é uma forma de testar o agroturismo, mesmo que você nem se dê conta disso.

Serviço:

Café da Roça – Avenida Nova Vitória (BR-262, km 106) – Telefone: 028 9915-9922

Sítio Lourenção – BR-262, km 102 – Telefone: 028 3546-1130

Fazenda Carnielli – Rodovia Pedro Cola, km 4 – Telefone: 028 3546-1272

Este post é o primeiro da série Turismo e Desenvolvimento e teve o apoio da Secretaria de Turismo do Espírito Santo e do Sebrae. 

 

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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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4 comentários sobre o texto “O agroturismo e a vida nas comunidades rurais do ES

  1. Olá, Rafael Sette! É bem interessante esse negócio de fazenda que vira pousada, que promove atrações turísticas, etc. Eu gosto muito da região da Pedra Azul e pesquisando sobre essa região na internet descobri uma fazenda muito rústica, com mata atlântica conservada e que possui camping bem na Rota do Lagarto. Peço licença a você para sugerir esse camping aos interessados. O nome da fazenda é Fazenda Girardi e o nome do Camping, na verdade é mais que um Camping, é Eco Parque Pedra Azul. Estive lá em julho 2015 e fique admirado com a beleza do lugar. Do Camping avistamos um vale, pedras enormes e as inúmeras árvores deixam a fazenda encantadora. Para quem quiser, há uma trilha que se chega às bases da Pedra Azul, mas tem que ser acordado com o proprietário. Valeu muito apena, só por isso deixo a sugestão. Quanto ao seu texto, Rafael, conduz o viajante para o clima que encontrará na região serrana. Parabéns!

    1. Obrigado pela dica, Edvander. Vai ajudar muita gente, não tenho dúvidas.

      Essa região toda é linda. Passei por ela inúmeras vezes, mas poucas vezes fiquei lá mesmo. Na certa tem muito para fazer e descobrir.

      Abraço.

  2. E eu que fui conhecer o famoso socol em Londres? Tenho amigas muito próximas da família Lorenção, e uma delas morou aqui em Londres. Quando o irmão veio visitá-la, trouxe um socol inteiro na mala(não façam isso em casa, crianças). Delícia mesmo. E confirmo que o dom da boa cozinha é de família. Essas minhas amigas são cozinheiras nota mil desde novas! Estou aqui acompanhando e curtindo os posts capixabas 🙂

    1. Oi, Liliana.

      Você é do Espírito Santo?

      Ainda temos muitos posts preparados sobre o estado, vamos fazer aos poucos. =)

      Abraço!

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