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Atlas: Brasil, Portugal

O melhor sono do milionário e as viagens entre Brasil e Portugal

Quando as caravelas de Pedro Álvares Cabral deixaram a Bahia, em 1500, e seguiram seu caminho para a Índia, por aqui ficaram os primeiros imigrantes que o Brasil conheceu. Pelo menos os primeiros na história, digamos, oficial. Foram aqueles degredados trazidos por Cabral — criminosos ou indesejados sociais — que inauguraram um longo, e até hoje contínuo, processo de formação de luso-brasileiros.

Nos séculos seguintes, milhões de portugueses deixaram a Terrinha para tentar a vida no Brasil, enfrentando semanas de viagens transatlânticas perigosas e um futuro incerto. E a quase certeza de que nunca mais veriam as casas e famílias que deixavam para trás. Afinal, cruzar o Atlântico duas vezes, em 1500, não era para qualquer viajante.

Segundo o historiador Vitorino Magalhães Godinho, em 1700 havia cerca de 700 mil imigrantes portugueses no território brasileiro. Isso significa que em seus primeiros duzentos anos, o Brasil Colônia recebeu entre 500 e 3500 portugueses anualmente. Era pouco, mesmo para a época: os portugueses preferiam ganhar a vida na Ásia. Na década de 1530, quase três vezes mais portugueses faziam as malas e iam para as colônias asiáticas do que tentavam a vida no Brasil, segundo dados do livro Brasil, 500 anos de povoamento, do IBGE.

É que o ganha-pão brasileiro envolvia a produção e o comércio de açúcar, um mercado que exigia grandes investimentos. Com isso, portugueses pobres e jovens preferiam sonhos mais alcançáveis. A situação começou a mudar a partir de 1701, época em que cerca de 10 mil portugueses deixavam suas casas todo ano e tentavam a vida no Brasil. Além da concorrência de outras potências nas colônias asiáticas, que dificultou a vida de Portugal no lado oposto do mundo, outra coisa foi fundamental para fazer o fluxo migratório para o Brasil explodir: ouro.

A corrida do ouro exigia muito menos investimentos que o cultivo de cana de açúcar. E prometia mais. Nas décadas seguintes, os portos brasileiros se acostumaram com a figura do português pobre que desembarcava em busca do futuro. Nessa época, uma região portuguesa em especial mandou mais gente para cá que todas as outras juntas: o Minho, no norte de Portugal.

É que ao mesmo tempo que metais preciosos eram descobertos no Brasil, o Minho passava por uma revolução no campo. Foi o começo da produção do milho por lá. Conhecido e consumido há milênios por diversos povos das Américas, o milho só entrou na mesa europeia após as grandes navegações e as conquistas — sementes de milho foram levadas para a corte espanhola por Colombo, já em 1493, após o retorno da expedição ao Novo Mundo.

E o milho tem produtividade muito maior que o trigo, cereal que era mais cultivado em Portugal até então. Com a mudança para o milho, essa região do norte português viu melhorar a alimentação de seus habitantes, com aumento na expectativa de vida. Em outras palavras: logo a população minhota sobrava, enquanto em outros cantos do Reino faltava gente.

Com excesso de mão de obra saudável, jovem e ociosa, a solução foi emigrar. “Viu-se em pouco tempo transplantado meio Portugal a este empório”, escreveu Simão Ferreira Machado, em 1734. A Corrida do Ouro mudou a colônia. A população oficial — conta que não incluía escravos e índios — logo chegou a três milhões de pessoas. Foi o ouro que causou a criação da Capitania de São Paulo e das Minas do Ouro, mais tarde desmembrada em diversos estados, entre eles, óbvio, São Paulo e Minas Gerais.

Também foi a mineração que fez com que a capital brasileira fosse alterada: saiu Salvador, entrou o Rio de Janeiro, que ficava mais perto das minas. O eixo de povoação na colônia alcançava o sudeste, onde fincou raízes — no século 21, mais de 40% da população brasileira vive no sudeste, região que representa apenas 10% do território nacional.

A mineração ainda criou uma classe consumidora no território colonial, o que intensificou ainda mais a imigração. Já não era preciso ganhar a vida apenas nas minas, mas também com o comércio ou mesmo com outras atividades, da medicina até a advocacia. Foi só nessa época que o português se tornou o idioma dominante no território, ocupando uma posição que antes era do tupi-guarani.

Maria Amália Vaz de Carvalho

Tanta gente deixou o Minho ao longo do século 18 que a Coroa Portuguesa, que a princípio incentivou a emigração, logo teve que tentar controlá-la. Ou até mesmo impedi-la. Esse é o contexto dos três contos que fazem parte deste livro da autora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho (1847 – 1921), obra do mês de dezembro do Grandes Viajantes, nosso Clube de Literatura, escrita e viagens. Nascida em Lisboa, Maria Amália escreveu para importantes jornais portugueses e também brasileiros. As três histórias deste livro fizeram originalmente parte de outra obra, Contos e Fantasias, publicada em 1880.

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Além de O Melhor Sono do Milionário, conto que dá nome ao livro do Grandes Viajantes, fazem parte desta edição os contos A Cigana e Tio Sebastião. As três histórias dialogam entre si ao abordarem o trânsito de pessoas entre Brasil e Portugal, que se intensificou ao longo do século 18.

melhor sono do milionário

Todos os contos têm entre os personagens portugueses que emigraram para o Brasil em busca da vida. E que passaram a conviver com as distâncias, a saudade da pátria e de suas famílias. Em uma das histórias, o viajante que retorna para Portugal é tratado dezenas de vezes como brasileiro. O curioso aqui é que o homem era português, mas tinha emigrado para a colônia quando jovem.

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Após a conquista, o termo “brasileiro” passou a ser usado para se referir não a cidadãos do território colonial, mas primeiramente a comerciantes, em especial de pau-brasil, que faziam o transporte de mercadorias entre a Colônia e a Metrópole. Nos séculos seguintes, quando uma população de imigrantes começou a se formar na Colônia, o gentílico passou a ser aplicado a todos os portugueses e seus descendentes que viviam no Brasil.

Alguns desses “brasileiros” enriqueceram no Brasil. Eles mandavam construir grandes mansões em sua terra natal, faziam doações às igrejas ou enviavam dinheiro para ajudar a família que ficou em Portugal. Por isso a fama de milionários. Foi só bem mais tarde, já no Primeiro Reinado, que a palavra brasileiro passou a ser usada para se referir ao povo que vivia aqui. E mesmo assim sem incluir indígenas, que enfrentaram séculos de genocídio, e negros, o grupo mais numeroso na formação do país, e que, ao contrário dos portugueses, não cruzou oceanos para ganhar a vida, mas para perdê-la.

Esperamos que os três contos de Maria Amália Vaz de Carvalho que formam o livro do mês do Grandes Viajantes te transportem para um momento em que as distâncias entre o Velho e o Novo Mundo começavam a diminuir, criando um fluxo de pessoas que, aos poucos, ajudou a formar o que hoje é o Brasil. E também o que é Portugal.

Clube Grandes Viajantes

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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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