Quem é o dono de uma cidade?

Quem é o dono de uma cidade?

O que é e para que serve uma cidade? É provável que você nunca tenha feito essas perguntas, mas, mesmo assim, somos bilhões de pessoas vivendo em cidades que não necessariamente servem a todos que moram nelas. “Uma cidade é para trazer as pessoas juntas, conectá-las”. Foi isso que disse o sociólogo estadunidense Richard Sennett, numa palestra sobre habitação, para o Fórum do Futuro, evento que rolou no Porto na última semana.

A questão de Sennett é bem ampla: ao mesmo tempo em que percebeu a necessidade de que as cidades sejam mais abertas e inclusivas, o padrão de construção de cidades segue uma ideia dos anos 1920, bastante ultrapassada. Ideia essa de um antigo conhecido meu, Le Corbusier. Obviamente, nunca conheci Corbusier, um proeminente arquiteto e planejador urbano francês do início do século 20, mas vivi em uma das cidades planejadas por ele: Chandigarh, na Índia. E foi em Chandigarh que, sem saber nada sobre suas teorias ou como ele criou um conjunto de regras que influencia como as cidades são construídas desde então – a Carta de Atenas -, eu vivi na pele a lógica de uma cidade que tenta seguir o padrão de uma máquina, mas falha miseravelmente.

Cidades abertas sennett Chandigarh

Uma típica avenida em Chandigarh sem espaço para pedestres. Crédito: Shutterstock

Chandigarh foi pensada para que as pessoas se desloquem de carro, façam suas compras, trabalhem e morem em setores específicos. É claro que isso na prática não dá muito certo. É um pesadelo se locomover, dificulta o contato entre as pessoas e não ajuda a criar aquela sensação de pertencimento. Na época, eu achava Chandigarh uma cidade chata. Hoje, entendo que a crítica é muito mais complexa do que isso.

Saiba mais: Chandigarh, uma cidade que parece Brasília, na Índia

“A Carta de Atenas propõe a repetição do impermeável: não há vida nas ruas, são meramente um espaço”, explica Sennett. Concebida em torno de 1933, época marcada pelo fordismo, o objetivo era organizar as cidades: separar as diferentes funções em setores (o residencial, o governamental, o comercial, o de entretenimento), que são conectados por grandes corredores de avenidas e as residências distribuídas em torres semelhantes umas às outras, que poderiam ser espalhadas homogeneamente por toda os espaços. O resultado, tal como Sennett afirma, é a morte das ruas. A descrição te parece familiar? É porque Brasília, nossa capital, cabe perfeitamente nela.

brasilia asa norte

Asa Norte, em Brasília. Linda, verde e sem espaço para pedestres. Crédito: Shutterstock

Além de cidades como Chandigarh ou Brasília, que foram milimetricamente planejadas para ser assim, o processo de desenvolvimento de muitas cidades sul-americanas, asiáticas e africanas acabam reproduzindo esse tipo de conceito como se fosse a forma natural de construção de cidades. “O problema do urbanismo hoje em dia é que as cidades são desenhadas para serem fechadas. Existe uma união estreita entre forma e função em como as pessoas vivem as cidades”, explica Sennett. O exemplo prático disso é como em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou qualquer outra grande cidade brasileira existe a lógica da separação entre um grande centro comercial, grandes torres residenciais e avenidas enormes que cortam as cidades e dividem espaços entre ricos e pobres.

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Fronteiras entre ricos e pobres em São Paulo. Crédito: Shutterstock

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O aeroporto da Pampulha em Belo Horizonte marcando as diferenças sociais na região.
Crédito: João Marco Rosa – CC BY 3.0 br

Essas fronteiras claras, mas de certa forma invisíveis, Sennett chama de falta de porosidade (tente entender a porosidade como uma esponja, que absorve e troca com o ambiente e a falta dela como um objeto sólido). Ele fala de uma cidade aberta, mais porosa, onde essas fronteiras se dissolvam, se cruzem, que tenham “formas incompletas que as pessoas possam preencher os espaços a sua maneira”. Foi isso que ele, junto com os sociólogos Saskia Sassen e Ricky Burdett, propuseram ao escrever os Quito Papers, uma série de documentos, que ainda não foram publicados, mas que foram apresentados pela primeira vez no Habitat III, um congresso sobre moradia, urbanismo e sustentabilidade, que ocorre a cada 20 anos, na ONU.

Para Sassen, professora da Universidade de Columbia, um dos grandes problemas da Carta de Atenas é que ela promove o setor privado e a prevalência do mercado. Porém, é preciso “proteger o espaço publico como algo que pertence ao publico”. Uma forma de tentar reverter isso é investir e promover os pequenos comércios, nas redes de economias locais, de forma que não faça sentido para as pessoas comprarem um café de uma multinacional, por exemplo. “Quem é o dono de uma cidade?”, pergunta a socióloga. Segundo ela, temos que reverter as leis e as regras criadas pelos governos que nos trouxeram ao lugar de desequilíbrio em que chegamos hoje, negando os espaços a certos grupos sociais.

Os Quito Papers consideram que o local público por natureza são as ruas. É necessário, segundos os sociólogos, que elas de fato sejam um espaço de encontro, de inclusão, de trocas. “Um ambiente que não é imposto, mas feito pelas pessoas”. Um exemplo de sucesso, segundo Sennett, vem de um lugar que muitas pessoas considerariam o caos. Nehru Place, em Nova Delhi, é um local onde comerciantes informais e formais, empresas de tecnologia de ponta e transeuntes se encontram. Interativo, poroso e informal. Tudo o que o Le Corbusier queria que desaparecesse e que os estudos de Sennett e companhia querem valorizar.

Nehru Place Nova Delhi

Nehru Place, em Nova Delhi. Crédito: Adam Geitgey – CC BY-SA 4.0

Ao contrário da Carta de Atenas, que falava em destruir favelas e construir grandes torres no lugar, Sennett, Sassen e Burdett entendem que, em vez de destruir a existência social e as redes econômicas, o ideal seria que os governos e os estudiosos interagissem com o informal, com as estruturas improvisadas e as práticas que já existem para buscar soluções para as complexidades dos centros urbanos. Uma cidade bem planejada, diz Burdett, “não significa uma cidade instantaneamente perfeita, mas providenciar infraestrutura para uma cidade bagunçada e progressiva”.

Sou jornalista, tenho 29 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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