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E se o mundo fosse outro? Uma crônica sobre a história contrafactual

Não fossem os acontecimentos de um certo dia 28 de outubro e aquela igreja cristã na sua esquina poderia ser o templo de um deus romano. Isso, claro se você, sua casa e até a esquina em questão existissem, o que é altamente improvável nesse cenário. Explico. 

Em outubro de 312 d.C, o Império Romano estava em guerra civil. De um lado, Constantino; do outro, Magêncio. Dois imperadores que lutavam pela mesma coroa. No dia 28 daquele mês, na Ponte Mílvia, em Roma, Constantino venceu os exércitos de seu oponente, que morreu afogado nas águas do Rio Tibre.

A vitória de Constantino foi fundamental para que o cristianismo, uma religião crescente, mas ainda minoritária, se tornasse a fé estatal. Foi também Constantino o patrocinador e presidente do Concílio de Niceia, que estabeleceu as bases que até hoje são adotadas pela maior parte das religiões cristãs – incluindo a resolução para a grande polêmica da fé que se estabelecia: Jesus era somente um filho perfeito de Deus, ou ele mesmo era divino? Foi em Niceia que a divindade de Jesus saiu vencedora, e foi Constantino quem bancou Niceia… 

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Constantinopla, hoje Istambul, foi criada pelo Imperador, a quem homenageou por séculos com seu nome. De certa forma, a cidade que se encontra na junção entre Ásia e Europa nasceu por conta do que aconteceu na Ponte Mílvia, que por sinal existe até hoje. Se passar por Roma, cruze a ponte sabendo de sua importância. 

Ponte Mílvia, em Roma, com seus arcos de pedra

Foto:  Livioandronico2013, Wikimedia Commons

É natural que a gente, hora ou outra, pare para pensar em cada “e se” da vida, embora o mais comum seja focar em nossos próprios caminhos. “E se eu tivesse outra profissão? Se tivesse estudado em outro colégio, conhecido outras pessoas e feito outras escolhas?”. Mas se nesses casos as respostas afetam pouco o mundo como um todo, é quando a lógica do “e se” é levada para grandes acontecimentos da História que a coisa fica louca, digo, interessante. 

Há até um nome para isso, acredite ou não: é a história contrafactual. Ou, nas palavras da Wikipédia, “o resultado de um exercício mental, partindo de uma premissa para explorar – na base de fatos históricos ocorridos – as possíveis mudanças na história”. Uma futurologia às avessas, que vira e mexe inspira os três tipos de pessoas mais criativas que há por aí: escritores, roteiristas e desequilibrados em geral. 

Foi o caso do escritor Niall Ferguson, que em 1998 publicou o livro O Horror da Guerra. E especulou que se o Reino Unido não tivesse entrado na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha teria vencido. E, como consequência, Hitler e os nazistas não teriam tido espaço anos depois e a Segunda Guerra Mundial nunca teria acontecido. Na mesma linha, o livro E Se, de Robert Cowley, pergunta, entre outras coisas: e se Jesus tivesse sido perdoado, não crucificado? E se Hitler tivesse conseguido invadir a Inglaterra? 

Seguindo nessa direção, dá para especular sobre os mais diversos fatos históricos, quase sempre resultando numa relação para efeito borboleta nenhum reclamar: e se os estados do sul tivessem vencido a guerra civil norte-americana? (os Estados Unidos não seriam um país só). E se Napoleão não tivesse sido derrotado? (hoje o idioma mundial seria o francês). 

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Ponte Latina

E quando o assunto é especulação histórica, outra ponte é campeã nas teorias malucas. É a Ponte Latina, em Saravejo, onde o Arquiduque Francisco Ferdinando foi assassinado, em 1914, marcando o começo da Primeira Guerra Mundial. E se, digamos, Ferdinando estivesse em outro lugar naquele dia, como seria o mundo hoje? Teríamos evitado duas grandes guerras, milhões de mortes, o holocausto e mudado a formação geopolítica atual? A Revolução Russa teria acontecido? Ou, estando todos já armados e a morte de Ferdinando sendo só um estopim, será que a guerra ocorreria de qualquer forma? 

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De todas as teorias de história contrafactual que já passaram pela minha cabeça, a que mais gosto surgiu esses dias, enquanto eu lia o livro O País da Canela, do colombiano William Ospina. Nele, o escritor narra a conquista de Cuzco, que tinha dezenas de milhares de soldados, por apenas duzentos espanhóis.

Aproveitando-se de uma guerra civil no Império Inca, eles enganaram e sequestraram seu rei, exigiram um resgate gigantesco e depois destruíram a coisa toda. E se os incas não tivessem sido derrotados, e, ao invés de brigarem entre si, tivessem dominado aquele punhado de forasteiros? Me peguei imaginando a Cuzco original ainda de pé. E em incas conquistando os barcos dos espanhóis e indo tirar satisfações com os reis europeus, numa inversão que faria o Novo Mundo descobrir o Velho. 

Eu sei, você já deve estar achando que tudo isso não passa de bobagem e exagero sem sentido – e é mesmo. Mas uma bobagem que acabou criando, em mim ao menos, outro tipo de turismo – o por lugares de uma “História que não aconteceu”. Roma que me espere. Esqueça o Coliseu, tenho uma ponte para visitar. 


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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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