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A viagem de Darwin no Brasil e como o país ajudou na Teoria da Evolução

Quando o HMS Beagle partiu da Inglaterra, em 27 de dezembro de 1831, em uma viagem ao redor do mundo que duraria cinco anos, levava à bordo um jovem naturalista de 22 anos. Uma das primeiras paradas do roteiro trouxe Charles Darwin ao Brasil – e o que ele viu no país acabou se tornando um ponto crucial para que, mais tarde, ele elaborasse a teoria que mudaria a humanidade para sempre.

Considerada a mais revolucionária das teorias científicas, a Teoria da Evolução foi lançada pela primeira vez em 1859, no livro A Origem das Espécies. A publicação foi responsável por causar uma ruptura entre ciência e religião, ao estabelecer que todas as espécies evoluem a partir de mutações aleatórias e da seleção natural dos mais bem adaptados. Sendo assim, o ser humano teria a mesma origem de todos os outros seres vivos e descenderia de um ancestral comum aos macacos.

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Charles Darwin no Brasil

A teoria de Darwin se opunha à ideia predominante na época de que a humanidade teria sido criada à imagem e semelhança de Deus e que seria divida por raças: o cientista foi um dos primeiros a afirmar que todos os seres humanos compartilhavam a mesma linhagem sanguínea.

A viagem de Charles Darwin à bordo do HSM Beagle

Comandado pelo capitão Fitz-Roy, o HMS Beagle partiu da Inglaterra em uma expedição que, a principio, não deveria durar mais que dois anos, mas acabou durando quase cinco. O navio ganhou os mares à serviço da Marinha Britânica, com o objetivo de fazer um levantamento cartográfico da costa da América do Sul.

Para tanto, o governo britânico pediu ao professor John Stevens Henslow, da Universidade de Cambridge, a indicação de um naturalista que pudesse embarcar na viagem com a missão de coletar e registrar suas observações sobre a fauna, flora e geologia dos lugares visitados. O professor escolheu Darwin por ter idade próxima ao do capitão e, por isso, pensou que seriam boas companhias um para o outro.

Darwin no Brasil - HMS Beagle

Em 1837 HMS Beagle zarpando para um levantamento na Austrália, pintado em 1841, por Owen Stanley.

Darwin já era apaixonado por História Natural e estudava o tema como hobbie, mas foi essa viagem que o tornou uma referência no assunto. Em sua autobiografia, publicada em 1887, o cientista escreveu que a viagem do Beagle foi, de longe, o acontecimento mais importante de sua vida: “As maravilhas dos trópicos erguem-se hoje em minha lembrança de maneira mais vívida do que qualquer outra coisa”.

Durante o período, Darwin catalogou mais de 5,4 mil peças, entre fósseis e espécimes preservados. O material era enviado para seus professores na Inglaterra, que se encarregavam de distribuí-lo entre os principais pesquisadores e especialistas no assunto.

A rota de Darwin ao redor do mundo

A primeira parada do HSM Beagle foi em Cabo Verde. De lá, o navio seguiu para São Pedro e São Paulo, um arquipélago brasileiro localizado a 1000 quilômetros de Natal. Em seguida, pararam em Fernando de Noronha, e por fim, na Bahia, onde desembarcou em 29 de fevereiro de 1832.

O Beagle ainda fez outra parada no Brasil, dessa vez no Rio de Janeiro, onde a tripulação permaneceu por alguns meses. Depois, seguiu para Montevidéu, Malvinas, e então contornou o cone sul, para depois parar em Valparaíso (Chile), Callao (Lima, no Peru) e Galápagos, onde se despediu do continente.

O navio seguiu rumo ao leste e chegou a Sidney, Hobart (Tasmânia, Austrália), King George Sound (Sul da Austrália), Ilhas Cocos (um território da Austrália no Oceano Índico), Ilhas Maurício e Cape Town (África do Sul), retornando, por fim, à Bahia e de lá ao Reino Unido, passando antes pelas Ilhas Canárias e os Açores.

Darwin no Brasil

Ao desembarcar no Brasil, Charles Darwin se viu num mundo completamente novo. O cientista ficou deslumbrado com a exuberância e a diversidade da floresta tropical e se desfez em elogios à natureza local, chegando a descrevê-la como “luxuriante” e “um caos do deleite”.

Em seus 18 dias na capital baiana, ele se embrenhou pela mata para coletar amostras de insetos, flores e até de um lagarto. Foi ali também que ele experienciou sua primeira tempestade tropical e o carnaval brasileiro. Mais tarde, dedicou 10 páginas de seu livro Viagens de um naturalista ao redor do mundo, a essa passagem.

Salvador durante a visita de Darwin ao Brasil

“O impacto da passagem de Darwin pelo Brasil não foi pequeno e motivou a pergunta ‘de onde vem a diversidade?’”, afirmou Ildeu Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ao DW. Foi também em Salvador que Darwin observou uma mosca injetar seus ovos em uma lagarta viva, para que as larvas se alimentassem das entranhas. Em suas anotações, ele se perguntou se um “Deus Bom” teria realmente idealizado essas dinâmicas cruéis de sobrevivência entre suas criaturas.

No Rio de Janeiro, no entanto, sua relação com o país mudou de forma amarga. Ali ele permaneceu por quatro meses e, como um crítico ferrenho da escravidão, ele viu de perto cenas de abuso e violência contra negros, caiu na lentidão da burocracia e ficou desgostoso com a corrupção e a falta de modos dos brasileiros, a quem ele reservou adjetivos como “indolentes” e “covardes”.

Rio durante a visita de Darwin ao Brasil

Ele dedicou muitas páginas descrevendo a crueldade praticada contra pessoas escravizadas e algumas das cenas lhe causaram profundo impacto. Estudiosos de sua obra afirmam que a crença na igualdade entre os seres humanos foi uma das sementes da Teoria da Evolução. Neto de abolicionistas, ele era bastante sensível ao tema e chegou se irritar com Fitz-Roy durante suas conversas, fato que quase o levou a voltar para casa mais cedo.

Em sua travessia pelo norte fluminense, Darwin deparou-se também com os horrores da escravidão. Dois episódios lhe marcaram profundamente. Um deles aconteceu na Fazenda Itaocaia, em Maricá, a 60 km do Rio, no dia 8 de abril, quando um grupo de caçadores saiu no encalço de alguns escravos. A certa altura, os foragidos se viram encurralados em um precipício.

Uma escrava, de certa idade, preferiu atirar-se no abismo a ser capturada pelo capitão do mato. “Praticado por uma matrona romana, esse ato seria interpretado como amor à liberdade”, relatou Darwin. “Mas, vindo de uma negra pobre, disseram que tudo não passou de um gesto bruto”.

O outro episódio ocorreu na Fazenda Sossego, em Conceição de Macabu, no dia 18. Um capataz ameaçou separar 30 famílias de escravos e, em seguida, vendê-los separadamente como forma de punição. Darwin ficou tão indignado com a cena que a descreveu como “infame”. — Reportagem da BBC News

Apesar da má impressão, o próprio cientista reconhece a importância da viagem para a teoria que ele desenvolveria futuramente. Darwin chegou a escrever que “a perspectiva de florestas selvagens zeladas por lindas aves, macacos e preguiças fará um naturalista lamber o pó da sola dos pés de um brasileiro”. “Delícia, no entanto, é um termo vago para exprimir os sentimentos de um naturalista que, pela primeira vez, se viu perambulando por uma floresta brasileira”, disse ele em outra ocasião.

Charles Darwin precisou voltar ao país no final de sua viagem, tendo parado em Salvador e Recife antes de seguir rumo à Inglaterra. Ao deixar o país, sua sensação era de alívio: “Espero nunca mais visitar um país de escravos”.

Projeto Caminhos de Darwin

200 anos depois da passagem do naturalista pelo Brasil, é possível refazer seus passos e ver de perto algumas das maravilhas que ajudaram na criação da Teoria da Evolução. Em 2009, em comemoração aos 200 anos de seu nascimento, o Departamento de Geologia da UFRJ criou o circuito Caminhos de Darwin, marcado com 12 placas e painéis com informações sobre sua passagem e a geografia local.

O trajeto parte do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e passa por Niterói, Maricá, Saquarema, Araruama, São Pedro da Aldeia, Cabo Frio, Casimiro de Abreu, Macaé, Conceição de Macabu, Rio Bonito e Itaboraí. Em cada município está fixado um marco histórico com o mapa e uma citação retirada do diário de Darwin.

Elaborada, a principio, como um roteiro para professores e adolescentes do Ensino Médio, o Caminhos de Darwin no país também é uma boa opção de trajeto para quem se interessa por turismo científico, histórico e natural. O trajeto soma 240 quilômetros, percorridos por Darwin à cavalo ao longo de 16 dias, mas que pode facilmente se transformar em um roteiro de 4 dias de carro.

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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter inconstante, a Vírgulas Rebeldes, na qual publico crônicas e contos . Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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