A incrível história de Luzia e dos povos de Lagoa Santa

Enquanto um 737 pousava a poucos metros dali, percorríamos uma trilha até a tumba mais antiga do Brasil. Tentávamos alcançar o Monumento Natural Lapa Vermelha, um conjunto de grutas que fica a menos de dois quilômetros da pista do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins. Foi num daqueles abrigos – a Lapa Vermelha 4 – que foram encontrados os ossos mais famosos do Brasil pré-histórico. Estávamos em busca do túmulo de Luzia.

Os paredões da Lapa Vermelha 4 ainda guardam as inscrições, em francês, da missão franco-brasileira que escavou o local, nos anos 1970. No chão, se espalham cinzas de antigas fogueiras feitas pelo homem, restos de uma história vivida há milhares de anos. “A Luzia virou um ícone da pré-história brasileira”, me explicou, pelo telefone, Walter Neves, pesquisador do Instituto de Biociências da USP. “Hoje, todos os livros de escola secundária tem a Luzia e minhas hipóteses”, completa ele, sem esconder o orgulho.

A fama da Luzia vem da sua idade – segundo o pesquisador, são 13 mil anos bem morridos, um recorde quando o assunto envolve ossos humanos no continente. E esse não foi a único esqueleto da região a sair da pré-história diretamente para os livros de História. Em Lagoa Santa, Pedro Leopoldo, Matozinhos e outras cidades das redondezas foram escavados pelo menos 300 esqueletos pré-históricos, outro número impressionante para a arqueologia.

“Para o meu estudo específico, que é da Morfologia Craniana, a gente conta com uns 80 esqueletos. A América do Norte inteira tem meia dúzia de crânios medíveis desse período. Então, Lagoa Santa traz pra nós um fossil power muito grande. Não é possível estudar os primeiros americanos sem passar por Lagoa Santa”.

Walter Neves – Arqueólogo e bioantropólogo da USP

Para falar de Luzia e dos antigos Povos de Lagoa Santa é preciso voltar um pouquinho no tempo – época de outro personagem importante nessa história, um certo naturalista dinamarquês.

Jornalista e arqueólogo observação a Lapa Vermelha 4, onde Luzia foi encontrada

Eu e o arqueólogo Leandro Viera, na Lapa Vermelha 4, onde Luzia foi encontrada (Foto: Fellipe Abreu)

Peter Lund e as primeiras escavações em Lagoa Santa

O Brasil ainda se acostumava com a Independência quando Peter Lund desembarcou no Rio de Janeiro, em 1825. O jovem cientista dinamarquês passou quatro anos estudando plantas e animais brasileiros, patrocinado pelo Museu Real de Copenhague. Após um breve retorno ao Velho Mundo, Lund fez as malas novamente e se mudou de forma definitiva para o Brasil.

Ele viveu até os 79 anos em Lagoa Santa, onde morreu e foi enterrado num pequeno cemitério que tinha mandado construir. Hoje, seus ossos descansam debaixo de um pequizeiro, árvore típica do cerrado. E de ossos Peter Lund entendia bem. Em Minas Gerais, ele catalogou mais de 800 sítios paleontológicos e encontrou 12 mil ossos de mamíferos. Entre eles estavam restos de animais extintos da chamada megafauna – seres grandes e pré-históricos que viveram no final do Pleistoceno, a famosa Era do Gelo. Eram tigres dentes-de-sabre, preguiças gigantes e gliptodontes, parentes dos tatus, mas só um pouquinho maiores: eles podiam ser tão grandes quanto um carro popular.

Mas foi na Gruta do Sumidouro, um local frequentemente alagado, que Lund descobriu algo que balançou o mundo científico da época. No mesmo lugar e misturados a ossos de animais da megafauna estavam os restos de 30 seres humanos. Depois de analisar o terreno com cuidado e verificar que muitos dos fósseis estavam nas mesmas camadas de terra, Lund sugeriu que homens e animais da megafauna teriam coexistido.

Este texto faz parte do Origens BR, um projeto do 360meridianos que vai investigar a história – e a pré-história – do Brasil. Do período imediatamente anterior ao desembarque dos conquistadores até milhares de anos atrás. O Origens BR conta com o patrocínio da Seguros Promo e da Passagens Promo, empresas que tornaram essa investigação possível.

Gruta no Parque Estadual Cerca Grande

Abrigo, ou gruta, no Parque Estadual Cerca Grande (Foto: Fellipe Abreu)

Essa hipótese contrariava o que se acreditava até então e colocava em dúvida a teoria do criacionismo catastrofista, segundo a qual a Terra passou por vários momentos de extinção em massa e os seres humanos teriam surgido após o desaparecimento dessas espécies. O próprio Lund, que era luterano, teria tido problemas em lidar com suas descobertas. Especula-se que esse tenha sido o motivo para o cientista interromper repentinamente suas escavações, em 1843, embora existam evidências de que a interrupção foi por questões financeiras.

Além da teoria envolvendo a megafauna, Lund analisou os restos humanos dos antigos povos de Lagoa Santa e afirmou que os crânios tinham traços diferentes dos encontrados nos povos nativos que viviam no Brasil. A partir disso, ele sugeriu que o ser humano poderia ter se originado nas Américas e daqui seguido para os outros continentes.

Se essa teoria estava equivocada – na realidade, o caminho foi o oposto – chama atenção a quantidade de acertos do dinamarquês. Em A Origem das Espécies, Charles Darwin cita a “admirável coleção de ossadas fósseis recolhidas nas cavernas do Brasil por Lund “, que impressionaram o pesquisador britânico e foram importantes para a formulação de sua teoria. A maior parte dos fósseis encontrados por Lund estão num museu da Dinamarca, que patrocinava seus estudos.

esqueleto em posição fetal, acervo do museu do castelinho

Esqueleto de 10 mil anos, enterrado em posição fetal. Faz parte do acervo do Museu do Castelinho. (Foto: Fellipe Abreu)

Os anos 1970 e o despertar de Luzia

Lagoa Santa continuou no centro do estudo pré-histórico brasileiro mesmo após a morte de Peter Lund, transformado no patrono da paleontologia nacional. Em 1955, os arqueólogos Wesley Hurt e Oldemar Blasi escavaram sete sítios em Cerca Grande, que fica em Matozinhos, cidade vizinha. Ali, um lindo paredão, com pelo menos 500 pinturas rupestres, deixa claro que se trata de um local habitado há muito tempo. Lund já tinha descrito a área:

“O rochedo dos índios será sempre um lugar clássico para o naturalista viajante, em vista da extraordinária raridade de monumentos comemorativos dos selvagens do Brasil”.

Peter Lund

Quando os resultados de testes radiocarbônicos feitos por Hurt e Blasi foram divulgados, nova surpresa: eles tinham encontrado sinais de presença humana de até 10 mil anos. “A datação feita aqui em Cerca Grande, por meio das amostras retiradas dos sítios, demonstrou a grande antiguidade da região. Porque até então acreditava-se que a ocupação humana na América era por volta de 6 mil anos. E a datação de 10 mil anos recolocou Lagoa Santa na discussão da pré-história do nosso continente”, explica Leandro Vieira da Silva, arqueólogo do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais.

pinturas no parque estadual cerca grande

Pinturas no Parque Estadual Cerca Grande

A fama de Lagoa Santa continuou atraindo arqueólogos de todo o mundo – e foi nesse momento que desembarcou por ali Annette Laming-Emperaire, a responsável por retirar Luzia de seu sono milenar. Nascida em Petrogrado, atual São Petersburgo, Emperaire viveu e estudou na França e escavou sítios em toda a América do Sul. “Ela foi uma das personalidades estrangeiras que formaram a primeira geração de arqueólogos brasileiros”, me disse o francês André Prous, hoje professor aposentado da UFMG.

Prous, que vive em Belo Horizonte, foi doutorando de Emperaire e participou da missão franco-brasileira em Lapa Vermelha 4, como assistente da arqueóloga. Ele também destaca a importância de Lagoa Santa para o estudo da pré-história brasileira e explica por que são encontrados tantos ossos humanos antigos nessa região. “Aqui existe o ambiente particularmente propício para a preservação de resquícios ósseos, o que é muito raro. Normalmente, o que é preservado são instrumentos de pedras, ossos desaparecem logo. Em Minas Gerais, as grutas, particularmente calcárias, preservam bem os ossos, tanto esqueletos humanos como animais”, explica ele.

Além do tipo de solo, a existência de uma grande população na área, há cerca de 10 mil anos, e com o costume de enterrar seus mortos em grutas são fatores para a preservação de tantos esqueletos. Se os rituais funerários dos povos de Lagoa Santa fossem em locais abertos, então dificilmente a arqueologia teria encontrado tantas tumbas.

inscrições brancas na terra vermelha. Em francês, foram feitas na expedição que escavou Luzia

Em francês, inscrição na Lapa Vermelha 4, da época da missão liderada por Emperaire (Foto: Fellipe Abreu)

Só que Luzia não foi enterrada de acordo com os rituais da época. “Ela ou foi depositada numa fenda natural, no fundo do abrigo, ou caiu lá e se acidentou. E como ela não foi enterrada e o corpo ficou exposto na superfície, na medida em que foi apodrecendo, esses ossos foram sendo espalhados, mas no mesmo nível. No caso do crânio, ele, por ser arredondado, rola com maior facilidade. E ele rolou e caiu num buraco, cerca de um metro abaixo do resto do esqueleto”, explica Walter Neves.

Foram esses ossos que a equipe de Emperaire descobriu, em 1974. O que havia de diferente para os outros fósseis humanos encontrados em Lagoa Santa? A antiguidade. Por falta de colágeno nos restos da mulher, não foi possível determinar diretamente há quantos milênios Luzia dormia, por meio de testes radiocarbônicos. Para isso, foram usadas técnicas de estratigrafia, em que a idade é determinada pela camada de terra em que os restos estavam depositados. E o resultado empurrava para trás a data de vestígios humanos no Brasil: 13 mil anos. Vale dizer ainda que, por conta das características do terreno e dos restos de Luzia estarem espalhados em diferentes camadas de terra (e de tempo), alguns especialistas defendem que a mulher pode ser um pouquinho mais jovem.

Em todo caso, logo Luzia voltou a dormir. É que Annette Emperaire morreu repentinamente durante uma viagem, em 1977 – ela foi vítima de um vazamento de gás num hotel de Curitiba.  O crânio da mulher de Lapa Vermelha 4 foi para os arquivos do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, onde podia ser visto apenas por cientistas. Tirando as pesquisas de Emperaire e as revisões do próprio André Prous, pouco se falou de Luzia nas décadas seguintes. Até que ela virou um símbolo brasileiro – e ganhou seu nome e o rosto atuais.

3 cervídeos vermelhos em pinturas rupestres

Pinturas no Parque Estadual Cerca Grande

A chegada do ser humano nas Américas

É nesse ponto da história que entra Walter Neves, o arqueólogo que acabou ficando conhecido como o “pai” de Luzia, mesmo não tendo participado da escavação que descobriu o esqueleto de Lapa Vermelha 4. Foi ele quem sugeriu o nome que deixou a moça famosa – o apelido foi inspirado em Lucy, fóssil de 3,5 milhões de anos encontrado na Etiópia, em 1974.

Mas além de dar um nome brazuca para o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, Walter Neves propôs uma nova teoria para a ocupação humana nas Américas: o modelo de dois componentes biológicos. Após uma viagem para Copenhague, onde mediu os crânios encontrados por Peter Lund, Neves percebeu algo que o dinamarquês já tinha apontado. É que os traços dos povos de Lagoa Santa eram diferentes dos encontrados nos nativos americanos da época de Cabral.

O ser humano surgiu na África, há cerca de 200 mil anos, e há 100 mil começou a se espalhar pelo planeta. Com o passar dos milênios (e dos climas), foi ocorrendo a raciação, um processo relativamente recente e que foi alterando a aparência das pessoas – há 10 mil anos os europeus ainda tinham os traços dos primeiros africanos, que seriam mais ou menos parecidos, pensando nos povos que existem hoje em dia, com os nativos australianos.

pintura rupestre preta, de um animal

Pintura rupestre que virou símbolo do Parque Estadual Cerca Grande (Foto: Fellipe Abreu)

Segundo uma das teorias mais tradicionais para explicar o povoamento das Américas, a migração do homem para o continente teria ocorrido a partir do Estreito de Bering, faixa d’água que liga a Rússia aos Estados Unidos e que congelou na Era do Gelo, permitindo a passagem por terra. Por essa teoria, todos os nativos americanos descenderiam desses primeiros humanos, os verdadeiros descobridores da América.

Percebeu o problema dos esqueletos de Lagoa Santa terem morfologia diferente da dos nativos americanos? Pois é! Para explicar isso, o Walter Neves diz que, além da migração de seres já com morfologia mongoloide, que é a aparência dos índios em geral, milênios antes teria ocorrido outra migração, também pelo Estreiro de Bering, essa de um grupo parecido com os primeiros africanos – é o que ele chama de morfologia generalizada.

pinturas rupestres em paredão

Pinturas rupestres em Matozinhos (Foto: Fellipe Abreu) 

“O que aconteceu é que o homem com morfologia generalizada (ainda com os traços dos primeiros africanos) também entrou na América. Eu estimo que isso deve ter acontecido por volta de 16 mil anos. Parte dessa população que entrou pelo Estreito de Bering ficou lá, na Sibéria. E ali ocorreu um processo de raciação que deu origem aos povos asiáticos atuais e que a gente chama de mongoloides. Então, depois de entrar a leva com a morfologia generaliza, entraram também os povos com morfologia mongoloide. E foram estes povos que deram origem à esmagadora maioria dos índios que a gente conhece nas Américas. É por isso que o meu modelo é chamado de dois dois componentes biológicos principais. Você teria essas duas levas, morfologias. Eu estimo que a segunda deve ter entrado na América há 12 mil anos”.

Walter Neves – Arqueólogo e bioantropólogo da USP

Foi a partir dessa teoria que o antropólogo britânico Richard Neave fez uma reconstituição do rosto de Luzia, em 1999. E a imagem era de uma mulher negra. A representação correu o mundo e colocou, de uma vez por todas, a moça no imaginário nacional. Luzia, a primeira brasileira de que se tem notícia, entrou para as páginas de jornais e livros e sua imagem passou a ser reconhecida em todos os cantos do país. A aparência, claro, é apenas uma possibilidade, mas baseada em fatos, como me explicou André Prous:

“Quando se pede para que um especialista reconstitua a cara de uma pessoa a partir de um esqueleto, ele vai perguntar para você se aquela pessoa está mais ligada a populações asiáticas, europeias ou africanas. E ele vai começar com isso. Em função disso vai dizer a espessura dos lábios, a forma do olho. E aí se trata de uma interpretação, de uma hipótese, e não de ‘a ciência diz’. Muitos leigos acham que uma vez que a gente propõe uma reconstituição baseada numa hipótese, uma hipótese razoável, porque está baseada nas características dos ossos, que é então uma realidade. Mas não é, é uma possibilidade, dentro das possíveis a partir dos dados esqueletais”.

André Prous, arqueólogo da UFMG

reconstituição de luzia que era exposta no museu nacional

Reconstituição de Luzia que ficava em exibição no Museu Nacional (Foto: Dornicke, Wikimedia Commons)

E chegam os exames de DNA

O sucesso de Luzia estimulou a continuidade das pesquisas. Mais de 50 sepultamentos foram escavados na Lapa do Santo, incluindo os restos mais antigos já encontrados de uma pessoa decapitada. Os pesquisadores também localizaram a mais antiga gravura em pedra das Américas, com pelo menos 10.500 anos. E era um nude. Apelidado por Walter Neves de taradinho, a figura mostra um homem de pênis ereto e estava perto de desenhos de mulheres grávidas, o que pode indicar que se tratava de um painel com cenas de fertilidade.

Nos sepultamentos da Lapa do Santo, os pesquisadores encontraram evidências dos complexos rituais funerários dos povos da região. “O homem de Lagoa Santa tinha uma obsessão em manipular os corpos. Alguns ossos eram descarnados, outros eram pintados”, explicou Leandro Viera, arqueólogo do IEF, enquanto nos mostrava um sepultamento que faz parte do acervo do Parque do Sumidouro.

Na última década, as escavações na região de Lagoa Santa foram assumidas por André Strauss, arqueólogo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Ele, que foi aluno de Walter Neves, deu início a pesquisas pioneiras no Brasil, com análise de DNA antigo. Embora o DNA de Luzia nunca tenha sido extraído, a equipe de Strauss analisou o material de 12 indivíduos. E uma nova surpresa.

O DNA desses grupos indica que eles eram majoritariamente os ancestrais dos nativos americanos. Com isso, a ideia de que tinha uma conexão profunda com os aborígenes australianos (que tem morfologia parecida com os primeiros africanos) não parece se sustentar. Mas são resultados preliminares, foi o primeiro estudo de DNA fóssil do Brasil. Naturalmente que ao longo dos próximos anos a gente vai conferir se é isso mesmo, conseguir mais dados.

André Strauss, arqueólogo da USP

É por isso que em 2018 saíram notícias de que, no final das contas, Luzia não era negra, mas tinha a mesma aparência dos índios. Só há (mais um) porém: “em um indivíduo foi encontrado um sinal, da ordem de 3%, com populações austro-asiáticas, das ilhas Andaman, da Nova Guiné, da Austrália”, conta Strauss.

Ninguém sabe o que isso quer dizer, de onde vem, se é um sinal verdadeiro ou não. É um sinal muito estranho, então realmente a gente não tem ideia. Mas mesmo que esse sinal represente uma espécie de ancestralidade não nativa, a presença em tão baixa frequência em Lagoa Santa mostra que, se existiu uma população anterior aos antigos povos americanos, a população não era a de Lagoa Santa.

André Strauss, arqueólogo da USP

Achou complicado? Fica mais! Na Serra da Capivara, a arqueóloga Niède Guidon afirma ter encontrado sinais de presença humana bem mais antigos. Ela também propõe outro caminho de migração, diretamente da África para as Américas. As teorias dela são contestadas por outros pesquisadores. Conheça essa história aqui.

crânios de Lagoa Santa

Acervo do Museu do Castelinho, em Lagoa Santa, atualmente fechado ao público (Foto: Fellipe Abreu)

Em busca de um Museu

13 mil anos depois de bater as botas, Luzia pegou fogo. Junto com todo o acervo do Museu Nacional, o crânio mais antigo do Brasil foi engolido pelo incêndio que destruiu o prédio histórico, em 2018.  Ali estavam também cerca de 2/3 de tudo que já foi escavado da região de Lagoa Santa.

Semanas após a tragédia, o Museu Nacional anunciou ter recuperado parte dos restos de Luzia. “Parece que sobraram alguns fragmentos. Mas, pelo que vi por fotografia, eu acho difícil que o crânio seja reconstituído a partir deles. E a Luzia estava num armário de metal, mais bem protegida. Eles tinham restos de pelo menos mais uns 200 esqueletos de Lagoa Santa. E isso estava tudo em caixas de madeira e plástico. Imagino que esse material foi todo destruído”, lamenta Walter Neves, que na época do incêndio disse que aquilo era uma “tragédia anunciada” e que teríamos que “prestar contas para a humanidade”.

Para saber mais: O Brasil Antes dos Brasileiros, de André Prous. Editora Zahar.
O Povo de Luzia, de Walter Alves Neves e Luís Beethoven Piló. Editora Globo.

O restante do material encontrado em Lagoa Santa está dividido: há a coleção de Peter Lund, na Dinamarca. No Brasil, a maior parte do acervo está na USP, instituição que faz escavações na área desde os anos 2000; e vários esqueletos estão no Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, em Belo Horizonte. Há ainda alguns itens espalhados por museus da grande BH e no Parque Estadual do Sumidouro.

formação rochosa e céu azul no parque estadual cerca grande

Parque Estadual Cerca Grande, em Matozinhos (Foto: Fellipe Abreu)

“É extremamente decepcionante”, diz André Prous. Referenciado por alguns de seus colegas como o mais erudito arqueólogo brasileiro, ele tentou, por décadas, criar um museu que contasse a história do homem de Lagoa Santa.

“Faltou interesse. Alguém tem que pagar para fazer alguma coisa. Parece que agora começou a despertar na região de Lagoa Santa, de Pedro Leopoldo, um certo interesse, por causa do turismo. O pessoal espera que o turismo seja um jeito de sobreviver, sobretudo considerando que a exploração de calcário da mineração, que era o que fazia viver essas regiões, está prestes a terminar. Tem que achar outra opção. Mas não sei se eles estão dispostos ou se vão conseguir financiamento para fazer uma coisa bem feita, de nível internacional”.
André Prous, arqueólogo da UFMG
Walter Neves compartilha o sentimento de Prous. “Seria fundamental que houvesse na região um grande museu sobre o Povo de Luzia. Mas infelizmente os políticos locais estão muito aquém do patrimônio que esses municípios geraram. E que ainda têm, pois muita coisa pode ser escavada.

Para visitar: na rota dos Povos de Lagoa Santa

Visitamos, para produção dessa reportagem, quatro sítios arqueológicos na região metropolitana de Belo Horizonte – uma hora de estrada separa o centro da capital mineira dos antigos povos de Lagoa Santa. Mas boa parte dos sítios não é aberta ao público.

paredão com pinturas rupestres no Parque do Sumidouro

Paredão com pinturas rupestres no Parque do Sumidouro (Foto: Fellipe Abreu)

  • Parque Estadual do Sumidouro – Terceira Unidade de Conservação mais visitada do estado, preserva 150 sítios arqueológicos e dezenas de grutas, entre elas a da Lapinha, que é belíssima (vale muito a visita, embora ali não existam resquícios pré-históricos). O Museu Peter Lund, sede do parque, guarda um pequeno acervo. Já o Museu do Castelinho era uma rica coleção particular que agora será parcialmente controlada pelo Parque, que planeja reorganizá-la para visitação. No Sumidouro há um deck de madeira que permite a observação de pinturas rupestres (foto acima), mas que está fechado. “É necessário o parecer de um geólogo ou engenheiro civil para avaliar as condições do local, que é vulnerável ao calor, umidade e até mesmo a ruídos”, diz o Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. O Sumidouro fica entre Lagoa Santa e Pedro Leopoldo. Informações aqui.
  • Cento de Arqueologia Annette Laming Emperaire – O espaço é pequeno, mas a visita é interessante. Fica no centro de Lagoa Santa (Av. Acdo. Nilo Figueiredo, 62). Funciona de segunda a sexta, de 12h às 18h.
  • Cemitério Peter Lund, que o naturalista mandou construir para ele e alguns amigos, todos protestantes e que por isso mesmo não poderiam dormir eternamente em túmulos católicos. Ainda tem um pequizeiro do tempo de Lund. Fica em Lagoa Santa, na Rua Caiçara, mas nem sempre está aberto para visitação.
  • Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG – Com o incêndio do Museu Nacional, guarda um dos maiores acervos em exibição sobre o Homem de Lagoa Santa. Fica na Rua Gustavo da Silveira, 1035, bairro Santa Inês, em Belo Horizonte. Funciona de quarta a domingo, das 10h às 16h. Site Oficial.
  • Museu de Ciências Naturais da PUC – Tem um andar sobre a História Natural de Minas Gerais, com destaque para Lund, a megafauna e Luzia. Fica na Rua Dom José Gaspar, 290, bairro Coração Eucarístico, em BH. Funciona de terça a sábado, de 9h às 17. Site oficial.

paredões da gruta da lapinha, em Lagoa Santa

Gruta da Lapinha (Foto: Fellipe Abreu)

Também visitamos o Parque Estadual de Cerca Grande, em Matozinhos, que tem um paredão belíssimo e com centenas de pinturas rupestres. Na mesma cidade fica o Monumento Natural Vargem da Pedra, com mais desenhos. Já o Monumento Natural de Lapa Vermelha, onde Luzia foi encontrada, fica entre Lagoa Santa e Pedro Leopoldo. Todos os locais são unidades de conservação, mas não abrem para o público em geral – apenas para pesquisadores, estudantes da área e jornalistas. “Para a abertura dos sítios arqueológicos é preciso analisar as potencialidades e as limitações de cada um, para avaliar se é viável a visitação pública. Em caso positivo, é preciso estruturar o sítio para a visitação pública para evitar impactos sobre o registro arqueológico”, diz, em nota o Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos.

A Lapa do Santo, onde nas últimas décadas foram encontrados dezenas de esqueletos pré-históricos, continua recebendo pesquisas e escavações, mas é um terreno particular. E há muitas outras pinturas rupestres e abrigos na região, boa parte em áreas particulares.

O Governo de Minas prepara um projeto Chamado Rota Lund, que envolverá as principais unidades de conservação da área: o Monumento Natural Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas, o Monumento Natural Peter Lund (a Gruta de Maquiné), em Cordisburgo, e o Parque Estadual do Sumidouro. 

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12 comentários sobre o texto “A incrível história de Luzia e dos povos de Lagoa Santa

  1. ‘Tentávamos alcançar o Monumento Natural Lapa Vermelha, um conjunto de grutas que fica a menos de dois quilômetros da pista do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins.”
    Bom dia ,
    A frase esta correta falto a localização pois , o Monumento Natural Lapa Vermelha , está no município de Pedro Leopoldo MG.
    Por gentileza corrijam !!!

  2. Sou evangélico e para mim as origens da humanidade pode sim ir além de 6.000 anos, Deus não erra mas o bonde mais sim, a Bíblia Sagrada por séculos foi repassada a outros por fatos oral, com a invenção da escrita aí sim, foi Moisés quem escreveu os primeiros livros da nossa abençoada Bíblia, eu creio em Deus como o criador supremo e universal, mas 6000 anos em história da humanidade pra mim é muito pouco. Só pra lembrar que o tempo de Deus não é o tempo dos homens, prata Deus o tempo jamais passa, por isto ele é O Eterno.

  3. As Origens da humanidade mal chegam há seis mil e poucos anos,segundo a Bíblia que é palavra do Criador da humanidade!Peço desculpas contrariando as opiniões do artigo.Acrescento:Deus não mente e não pode mentir.Convido os leitores a pesquisarem suas Bíblias e quem não tiver uma pode baixar gratuitamente no site:JW.ORG

    1. Não precisa pedir desculpas por dar seu ponto de vista, Miecislau. 🙂

      É sua crença, sua fé, e você tem todo o direito de tê-la e de falar sobre isso.

      Abraço e obrigado pelo comentário.

  4. Que incrível vocês falarem sobre a Luzia e Lagoa Santa! Principalmente depois do incêndio do Museu Nacional, se torna mais importante divulgar a existência e a importância desses fósseis, e do trabalho científico das nossas universidades, tão pouco valorizados! Muito bem explicado, e obrigada por ter contactado os investigadores por trás, assim deu pra “matar a saudade” do professor Walter Neves, com quem tive aulas em 2007, meu professor favorito da USP e o mais didático de todos, estimulando debates e o pensamento crítico entre os alunos!

    1. Que ótimo seu comentário, Jacqueline! É mesmo muito importante valorizarmos o trabalho e a pesquisa das universidades.

      Abraço!

    1. Obrigado, Pamela! Fica de olho, porque tem muita coisa vindo ainda! Nosso projeto está só começando, vamos visitar muitos sítios arqueológicos e contar várias histórias desse tipo!

      Abraço.

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