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Tristes Trópicos: viagem a um Brasil esquecido

Lévi-Strauss odeia as viagens e os viajantes. No primeiro capítulo de seu livro Tristes Trópicos, narra que adiou colocar seus relatos de viagem no papel por sentir uma espécie de vergonha e asco sempre que pensava em fazê-lo. Ainda assim, o que segue nas páginas desse clássico absoluto da antropologia é uma narrativa apurada e impactante das expedições que empreendeu o etnólogo nos rincões mais remotos do Brasil e, anos depois, na Índia e Paquistão.  

O paradoxo, no entanto, se esclarece nas páginas que se seguem. Não é sem melancolia que Strauss se lembra dos trabalhos etnográficos que realizou no interior do Brasil entre os anos de 1935 e 1938, com as tribos Caduveo, Bororo, Nanbikwara e Tupi-Kawahib, quando ainda era apenas um jovem acadêmico em formação.

A tristeza dos trópicos, indicada no título do livro, parece ser a constatação da vulnerabilidade das sociedades que um dia foram seu objeto de estudo. Com uma população que chegava aos milhares há poucos séculos, os grupos indígenas estavam reduzidos a apenas algumas dezenas de indivíduos no momento da visita do autor, desolados pela fome, doenças levadas pelos brancos e pela destruição de seu modo de vida, cada vez mais ameaçados pela modernidade e pelos interesses econômicos disfarçados de progresso que não tardariam a chegar. 

Lévi-Strauss era consciente de que o mundo começou sem o homem e terminará sem ele. Todos os mitos, estilos, línguas e costumes são construções sociais efêmeras que não são mais que ferramentas que permitem ao ser humano desempenhar seu papel no planeta. Não existe um humano em estado natural, pois o homem não é nem anterior nem exterior à sociedade, surge junto a ela. Todas as sociedades são, ao mesmo tempo, ferozes e benévolas, boas e más, imperfeitas e injustas, e sempre apresentam vantagens a seus membros. Por isso, não há como hierarquizá-las sem cair em uma análise etnocêntrica e fechada em preconceitos da nossa própria bagagem cultural.  

Tristes Trópicos - Resenha

A melancolia presente no relato, no entanto, não nubla suas observações sobre essas sociedades, que nos proporcionam um rico panorama da complexidade e diversidade cultural desses povos, muitas vezes reduzidos a um grupo uniforme e tratados como primitivos ou selvagens.

É surpreendente que, acostumados com as narrativas dominantes que conferem um estereótipo romantizado e infantil das populações indígenas, a gente descubra a postura orgulhosa do povo Caduveu, por exemplo, que intimidava até mesmo portugueses a ponto de conceder-lhes o título de “Don” e “Dona”. Conta Strauss que algumas senhoras Caduveo se negaram a encontrar a esposa do vice-rei de Portugal por considerarem que somente a rainha estaria a sua altura. 

Através dessas memórias, cheias de detalhes minuciosos, Lévi-Strauss nos mostra as intricadas formas de organização social adotadas pelas diferentes tribos, sua espiritualidade, mitos e costumes pouco conhecidos além das fronteiras amazônicas e do cerrado, oferecendo-nos um estudo sem precedentes de um Brasil que é distante e invisível até mesmo para os próprios brasileiros.

Os relatos do livro misturam literatura, ciência e filosofia, algo que dá ao ensaio um caráter único. Suas reflexões sobre a humanidade, o posicionamento da cultura europeia como referência padrão e sobre o etnocentrismo, por sua vez, fizeram com que essa obra seja considerada uma das mais importantes obras das ciências humanas do século 20. O livro é um calhamaço de 800 páginas. Mas se você se interessa por antropologia, é uma leitura obrigatória.  

O que podemos aprender com Tristes Trópicos?

A busca pela autenticidade nas viagens é uma mentira

É fácil para um viajante, em qualquer momento, deparar-se com o sentimento de que chegou tarde demais a um destino. É como se, caso pudéssemos voltar no tempo, nos fosse possível salvar um costume, uma festa, uma crença que acabou se perdendo. Sobre o tema, Strauss diz: “Gostaria de ter vivido no tempo das verdadeiras viagens, quando um espetáculo ainda não estragado, contaminado e maldito se oferecia em todo o seu esplendor”.

Ele reconhece, no entanto, a ilusão que marca esse tipo de pensamento. As sociedades estão em constante mudança e se influenciam mutuamente. Esse processo, natural e contínuo, ainda que possa comprometer a autenticidade que esperamos encontrar quando visitamos um povo distante, também nos torna mais aptos a apreciar a diversidade e enriquecer nossa percepção por meio de textos, informações e curiosidades compiladas pelos que passaram por ali antes de nós. “Quanto menores eram as possibilidades das culturas humanas comunicarem-se entre si e, portanto, corromperem-se pelo contato mútuo, menos capazes eram seus respectivos emissários de perceber a riqueza e a significação dessa diversidade”. 

Permita-se a imersão cultural

A viagem etnográfica pressupõe uma aproximação à cultura visitada, com o fim de compreender melhor os costumas e tradições. Como fez Lévi-Strauss, é preciso chegar perto daquilo que queremos entender, das pessoas locais, falar com elas, observar suas atividades rotineiras e rituais, e, se possível, participando delas também. 

Observar os valores e costumes da sociedade visitada e buscar entendê-los em seu contexto histórico e cultural

Devemos nos distanciar de nossos preconceitos e buscar uma interpretação mais objetiva da sociedade visitada, evitando fazer juízos de valor que podem levar a interpretações equivocadas. Pensar nos costumes alheios como ferozes ou bizarros pode ser uma saída simples, mas essa análise não vai resistir a uma observação mais profunda e sua apreciação dentro de uma perspectiva mais ampla.

Como exemplo, Strauss cita a antropofagia, ou o famoso canibalismo, que costuma despertar o mais profundo horror e nojo para nós. No entanto, quando apresentamos nosso sistema prisional ao membros dessas sociedades que consideramos primitivas, eles têm uma reação bastante parecida a nossa. Para eles, isso sim é um sistema cruel e desumano. “Se um observador de uma sociedade considerasse certos usos que nos são próprios, a ele pareceriam da mesma natureza que essa antropofagia que nos parece tão estranha à civilização”. 

Fotos: Reprodução


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Natália Becattini

Já chamei muito lugar de casa, mas é pra Belo Horizonte que eu sempre volto. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Além do 360, mantenho uma newsletter sobre o a vida, o universo e tudo mais, que eu chamo de Vírgulas Rebeldes. Vira e mexe eu também estou procrastinando lá no instagram @natybecattini e no twitter.

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4 comentários sobre o texto “Tristes Trópicos: viagem a um Brasil esquecido

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