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Viagem ao redor do meu quarto, a curiosa expedição de Xavier de Maistre

“A infelicidade de um homem começa com a incapacidade de estar a sós, consigo mesmo, num quarto”. É com essa frase, do filósofo francês Pascal, que Alain de Botton abre o último capítulo de seu livro “The Art of Travel”. O final do livro fala sobre hábitos, usando como personagem uma figura que não poderia representar melhor o momento em que vivemos: Xavier de Maistre, um oficial francês de 27 anos que, em 1790, ficou preso num quarto, por seis semanas.

E foi assim que ele ficou famoso por criar uma nova modalidade de turismo: a viagem pelo quarto.

“Viagem ao redor do meu quarto” e sua continuação, o livro “Expedição noturna ao redor do meu quarto”, narram as andanças de uma pessoa presa num único ambiente. Xavier faz uma paródia das grandes jornadas que seus contemporâneos escreviam – como Cook, Banks e Solander -, mostrando que mesmo com pouco espaço, a imaginação pode viajar livremente.

Logo no capítulo de abertura, de Maistre convida: “Todo homem sensato, tenho certeza, irá adotar meu sistema. Quaisquer que sejam suas características peculiares ou temperamento. Seja ele miserável ou pródigo, rico ou pobre, jovem ou velho, nascido numa zona tórrida ou próximo aos polos, ele poderá viajar comigo. Entre a imensa família de homens que lotam a terra, não há um, não, nenhum (quero dizer, daqueles que habitam salas), que, depois de ler este livro, pode recusar sua aprovação do novo modo de viajar que apresento ao mundo”.

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Retrato de Xavier de Maistre (1763-1852)

Ao longo dos 42 curtos capítulos, o francês descreve sua cama, seus livros e suas gavetas. Também fala de seus quadros, suas relações com o criado e sua cachorra, faz reflexões filosóficas sobre a vida, relembra histórias do passado. Tudo com o bom humor e a ironia de quem não pode sair de casa. “O mais preguiçoso dos seres não vai ter mais nenhuma razão para hesitar antes de partir em busca de prazeres que não vão lhes custar dinheiro ou esforço”.

Por que sua jornada dura exatamente 42 dias? Ele conta aos leitores que nem ele mesmo sabe responder a essa pergunta. A verdade é que Xavier de Maistre encontra-se em prisão domiciliar em Turim, no norte da Itália, por causa de sua participação num duelo. O livro acabou tornando-se um grande sucesso, que influenciou até mesmo Machado de Assis, que o menciona na abertura de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Quer viajar pelo quarto ou pela casa como Xavier? Ele deixa dicas sobre os rumos de sua jornada: “quando viajo pelo meu quarto, raramente fico em linha reta. Da minha mesa, vou em direção a uma foto colocada em um canto; daí parto numa direção oblíqua para a porta; e então, embora, ao iniciar, pretendesse retornar à minha mesa, ainda assim, se por acaso caísse com minha poltrona no caminho, imediatamente, e sem a menor cerimônia, assento-me nela. A propósito, que artigo de mobília importante uma poltrona é e, acima de tudo, quão conveniente para um homem pensativo.”

Viagem ao redor do meu quarto livro xavier de maistre

Capa do livro da edição Grund, de 1935 ©Gusman/Leemage

Ele também reflete sobre os pequenos prazeres em seu espaço fechado:

“Ao lado da minha poltrona, quando vamos para o norte, minha cama aparece. É colocada no final do meu quarto e forma a perspectiva mais agradável. Está muito agradavelmente situada, e os primeiros raios de sol brincam nas minhas cortinas. Em bons dias de verão, vejo-os rastejando, à medida que o sol nasce, por toda a parede embranquecida. As árvores em frente às minhas janelas os dividem em milhares de padrões que dançam na minha cama e, refletindo sua cor rosa e branco, exibem um tom encantador. Ouço os pios confusos das andorinhas que tomaram posse do meu telhado e o barulho dos pássaros que povoam os ulmeiros. Então, mil fantasias sorridentes enchem minha alma; e em todo o universo nenhum ser desfruta de um despertar tão agradável, tão pacífico quanto o meu.”

Por que também não viajamos pelos nossos quartos?

As reflexões de Bolton sobre o trabalho de Xavier de Maistre são sobre como o prazer que sentimos ao viajar depende mais da mentalidade do que o destino para o qual vamos. “Receptivos, nós abordamos novos lugares com humildade. Nos portamos sem ideias rígidas sobre o que é e o que não é interessante. Nós irritamos os locais porque paramos o trânsito ou em ruas estreitas e admiramos o que eles consideram pequenos detalhes indignos de nota”.

É muito fácil deixar de apreciar o que é comum e familiar. Segundo o autor da Arte de Viajar, após nos habituarmos a um lugar, nos tornamos cegos aos seus atrativos. Caímos no hábito de considerar chato um universo perfeitamente alinhado às nossas expectativas.

Quantas vezes, lhe pergunto, você já não admirou durante uma viagem algo que na sua própria cidade considera irrelevante? Quantas vezes tentou passear pelo seu próprio bairro com o mesmo olhar inocente e curioso que tem como turista numa cidade estrangeira? E alguma vez já tentou olhar para a sua própria casa com o mesmo olhar de admiração e prazer que sente em um hotel num local desconhecido, rever os cantinhos e momentos prazerosos que o lar te traz?

“Dos confins de seu próprio quarto, Xavier de Maistre estava gentilmente cutucando-nos a tentar, antes de decolar para hemisférios distantes, perceber o que já vimos”, finaliza Botton. 

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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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