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Atlas: Papantla de Olarte, México

Voadores de Papantla: dança mágica para salvar o mundo

O som da flauta de madeira que se espalha do pátio da igreja por toda a praça de Papantla de Olarte, no estado mexicano de Veracruz, anuncia que mais uma dança está para começar. Miguel Ángelo, um jovem voador de 17 anos, sobe os degraus do mastro de 30 metros fixado em frente à Catedral. Lá do alto, ele vê tudo: as minúsculas pessoas sentadas nos bancos da praça, o vendedor de tamales, as serras que se fecham como um anel ao redor da cidade.

Atrás dele, os outros quatro voadores que fazem parte de seu grupo também alcançam o topo e tomam seus lugares no alto do poste. A melodia da flauta não para em nenhum momento. É com a linguagem da música que eles se comunicam com os deuses para pedir que o ciclo da vida não se rompa. Depois de pedir permissão a cada um dos pontos cardeais, que também representam os quatro elementos da Terra, os jovens se lançam ao vazio, seguros apenas por uma corda presa à extremidade do mastro. Voam. E Miguel sente o ar correr pelo rosto e um sentimento de liberdade que não se compara a nenhum outro.

Dança dos Voadores de Papantla - Mexico

Eles se aproximam do solo lentamente, girando ao redor do poste que simboliza a conexão entre o céu e a terra, o eixo central de todo o universo. Logo, os homens-pássaro tocam o chão e voltam a caminhar como humanos. Assim termina mais uma Dança dos Voadores de Papantla, uma acrobacia mágica que veio para salvar o mundo.

O povo totonaca, que historicamente habita o estado de Veracruz e as serras de Puebla, afirma que essa é a dança ritual mais antiga ainda praticada em todo o planeta e que foi criada por eles como uma forma de garantir os ciclos de fertilidade da terra. A sentença, no entanto, carece de comprovação histórica.

Estima-se que tenha surgido por volta do ano 600 a.C., mas ninguém sabe ao certo quem foram os primeiros a lançar-se ao vento. O que se sabe é que a tradição surgiu entre os povos originários mesoamericanos – provavelmente entre os nahuas, huastecos e otomis – e se espalhou até a Nicarágua. Não importa. Os totonacas podem até não ter sido os primeiros ou os únicos a voar, mas são os que fizeram do ritual parte indissociável de sua cultura, folclore e identidade.

Dança dos Voadores de Papantla - Mexico

Uma dança pela chuva…

De acordo com a lenda, há muitos e muitos anos, o mundo passava por uma grave seca que matou as plantações. A humanidade estava morrendo e não havia o que comer nem o que beber. Um noite, um sacerdote sonhou com os deuses, que lhe disseram que ele deveria encontrar um manancial escondido na floresta e ele saberia como trazer a chuva de volta. Ao chegar ao manancial, viu os deuses refletidos na água. Eles disseram: “Dancem, e nós observaremos”.

Tradicionalmente, o ritual dos voadores começava com a escolha da árvore, que deveria ser a mais alta da floresta. Para cortá-la, era preciso pedir permissão e desculpa aos deuses e fazer oferendas em troca da árvore. Hoje, no entanto, a maior parte dos mastros utilizados na dança são de ferro, por questão de segurança.

Dança dos Voadores de Papantla - Mexico

Durante a dança, os voadores sempre usam o traje típico, formado por uma calça vermelha, uma camisa branca, um lenço bordado em volta do peito e um chapéu que representa pássaros da região. Os enfeites coloridos simbolizam o arco-íris e o sol. Ao voar, cada um dos participantes adota uma posição de pernas diferente, representando as várias formas com as quais a chuva cai sobre a Terra. “É porque a chuva nunca é a mesma em todas as partes do mundo”, explica Miguel. Os totonacas acreditam que, durante a dança, os voadores se conectam aos deuses e ao universo e levam à Terra as sementes da vida e da fertilidade do campo.

… e pela sobrevivência

O primeiro voo de Miguel Ángelo foi aos sete anos, por influência do avô, que também o ensinou os passos de outras danças típicas do Totonacapan, como é chamada a região habitada pelos totonacas desde tempos pré-coloniais. Hoje, ele é o líder de seu grupo de voadores e ocupa o papel do sacerdote, responsável por falar com os deuses e com os quatro elementos. Para ele, nada se compara à alegria de voar: “Não sinto nenhum medo quando estou lá em cima. Só sinto o meu sangue totonaca correr em minhas veias”.

Mas jovens como Miguel não são a regra. A tradição, que costumava ser passada de pais para filhos, luta para sobreviver no mundo moderno e globalizado que muda muito rápido. “Já perdemos muito da simbologia e do ritual da dança dos voadores. Vejo os laços com nossos valores enfraquecerem cada vez mais”, conta Maestro Epifanio, um velho professor totonaca que luta para preservar a cultura e língua de seu povo na comunidade de Papantla. “Muitos jovens não se interessam pelas culturas tradicionais, consideram algo ultrapassado. Ao caso dos voadores ainda se soma o fato de que é uma atividade que envolve certo risco”.

Dança dos Voadores de Papantla - Mexico

Em 2009, a UNESCO classificou a Dança dos Voadores de Papantla como Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade. Essa foi a segunda manifestação cultural mexicana a entrar na lista, depois das celebrações dos Dia dos Mortos. Apesar disso, a tradição recebe pouco ou nenhum apoio do governo federal para continuar existindo. “Não existem políticas publicas para a preservação dos voadores. A única ajuda financeira que os voadores recebem são as contribuições voluntárias dos espectadores”, conta Maestro Epifanio. E essa não é uma atividade barata, ainda mais em uma comunidade indígena. Só a roupa tradicional é toda manufaturada e pode custar entre cinco e oito mil pesos (entre R$ 1000 e R$ 1500). Para se tornar um voador profissional, é necessário praticar por entre 10 e 12 anos, e os totonacas consideram a atividade uma vocação de vida.

Como um tentativa de manter a tradição viva, quatro escolas de meninos voadores foram criadas ao redor de Papantla. Uma delas funciona no Parque Temático de Takilhsukut, um espaço totalmente dedicado à preservação da cultura totonaca. Todos os sábados, cerca de 60 crianças a partir de seis anos dão seus primeiros voos sob a supervisão de 12 professores, cada um encarregado de um aspecto do voo e de manter a segurança dos pequenos voadores. Eles aprendem a tocar a flauta, executar os passos da dança com precisão e a vestir corretamente o traje típico.

No passado, mulheres eram tradicionalmente vetadas de participar da dança de voadores porque se acreditava que a energia feminina no mastro desequilibraria a masculina e traria mais insegurança ao voo. Hoje, no entanto, as escolas de voadores abrem sua porta para meninas que desejam aprender a atividade, em especial as que estão localizadas na região da serra, e alguns grupos de voadores profissionais já começam a aparecer em encontros organizados pela Organização de Voadores Tutunakú. Porque em Totonacapan se entende que é preciso mudar para acompanhar o mundo, mas sem nunca perder a essência de quem somos e de nossas tradições.

Onde ver a Dança dos Voadores de Papantla

Na Cidade do México, voadores se apresentam várias vezes ao dia em frente ao Museu de Antropologia. Já na região de Papantla o ritual acontece na praça principal da cidade e na Zona Arqueológica do Tajín. Quem passa por Puebla pode ver os voadores no Centro Histórico de Cuetzalan, um povoado pra lá de místico localizado entre as montanhas.

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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter inconstante, a Vírgulas Rebeldes, na qual publico crônicas e contos . Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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4 comentários sobre o texto “Voadores de Papantla: dança mágica para salvar o mundo

    1. hahaha as primeiras vezes que eu vi me dava um agonia desse povo descendo pendurado de cabeça pra baixo! E, para falar a verdade, acidentes acontecem, sim…

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