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A luta de Mandela

Quando eu conheci Bonolo, ela enfrentava um dilema comum a muitos jovens da sua idade: não conseguia se decidir sobre qual universidade estudar. Aos 18 anos, a menina negra que morou comigo na África do Sul era a filha mais nova de uma família de cinco irmãos e parte da primeira geração a ter acesso ao ensino superior. Bonolo havia se saído bem nas seleções e foi aprovada em duas prestigiadas instituições do país. Suas dúvidas, no entanto, iam muito além da fama, das disciplinas e dos professores que cada uma das universidades oferecia.

A Universidade de Stellenbosch seria a primeira escolha, não fosse um fato incômodo: até os anos 1980, a instituição era exclusiva para brancos. Apenas no final da década seguinte os dormitórios deixaram de ser separados por raça. Hoje, a direção da Universidade luta para combater esse longo passado de discriminação. Cerca de um terço dos estudantes que atualmente frequentam o campus são negros, mas para se tornar um verdadeiro centro de promoção da igualdade – como toda universidade pública deveria ser – é preciso vencer muitos obstáculos. Entre eles, a resistência dos estudantes brancos que tentam, com todas as garras, manter seu antigo território, se opondo, inclusive, à integração dos dormitórios. “Nós não somos bem vindos por lá”, explicou Bonolo quando eu questionei sobre suas dúvidas.

Bonolo falava quatro línguas: inglês, zulu, soto e africâner, a língua dos imigrantes holandeses. A última ela aprendeu na escola em que estudou, onde era a única negra. Ela achava que tinha pouco a ver com o apartheid, afinal, o regime segregacionista terminara quando ela tinha apenas dois anos. Mas um dia voltou chorando da aula e raspou a cabeça porque ouviu seus colegas dizerem que suas madeixas pareciam estar sempre sujas. Mesmo passando por isso, ela não conseguia entender como seu povo havia se submetido a tanta humilhação por tanto tempo.

“Não existe mais racismo na África do Sul”. Foi o que afirmou Peter, o guia africâner que me levou para conhecer o Cape Point. Ele mesmo dizia não ser racista: quando criança, seu melhor amigo era negro. Peter dizia não ter nada contra os negros, mas achava que eles estavam criando no país um apartheid ao contrário. “Agora os negros estão cheios de privilégios, têm até cotas para entrar em times e seleções esportivas. Isso é tão estúpido! Eles não precisam dessas cotas, já são melhores que os brancos de qualquer forma, podem entrar pelos próprios méritos”, ele afirmava. A história da Copa do Mundo de Rugby de 1995 e da seleção sul-africana- há menos de 20 anos -, retratada no filme Invictus, de Clint Eastwood, mostra que a lógica de Peter não funciona em um mundo onde as pessoas recebem tratamento diferenciado dependendo de seus traços físicos.

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Invictus (2009) Foto: Reprodução

Viajar só vale a pena quando a gente aprende algo, se torna uma pessoa melhor. Deus me livre atravessar um oceano e voltar como a mesma pessoa que partiu. A África do Sul foi o meu primeiro confronto com uma cultura diferente, a primeira vez que eu tive que lidar com o temido choque cultural. E ele me pegou justamente nesse ponto. No Brasil, o racismo é velado. Nós não falamos sobre isso, não gostamos de admitir que ele existe. O racismo é tipo um elefante que fica sentado no meio da sala e todo mundo passa por ele e finge que não vê. Na África do Sul, o elefante dança Kizomba e espirra água na sua cara.

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A nitidez com que o racismo existente lá foi jogado na minha frente fez com que eu enxergasse melhor as nuances e sutilezas com as quais ele é reproduzido na nossa sociedade, me levando a questionar, ainda mais do que antes, a nossa falsa democracia racial. É claro, essas diferenças têm muito a ver com a história dos dois países. Embora no Brasil a relação entre cor de pele e classe social seja clara, o processo de miscigenação adicionou dezenas de tons à paleta racial. Na África do Sul, ou se é louro dos olhos claros e rico, ou se é negro e pobre. Há também aqueles que são chamados de “coloured”, imigrantes e descendentes de árabes, indianos e qualquer outra etnia não-europeia e não-negra, além de alguns poucos pardos. São, no entanto, uma minoria pouco lembrada nessa equação social, embora também vítima de preconceito.

O racismo e a desigualdade não terminam quando alguém assina um papel que diz que todos são cidadãos iguais e têm os mesmos direitos. “Direito” pode se tornar um conceito abstrato, uma mera virtualidade, quando não são criadas condições de acesso a ele. Não importa se estamos falando do fim da escravidão ou do apartheid: você não pode simplesmente colocar na constituição que todos são iguais e se esquecer das décadas ou séculos de discriminação e abuso, assim como das profundas desigualdades estruturais criadas por eles. Isso não muda da noite para o dia e tampouco com o poder mágico de uma canetada.

Me apaixonei pela África do Sul, talvez por ter conseguido ver tanto de Brasil lá. Fiquei encantada por suas praias e belezas naturais, mas também me apaixonei por sua história, seu povo e seu principal líder. Mandela foi um dos maiores heróis do nosso tempo, mas ainda há muito a ser feito. É nosso dever manter sua luta viva.

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Nelson Mandela (Foto:South Africa The Good News/Wikimedia Commons)

Por ser estreita a senda – eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

Parte do poema de William Ernest Henley que Nelson Mandela costumava ler todos os dias durante o tempo que passou na prisão.

Foto destacada: Taro Taylor/SXC.hu

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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter pessoal sobre viagens, nomadismo e escrita criativa,, a Migraciones, na qual publico crônicas das minhas andanças pelo mundo. Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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16 comentários sobre o texto “A luta de Mandela

  1. Gostei bastante da reflexão.
    Eu tenho preocupações como as da Bonolo,minha irmã tem.
    Sendo brasileiras que vivem no Brasil e temos tais preocupações.
    Será que minha sobrinha será tratada com despeito na escola,por causa da cor?
    Eu vou ser tratada com despeito por causa do meu cabelo?
    Sem falar nas preocupações por sermos mulheres.
    A tal cultura de culpabilização da vítima que nos faz sentir insatisfeitas com nossos cabelos crespos e a falta de conscientização da população que faz com que os alcozes façam tudo sem remorso enquanto a vitima carrega todo peso nas costas.
    Será que sou eu,ou minha irmã que merecemos carregar o peso das preocupações por sermos negras(tia e mãe de negra),por sermos mulheres, por não termos o cabelo que as revistas apontam como o cabelo perfeito?
    Minha grande alegria como tia é que atualmente estamos sendo inundados por ondas de conscientização e espero que minha sobrinha não sofra tanto com o racismo velado como eu sofri e ainda sofro.
    Bom que com o passar dos anos a resistência aumenta,Bonono encarando a universidade racista lá,eu e meu Black Power aqui,Viola Davis falando abertamente acolá…
    Vamos lutando e resistindo,né!

    1. Natália, obrigada por compartilhar sua experiência. É sempre bom ouvir quem lida diariamente com essa opressão. E sim, aos pouquinhos avançamos para um mundo melhor! 🙂

  2. Oi Natália amei suas reflexões, mas, permita-me te ‘provocar’, se fosse para você fazer as mesmas reflexões, mas, com os contextos histórico-social-cultural do Brasil, qual seria na sua concepção um ‘herói’ brasileiro contra o racismo e a escravidão por aqui?
    Abraço.

    1. Ei Valéria, o primeiro nome que me vêm à cabeça é o Zumbi, mas é difícil fazer essa comparação, porque a história negra no Brasil tem sido constantemente apagada e diminuida. É só a gente pensar que quem entrou para a história como heroina da abolição foi uma princesa branca e que a luta e resistência dos escravos aqui quase não aparece nos livros de história. Mas devolvo a pergunta, qual seria o herói brasileiro para vc?

      1. É bem isso mesmo que você pontuou. Quanto ao Zumbi, de fato é o mais lembrado, e eu incluo na lista Teresa de Benguela, creio que não há relatos dela nos livros de histórias. Ela foi uma lider quilombola em um Quilombo aqui na cidade de Vila Bela da Ss. Trindade, Mato Grosso. E sua história é muito importante…
        Abr.

  3. “No Brasil, o racismo é velado. Nós não falamos sobre isso, não gostamos de admitir que ele existe. O racismo é tipo um elefante que fica sentado no meio da sala e todo mundo passa por ele e finge que não vê. Na África do Sul, o elefante dança Kizomba e espirra água na sua cara.”

    Muito boa reflexão…!

  4. Muito bom, Natália! Essa reflexão sobre o racismo é muito importante, especialmente em um contexto tão particular quanto o nosso, como você ressaltou. É absurdo fingir que as chagas da história não continuam marcando nosso povo, o deles e tantos outros.
    Infelizmente, enquanto pessoas de carne e osso não somos eternos e Mandela tinha que ir. Mas pessoas como ele não morrem, se a gente não deixar que morram.
    Como anda Bonolo hoje em dia?

    Um abraço!

    1. Ei Luisa! Acabou que a Bonolo foi mesmo pra Stellenbosch pq ela decidiu que o melhor a fazer era enfrentar esse tipo de coisa. Uma atitude corajosa! 🙂 Pelo que acompanhei dela nesses último anos, parece que ela se deu bem por lá!

      Abraços e obrigada pelo comentário!

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