Os passeios nas favelas e o turismo de pobreza

“Foi péssimo!”, disse Anina, minha colega de quarto suíça, quando eu perguntei sobre o tour que ela tinha feito em uma das favelas de Cape Town. “As crianças correram em nossa direção quando a gente chegou, esperando ganhar balas. Era como se eu fosse a turista rica que estava ali para ver os pobres, dar doces e sentir pena deles. Nunca me senti tão mal”.

Sendo do país que era, Anina tinha visto pouca pobreza na vida. Tanto que uma das primeiras coisas que ela me perguntou foi como era a situação dos moradores de rua no Brasil. Ela tinha curiosidade sobre o assunto e se sentiu atraída, como muitos outros viajantes, a fazer um tour para ver de perto as vizinhanças mais pobres da África do Sul.

Favela no Vietnã
Foto: Nguyen Thanh Long (CC BY-SA 2.0)

A cada ano, 40.000 turistas visitam as favelas do Rio. Nas townships de Cape Town, estima-se que esse número chegue a 300.000. Tours semelhantes também são realizados em países como Índia, México e Quênia. São pessoas que, dizem, buscam uma experiência mais real do terceiro mundo.

A intenção pode até ser das melhores, mas fica o questionamento: quão “real” pode ser a experiência de um tour guiado de algumas horas, muitas vezes feito dentro de um carro? É ético que as agências de turismo capitalizem em cima da pobreza alheia, muitas vezes sem contribuírem em nada para o desenvolvimento daquela comunidade?

É verdade que existem casos de operadores de turismo que destinam parte dos lucros para o desenvolvimento da comunidade ou que contratam moradores das favelas para serem os guias do tour, gerando empregos lá dentro.  No entanto, essas iniciativas parecem estar mais para jogada de marketing que para engajamento. O site Tourism Concern realizou um estudo com 25 moradores da Rocinha. De acordo com eles, nenhum dos entrevistados reconheceu o impacto positivo desse tipo de turismo em suas vidas.

Soweto Africa do Sul
Soweto, África do Sul. Foto: Matt-80 (CC BY 2.0)

O turismo de favela transforma a pobreza em puro entretenimento. Algo que se pode experienciar momentaneamente e escapar em seguida. Durante os passeios, os turistas agem como se estivessem em um safári humano, observando as pessoas em seu “habitat natural”. É aquela coisa bem estilo Globo Repórter: “Quem são os pobres? Onde vivem? De que se alimentam?”. Quando o safári termina, os viajantes partem para a próxima parada do roteiro ou para o conforto de suas vidas cotidianas. No entanto, para as comunidades visitadas, a pobreza e os problemas que vêm juntos com ela continuam os mesmos. Para elas, aquilo não é uma diversão de férias.

A Luxuosa Favela Fake

Você pagaria caro para ficar em uma favela de mentira? Só para brincar de ser pobre uma vez na vida e, no dia seguinte, voltar para sua casa? Bom, tem gente que pagaria. O Emoya Luxury Hotel and Spa, um luxuoso resort próximo a Bloemfontein, na África do Sul, construiu alguns casebres de lata imitando as townships que existem por todo o país. O objetivo, de acordo com o site, é proporcionar a experiência da pobreza em um ambiente seguro, privado e “child friendly”. Eles afirmam que essa é a única favela do mundo com aquecimento no solo e internet wi-fi.

A diária para se hospedar nesses casebres é de mais ou menos 82 dólares, ou a metade da renda mensal de um sul-africano médio. Se você quiser incluir o café da manhã, precisa desembolsar mais 10 dólares. Surreal.

Favela de Luxo
favela de luxo

Favela de mentira da África do Sul

Fotos: Emoya Luxury Hotel and Spa

Sou só eu, ou mundo ficou doido?

O lado positivo

Favela nas Filipinas
Foto: Bindue/Creative Commons
Uma vez, quando eu era adolescente, peguei carona com o pai de uma amiga. Uma hora, ele perguntou “Vocês já entraram em uma favela?”. “Não”, respondemos. Ele deu uma guinada com o carro e começou a andar pelas tortuosas ruazinhas de uma vila. Eu me lembro de dizer, com os olhos arregalados e um pouco de medo, que era bem diferente do que eu imaginava.

Os defensores do turismo de favela acreditam que essa é uma boa forma de desmistificar as comunidades. A imagem das favelas vendida pela mídia e por parte da população de classe média é de um lugar violento e miserável. Embora esse estereótipo não seja uma completa mentira, também está longe de ser uma completa verdade. Os passeios permitem que os turistas conheçam uma realidade que vai além da imagem de reduto do crime. Isso é, sem dúvida, positivo, mas eu acredito que existam outras formas de fazê-lo sem transformar a favela em um safari.

Iniciativas que surgem dos próprios moradores (como algumas que existem na Rocinha) e que pretendem mostrar algo além do dia a dia da pobreza, como as manifestações culturais, esportivas e gastronômicas do lugar podem acrescentar muito mais. Mas tratar esses espaços como zoológicos humanos não me parece ético. Pobreza não é e não deve ser tratada como entretenimento para turistas endinheirados.

Imagem destacada: Tetraktys (CC BY-SA 3.0)

 


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Natália Becattini

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma e compartilho minhas impressões de mundo também no instagram @natybecattini e no twitter.

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13 comentários sobre o texto “Os passeios nas favelas e o turismo de pobreza

  1. Eu estive na Cidade do Cabo entre o fim de 2013 e o começo de 2014. Fui pra estudar inglês, e na escola organizavam esse tipo de passeio, onde a galera da escola levava doações e presentes e “preparava” comida pras crianças pobres. Não consegui participar disso. Devo ter sido talvez uma das únicas pessoas até hoje que passou pela escola e não fez esse “passeio”. O sentimento era bem esse: de que tratam essas pessoas como se estivessem num passeio de zoológico. Não tive coragem de fazer parte disso – desde quando a miséria alheia é atração turística?
    Participei de uma outra atividade, onde fomos fazer uma refeição numa comunidade, que foi preparada por algumas pessoas da comunidade pra nós, pra que a gente sentir um pouco como era a realidade das pessoas. E depois fizeram algumas danças típicas, e nos convidaram a participar. Nessa atividade, sem crianças, presentes e “caridade”, estávamos apenas em 4 pessoas. Bem lamentável.

    1. Todo mundo que eu conheci em Cape Town e que participou desse passeio relatou se sentir muito desconfortável com ele. Que pena que esse segundo passeio, esse sim que permite ter um contato humano com a comunidade, não teve muitos interessados…

      Abraços e obrigada por comentar!

  2. é realmente o que você disse, um safari. É triste, triste ver até onde chega ganância do ser humano. Não culpo os turistas, porque muitas vezes não tem noção do que está acontecendo realmente, especialmente quando vem de países mais ricos. Turistas não compreendem que aquele turismo é exploratório até irem a fundo na história daquilo. Culpo as agências de turismo que sabem disso. Existem tantas outras formas de estar em contato com a pobreza que não precisa ser fazendo um “safari”, mas sim, um intercambio voluntário, por exemplo, no qual você efetivamente está fazendo algo para ajudar. Mas é importante difundir isso na internet para que as pessoas sejam conscientizadas.

  3. Nossa tive essa mesma conversa lá em Cape com uma colega suiça que estava muito curiosa pelo tour e eu dizia que via favelas em São Paulo desde que nasci e nao via sentido em i lá ”olhar” uma favela…que nao acrscentava nada na vida das pessoas dessa maneira poxa, só saciar curiosidade de suiço rss Oque eu fui foi em uma comunidade carente, mas que tinha um programa social,servia sopa uma vez na semana e os alunos de uma escola d eingles podiam ir e ajudar, brincar com as crianças…sei lá..conversar com as pessoas, o funcionario morava por lá e explicava sobre a vida, na real como eram as dificuldades,etc…
    Pelo menos nesse caso achava melhor do que simplesmente olhar as casas de lata como se fossem zoos …enfim
    Muito bom seu texto, de opiniao mas ainda assim imparcial 🙂

    1. Pois é, Larissa, o que eu não gosto é dessa abordagem meio Safári. Claro, isso não torna todos os tipos de passeios em favelas ruins…

      Abraços e obrigada por comentar!

  4. Quando estudava em Cape Town, fiz o tour do ônibus vermelho e parei na township. Aquele safári humano me incomodou. Achei absurdo entra nas casas das pessoas enquanto elas cozinhavam, jogavam videogame etc.
    Só entrei em uma e depois fiquei esperando o povo voltar…
    Dias depois, fui assistir a um jogo da segunda divisão no estádio da township de Philippi. Programa de maluco, eu sei, mas confiei nas pessoas que me deram informações no minibus (“sei onde é! Desça no mesmo lugar que eu”) e cheguei ileso à arquibancada. Posso ter arriscado a minha vida, mas ganhei uma das minhas melhores histórias de viagem.

    Ah, e parabéns pelos posts sobre a África do Sul. Uma doce tortura pra mim!

    (Deleta o outro comentário, errei o e-mail)

    1. Realmente, Pedro, entrar nas casas das pessoas é desrespeitoso! A sua experiência do estádio foi legal porque você pode ter contato com as pessoas sem colocá-las na posição de zoológico humano. Isso vale a pena! Que bom que deu tudo certo!

      Abraços!

  5. Olá Natália,

    Primeiro eu gostaria de elogiar o blog, conheci hoje e achei sensacional!

    Quanto ao assunto do post, pra mim é realmente um sentimento ambíguo. É sim uma exploração da pobreza, mas ao mesmo tempo desmistifica a favela. Concordo plenamente que há outras formas de se divulgar a favela, seja através da cultura, gastronomia, esportes, etc. Entendo que a forma ideal seria a de utilizar os próprios moradores trabalhando para esses tours e reverter parte do lucro obtido para alguma instituição social da própria favela. Mas no mundo capitalista em que vivemos, as duas opções juntas na mesma ação é uma utopia.

    Um abraço!

    1. Pois é Diego, o assunto é complicado. hehe O melhor é pensar bem antes de fazer e pesquisar a instituição, para saber se ela contribui alguma coisa com o desenvolvimento da favela.

      Abraços! =)

  6. Oi, Natália! Tudo bem?
    Gostei do seu post e gostei da sua reflexão!
    Eu sempre tivesse implicância com esses tours em favelas, especialmente os que acontecem aqui no Rio (e, especialmente aqui, acho que esses tours ganharam ares de glamour, afinal, Rocinha é famosa, é point, é descolada lá fora, né?). Mas a implicância eu sempre tive, sempre achei que era lucrar com a miséria alheia, era tratar a favela como zoológico, levando os turistas para lá para tirar fotos dos outros como se as pessoas que moram ali fossem as verdadeiras atrações.
    Até o dia em que, bem, eu fui em um tour. Ok, foi uma ocasião especial porque foi organizado pelo Pedro Serra e tinha como objetivo reunir um grupo e sair fotografando. Foi um galerão e subimos na Favela Dona Marta, a primeira que ganhou UPP e onde Michael Jackson gravou aquele clip do “They don’t care about us”.
    Nosso guia era morador de lá – e ele mesmo disse, já passou pelo crime e resolveu mudar. Nos apresentou a favela toda com o maior carinho. Virou quase celebridade.
    No meio do caminho vimos cachorros, brincamos com crianças, com meninas, com senhores e tiazinhas. Vimos criança jogando bola e até famílias felizes em abrir a casa delas para mostrar para a gente.
    Vimos gente que não gostou, também. E respeitamos o direito delas.
    Mas enfim, eu que sempre achei que o tour numa favela era algo anti-ético, feio, exploratório, saí de lá me sentindo… bem! Estranho, né?
    E por isso achei o seu post interessante, e confesso que na minha cabeça ainda tento organizar as minhas idéias e opiniões em relação a esses tours – e acho que tudo vai da forma como a agência promove o tour e ganha dinheiro com isso. Porque o que eu tenho a sensação, hoje, é que entrar em contato com o universo de uma favela, com o dia a dia das pessoas que moram ali (e isso inclui suas alegrias e suas mazelas) é sempre enriquecedor de alguma forma, para ambos os lados. É a chance do morador do asfalto conhecer uma realidade diferente e do morador da favela conhecer outras pessoas de outros países também. Entrar em contato com novos mundos sempre é enriquecedor, e talvez seja exatamente o tour em favelas, por mais contraditório que pareça, a oportunidade mais conhecida/acessível/disponível para a maioria dos turistas conhecer esse lado.
    Meu namorado é inglês e também foi depois, só que na Rocinha. Ele que quis. E segundo ele, foi um passeio interessante exatamente por mostrar esse paradigma aos outros estrangeiros do grupo, que também eram turistas (ele já estava morando aqui há um tempo). Segundo ele, foi bacana ver a vida acontecendo normalmente, uma comunidade simples como tantas outras, quebrando a imagem daquela realidade que todos eles só viam “pintadas” pelos jornais como zonas de violência, ponto de drogas, etc. Ele sentia, inclusive, uma curiosidade e prazer de algumas pessoas em conversar com eles.
    Ok, claro, também tinha a parte do choque da pobreza e a parte comercial de gente querendo vender e empurrar coisas. Mas isso faz parte do mundo, e se a gente quer viajar por ele, vamos ter que aprender como vamos enxergar isso também.

    Então, fico me perguntando se talvez o problema estaria nos meios e não nos fins – ou seja, se a forma com que a agência e o turismo é feito, se é ético ou não, porque a finalidade em si que é “conhecer de verdade uma realidade de vida bem diferente do que se lê nos jornais e televisão”, eu acho interessante. Há tantas histórias de pessoas que passaram a se tornar mais ativas em projetos sociais nos seus países depois de visitar lugares assim, então eu acredito há seu lado positivo sim, nessa curiosidade.
    Sei lá, ou fui eu que resolvi ver o “bright side” e acreditar que isso pode fazer, aos pouquinhos, a diferença! 🙂

    1. Adorei seu comentário, Clarissa! Pois é, essa parte de ver a favela como um lugar onde as pessoas vivem normalmente, e não como aquela terra de ninguém que a mídia pinta é o maior benefício desses tours, eu concordo com você. Mas acho que daria para fazer isso sem explorar dessa forma, sabe? O que acontece, na maior parte das vezes, é que as agências transformam aquilo ali em um safari humano mesmo. E por mais que a gente saia de lá com outra visão, ainda não acho que seja muito ético capitalizar em cima da pobreza alheia. É um tema bem complicado.

      Tem algumas iniciativas que os próprios moradores das favelas empreendem em cima do turismo lá dentro, em especial na Rocinha. Ai eu acho que seja mais certo, pq ao comprar o tour vc acaba gerando renda para a própria comunidade, e não para algum empresário rico. Infelizmente, a Rocinha é um caso a parte, bem diferente de outras favelas ao redor do mundo. Acho que só se compara a Soweto, na África do Sul, que tem uma pegada turística bacana também. Em Cape Town, por exemplo, as pessoas só eram exploradas pelas agências mesmo.

      Não sei como foi esse tour que você fez, mas acho que uma abordagem legal são tours que se procuram mostrar mais sobre a história, as manifestações artísticas, esportivas, etc… Acho que seria mais rica que esses que são apenas para ver pessoas pobres (como o que a minha colega suíça fez).

      Abraços!

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