Experiência de intercâmbio na Tailândia

A Carolina Melo é uma leitora aqui do blog que teve uma experiência de vida muito interessante. Há cerca de oito anos, quando ela tinha 16, ela fez um intercâmbio na Tailândia. A Carol estudou numa escola tailandesa e viveu na casa de uma família de lá. Ela escreveu para o 360meridianos um relato muito legal dessa experiência. 

“-Pai, eu gostaria de fazer intercâmbio”.

Disse essa frase, muito embora soubesse que não teríamos condições de arcar com uma experiência dessas. Coincidência ou não (eu particularmente não acredito em coincidências), no decorrer da semana que se seguiu, meu pai me encaminhou um e-mail: a empresa na qual ele trabalhava estava promovendo uma seleção para uma bolsa de intercâmbio para os filhos dos funcionários, com idade entre 15 e 17 anos (eu tinha 16). Era uma única bolsa, para várias das unidades fabris da empresa em todo o mundo. O destino até então era os Estados Unidos, onde estava situada a sede da empresa.

Funcionava mais ou menos da seguinte maneira: a empresa que papai trabalhava mantinha uma espécie de convênio com o American Field Service – AFS, que  surgiu como um serviço voluntário de ambulâncias para socorrer as vítimas das últimas guerras mundiais. Depois da 2ª Guerra, os voluntários permaneceram unidos em torno da ideia de promover a paz por meio do contato entre pessoas de diferentes culturas. Eles fundaram, em 1947, o AFS Intercultural Programs.

Hoje, o AFS é a maior e mais antiga rede de intercâmbio mundial, abrangendo mais de 50 países em todos os continentes. Contribui para a construção de um mundo solidário, onde o respeito entre os povos, culturas e etnias, a paz, a justiça social, os direitos humanos e a democracia sejam valores aceitos, difundidos, compartilhados e traduzidos em ações concretas que visem o desenvolvimento das sociedades e das pessoas.

Me inscrevi, passei por um processo seletivo que incluía até acampamento em Atibaia e, para minha surpresa, fui aprovada. Consegui a bolsa em âmbito mundial e a principal mudança foi o destino da minha viagem: não tinham mais vagas para os Estados Unidos e a bolsa era agora para a Tailândia. Meus pais ficaram assustados com a mudança repentina de destino, mas me apoiariam independente de qual fosse a minha decisão. E embora eu também tenha sido pega de surpresa, decidi que queria ir.

“-Você vai surfar no Tsunami?”; “-Você é muito corajosa!”; “-Você vai comer cérebro de macaco por lá”. Essas foram algumas das frases que passei a ouvir e, a conclusão que tiro disso tudo, é que se eu pudesse escolher, muito provavelmente eu não escolheria a Tailândia; mas depois de ter ido para lá, não a trocaria por nenhum outro país.

intercambio na tailandia ayutthaya

A cultura na Tailândia

Primeiramente, eu gostaria de esclarecer que a Tailândia representa a mais improvável coexistência de dois mundos. De um lado a tradição: escola só para mulheres; namoro sem beijo na boca; patriarcalismo ainda muito forte e presente; excesso de zelo com as crianças e adolescentes; inocência. E de outro a invasão ocidental provocada pelo turismo: o maior índice de exploração sexual do mundo; transexuais; festas “quebradeiras”.

O país é ao mesmo tempo feio e maravilhoso, agitado e calmo, violento e pacífico, caro e barato, evoluído e atrasado, alegre e triste. Alguns amam, outros odeiam. Muitos odeiam e amam. Poucos se sentem indiferentes. Fui conviver com uma cultura que se atrita e coexiste com sua contracultura. E uma frase que aprendi naquela época é que “Nada é melhor, nada é pior, tudo é diferente”.

A homossexualidade e transexualidade são opções super bem aceitas na Tailândia. Mais do que isso, pois aceitação carrega um tom de diferença e na Tailândia a opção sexual de cada um é tão natural quanto a opção do que se vai comer no café da manhã. Muito ironicamente, no país dos contrastes, um casal não manifesta sua intimidade em público.  O máximo que é “permitido” são mãos dadas com o namorado/namorada. No mesmo sentido, o divórcio ainda não é bem visto na sociedade.

diversidade tailândia

A diversidade sexual no país é bem aceita

Na Tailândia, se expressa afeto e carinho de maneiras diferentes das nossas, sem que o toque seja necessário para isso. O abraço é substituído pelo tchauzinho, o beijo pelo “cheiro”, e o cumprimento de beijinho por uma pequena referencia inclinada, o wai (mas apenas em situações formais). Sentia-me muito protegida e amada, muito embora raramente recebesse um abraço.

A maioria dos tailandeses é budista e costuma-se reservar um espaço considerável da casa para a devoção ao divino, uma espécie de oratório para nós. Vai-se ao templo muito de vez em quando já que eles acreditam que não é o local em que você está que te conecta com o mundo superior. Mas a ida a um templo que não tenha fins turísticos é simplesmente linda. Tem todo um ritual de como se sentar para prestar a sua homenagem a Buda, acender incensos, oferecer flores, receber uma mensagem conforme o número que você “tira nos palitinhos”.

Acredito que por conta da religião, os tailandeses são bastante conformistas e não sentem inveja um dos outros. E é difícil transmitir a negação de um sentimento por meio de palavras, mas o que quero dizer é que o papel de cada um é valorizado, de modo que todos estão contentes com o que são e não querem o lugar do outro.

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Os nomes tailandeses são incrivelmente grandes e complicados.  Assim, para facilitar, todo mundo tem um apelido. A minha “irmã”, por exemplo, se chama Kittayaporn Khunworraphati e o seu apelido é Pat.  Em uma das minhas primeiras aulas na Tailândia, uma de minhas professoras me perguntou se eu já tinha “nome thai” e quando eu respondi negativamente, ela prontamente me nomeou de NAMWAN, que significa água doce/doce.

Como era meu dia a dia de intercâmbio na Tailândia

Eu morava em um condomínio localizado em Samut Prakan, mas estudava em Bangkok. Assim eu tinha que acordar todos os dias muito cedo para ir para a escola. Tomávamos banho e minha hostmom nos deixava no ponto de ônibus. Eu ia dormindo todo o trajeto, quase todos os dias.

intercambio na tailandia Sessão de fotos

Carol e as colegas numa sessão de fotos para a escola

Chegando ao colégio, à porta já estavam algumas professoras para a conferência dos uniformes e cabelos, as quais cumprimentávamos de maneira formal, com o “wai”. Em algumas escolas também não se misturam homens e mulheres e esse era o caso da minha. Havia apenas mulheres, cerca de três mil. O vestuário é diariamente conferido pelos professores: o uniforme (sapatos fechados, meias brancas, saia até a altura do joelho e uma blusa com manga curta que fica para dentro da saia), se os cabelos estão presos, não podem usar brincos, nem maquiagem e muito menos pintar as unhas.

As mais novas, inclusive, têm que manter os cabelos curtinhos, aquele corte “capacete”, sabe? Caso contrário as professoras passam a tesoura. O respeito aos professores é demonstrado ao se levantar, quando eles chegam à sala, e em não contrariá-los. Eu não cheguei a presenciar nenhum caso, mas castigos físicos são meios de impor limites nas escolas. Todos os dias, antes de começarem as aulas, tínhamos a hora cívica, um momento em que se canta o hino nacional no pátio.

intercambio na tailandia discurso de despedida, horário da hora cívica

A despedida da Carol durante a hora cívica

Depois da hora cívica, subíamos para as aulas e meus dias eram cada um de um jeito, já que eu tinha um horário próprio de intercambista. Eu almoçava cada dia com uma pessoa diferente e, às vezes, até ia passear com algum professor, fora do colégio. Algumas vezes eu tinha aulas particulares com os diversos professores. Thai, aula de dança, música, educação física, inglês, francês, horário de ficar no computador, muay thai, culinária, cabeleleiro.

Para que eu conseguisse validar o meu ano de estudos acabei pedindo para acompanhar as aulas de matemática e de história da minha irmã também. A verdade é que, principalmente nas aulas de história, eu tinha muita dificuldade de entender a professora, já que seu tailandês era muito formal. Mas como ela me dava umas “aulas particulares” depois, acabei me saindo bem.  Eu amava meu colégio. Fui muito feliz por lá. Salvo engano era a melhor escola pública para mulheres do país e tinha uma excelente infraestrutura de aprendizado. Aprendi muito com cada uma das pessoas que tive oportunidade de conviver.

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Aula de Ranat ek

Eu era “famosa” na minha escola também. Se eu achava que brasileiro é quem tinha mania de deusificar os “gringos” é porque não conhecia ainda os tailandeses. Na escola pediam para tirar foto comigo, pediam meu autógrafo. Era só eu me sentar em um lugarzinho para ler alguma coisa ou descansar que alguém se aproximava, um pouco envergonhado, querendo saber de mim.

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Apresentação de dança

As aulas terminavam no final da tarde. Pat e nossas amigas sempre arrumavam algo para fazer depois das aulas: ir ao shopping, ir para casa de alguma delas ver filme, passear. Chegava em casa só a noite e mal tinha tempo de fazer alguma coisa antes de ir dormir. A minha hostfamily ficava assistindo TV ou descansando na sala, mas eu não me aguentava de sono e precisava dormir. Quando eu tinha algum tempo, ficava vendo as novelas Thai ou jogando games com meu “irmãozinho” menor, que na época tinha nove anos.

Os finais de semanas eram variados também. De forma geral os tailandeses tiram esses dias para curtir a casa e descansar. No início do intercâmbio minha família saía muito comigo, para eu conhecer lugares novos. Com o tempo nem tanto mais, mas aí eu já tinha aprendido a bater minhas perninhas por Bangkok.

Muitos me perguntam como eu me comunicava por lá. Saí do Brasil sabendo apenas como se falava “banheiro” e “oi” (sawadee ka) em Tailandês. O AFS promovia reuniões a fim de que o intercambista fosse preparado para as inúmeras situações que viveria, como o que fazer para conseguir amigos, se alguém da família hospedeira não gostasse de mim, a importância da sinceridade. Quanto à língua, foi muito enfatizada a importância de se aprendê-la para compreender a cultura, fazer amizades com quem não soubesse falar outra língua e, principalmente, uma forma de demonstrar interesse, admiração, agradecimento e respeito pelo país e pessoas que te acolheram.

intercambio na tailandia família e conselheira

Minha família tailandesa e minha conselheira da AFS

E fui com isso na cabeça. Apenas isso. Sequer havia pensado na possibilidade de a língua ser difícil ou algo do gênero. Tudo que eu sabia é que eu iria aprendê-la. E talvez essa inocência atrelada à impulsividade tenha me garantido a fluência na língua. Não foi fácil, confesso. Lembro que no meu primeiro encontro com todos os outros intercambistas estava receosa achando que eu era a única que ainda não dominava o Thai e, para minha surpresa, era uma das poucas que estava empenhada e conseguindo aprender.

Mas a minha persistência, a boa vontade dos que me ensinavam e a ausência de outros intercambistas na minha escola fizeram com que eu pudesse me virar bem com a língua. O mais difícil para nós ocidentais é que a mesma palavra pronunciada com tons diferentes (são 5 no total) tem significados diferentes. “MÁ!” significa cavalo e “MAÁ?” cachorro. Mas apenas aprendi a falar, não sei escrever com as “letras” tailandesas. Na época até ensaiei um aprendizado neste sentido, sabia ler algumas palavras, mas hoje já não lembro mais nada.

Os costumes típicos do país

O dia é composto por três grandes refeições, que devido à variedade alimentícia do país, não seguem muito um padrão. Em geral come-se arroz acompanhado de alguma coisa. O que é regra no prato do tailandês é a tal da pimenta. Lembro-me que desde o primeiro almoço me apaixonei com a comida Thai, mas como não estava acostumada com aquela quantidade de pimenta, bebia uns dois litros de água por refeição. Com o tempo fui me acostumando.

Minha comida apimentada predileta era o tom yam goong. Para quem não se dá com pimentas eu sugiro o Pad Thai, uma espécie de macarrão delicioso!  Ah! Aquela história de que tailandês come inseto é tão verídica quanto a de que nós brasileiros vamos de cipó para a escola. Em todas as feirinhas se acha para comprar, mas os tailandeses não comem e não gostam, já que tem gosto de gordura frita (eu experimentei um, longe da minha hostfamily, é claro).

A relação dos tailandeses com os monges é de muito respeito e reverenciamento. E eles estão em toda parte: ônibus, aeroportos, restaurantes. Eles vivem exclusivamente de doações que recebem todos os dias, bem cedo, em uma espécie de procissão (foto abaixo): os moradores vão às ruas com seus potes de alimentos, velas/incensos, bebidas, panos para roupa, e esperam os monges todos os dias. Como as mulheres não podem encostar nos monges, elas deixam as doações no chão para que eles possam pegar. A maior parte dos homens budistas da Tailândia passa três meses vivendo como monges em algum momento de sua vida, ao completar a maioridade, antes do casamento. É uma forma deles se conectarem com seus ancestrais, praticarem a simplicidade e aprenderem a dar e receber.

procissão doação aos monges tailândia

A foto do rei da Tailândia está por toda parte do país. Nas ruas, nas casas, escolas. Ele é muito amado por lá. Quando se vai ao cinema, por exemplo, ao final dos trailers passam algumas imagens da Tailândia, fotos do rei ajudando as pessoas e sua música ao fundo com um aviso na tela, dizendo em Thai e em inglês para que as pessoas reverenciem o rei. Todos na sala de cinema se levantam e se colocam em posição de respeito, com as mãos à frente do corpo, durante uns dois minutos. Na verdade isso é obrigatório antes de qualquer tipo de espetáculo e evento no país. O rei da Tailândia é um símbolo da identidade e da unidade nacional, mas tem pouco poder direto sob a constituição, já que a forma de governo é a Monarquia Constitucional.

Lembrando: os tailandeses são uns amores e muito receptivos! Sintam-se livres para perguntar e interagir. Em relação às compras, sugiro que se pechinche sempre em busca de um menor preço, pois pensam que os estrangeiros são ricos porque a moeda do país é muito desvalorizada. Eu particularmente não tinha esse problema, pois, como falava a língua, eles achavam que eu era uma mestiça e não queriam “tirar vantagem”.

Bom, então é isso pessoal. Espero que tenha conseguido dividir o pouquinho do que sei e do que vivi com vocês.

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Olá, somos a Luíza Antunes, o Rafael Sette Câmara e a Natália Becattini. Há 10 anos fazemos o 360meridianos, um blog que nasceu da nossa vontade de conhecer outras terras, outros povos, outras formas de ver o mundo. Mas nós começamos a sonhar com a estrada ainda crianças e sem sair de casa, por meio de livros sobre lugares fantásticos. A gente acredita que algumas das histórias mais incríveis do mundo são sobre viagens: a Ilíada, de Homero, Dom Quixote, de Cervantes; Harry Potter, Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos. Todo bom livro é uma viagem no tempo e no espaço. E foi por isso que nasceu o Grandes Viajantes: o clube literário do 360meridianos. Uma comunidade feita para você que ama ler, escrever e viajar.

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9 comentários sobre o texto “Experiência de intercâmbio na Tailândia

  1. Gostei muito do relato. Detalhado mas objetivo. Parabéns por ter a coragem de tao novinha se aventurar num pais tao diferente. Ainda vou um dia pra tailandia!

  2. Parabéns pelo post !
    Visitei o país agora em junho e posso dizer que estou completamente apaixonado por tudo que o envolve, eu e minha esposa não vemos a hora de voltar pra lá!! rsrs

    abraço!

  3. Olá Carol!
    Que experiência linda! Me sinto mais apaixonada pelo pais, pela sua cultura e contracultura, bem como com a forma de encarar as relações, como você coloca: ninguém tem inveja de ninguém… O que sempre me atraiu na Tailândia foi a sua flora tropical e seu depoimento faz-me ter mais vontade de conhecer esse pais… Grata!
    Ana

  4. Parabéns pelo relato. Bom seria se mais pessoas fizessem esses intercâmbios para lugares não convencionais e nos contassem suas experiências!

  5. Parabéns pela matéria irmã;

    vc e o pai capricharam!
    Todos sabemos o quanto vc viveu intensamente essa experiência….experiências servem para nos fazer mais maduros e FELIZES!

    bjos

  6. Relato maravilhoso de intercâmbio em países bem diferentes do nosso. Deve ser bacana esse tal “choque” cultural, espero um dia poder contar um relato como esse, permeado de felicidade e garra.
    Abraços!

  7. Nossa, post sensacional! Muito legal saber que dá pra fazer intercâmbio em países pouco citados nessa área. Parabéns à Carolina pelo relato.

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