Espanhol não é português falado errado

Aos poucos os brasileiros estão dominando o inglês, mesmo que com um simpático sotaque tupiniquim. Difícil é achar alguém no Brasil que saiba falar espanhol de verdade. A culpa é da semelhança entre as línguas: qualquer brasileiro jura que para falar espanhol basta misturar palavras dos dois idiomas, pronunciando tudo de forma meio gringa, seja lá o que isso queira dizer. Enfim, aquela língua meio embolada que nos acostumamos a chamar de portunhol, falada em reuniões multiculturais, seja por brasileiros, pela América Espanhola ou por qualquer latino-americano que esteja tendo um AVC.

A semelhança é tanta que uma amiga, norte-americana e fluente no idioma do Gabriel García Márquez, jura que português é espanhol falado errado. Ou o contrário, tanto faz. Se até quem é do hemisfério norte já pensa que português e espanhol são basicamente a mesma coisa, só mudam as vírgulas e entonações, é claro que os habitantes dos dois lados da América do Sul não fariam muito esforço em estudar o idioma falado pelos vizinhos.

Leia também:Os muitos sotaques do Espanhol

Foi só quando pisei pela primeira vez no Chile, em 2012, que reparei que espanhol, espanhol mesmo, não era tão fácil assim. Eu compreendia mais facilmente um chileno falando inglês do que um chileno falando espanhol. Para tentar corrigir essa, digamos, vergonha, meses depois eu me matriculei num curso intensivo de espanhol.

Hola, ¿qué tal? pra lá, te gustan las empanadas pra cá, e quando eu fui passar uns meses na Argentina, no meio do ano passado, eu tinha mudado meu status linguístico: espanhol eu ainda não falava, mas já podia colocar no currículo o portunhol fluente. Gracias, Fisk.

Desembarquei na Argentina logo depois que os hermanos perderam a Copa. Pois bem, no meio daquela confusão toda, em que gaúchos andavam assim, alemães andavam assado e o mimimi era livre, resolvi cortar o cabelo. Para quem já tinha conseguido manter aquela conversa fiada típica de barbearias até na Índia, na Argentina eu achei que seria tranquilíssimo, ainda mais depois de dois meses de cursinho. Bastaria usar sempre as mesmas palavras, soltar um gracias aqui, outro acolá, e tudo daria certo. Não fosse por um detalhe: o barbeiro achou que eu mandava tão mal, mas tão mal, no espanhol, que eu só podia ser norte-americano. Ou russo.

“Bueno, você está aprendendo bem, continue assim. Depois você deveria aprender a falar português também, é importante. Mas não o português de Portugal, o do Brasil”, ele me explicou.

Eu podia ter dito que era brasileiro, mas preferi deixar daquele jeito mesmo. Assim ele não tinha motivos para fazer piadas, fosse pelo meu espanhol ou pelo 7 x 1. Preferi passar por anglo-saxão, mas escapei da barbearia sem ter que ouvir “Brasil decime que se siente”. Troca justa.

Com algumas semanas em Buenos Aires as coisas ficaram melhores, claro, mas as peripécias linguísticas não acabaram. Como o dia em que resolvemos colocar crédito em nossos celulares.

Hola, cê tem crédito de telefone?, perguntei, gastando meu melhor portunhol/mineirês.

Si. Un ratito?, respondeu a moça.

Um o quê?, perguntei, já olhando para o chão.

Ela repetiu, com todas as letras: UN RATITO. Concluímos o óbvio – tinha um rato na loja!

Fudeu. Vão pedir para eu matá-lo. Que mierda, logo quando a gente entra aqui, um ratito! Ok, pelo menos não é un raton, o que seria una mierda más grande, do tamanho de una ratazana, mais precisamente, mas ainda assim é um ratito, mierda. O que a gente faz?

Bom, um dicionário ajudaria, fosse para matar o rato na base da pancada ou para entender o óbvio.

Espanhol x portuguêsPassado o susto com o ratito, o problema seguinte foi o boliche. É que o povo do hostel, tudo gente jovem, animada e (quase sempre) borracha, me chamava para ir ao boliche com uma frequência assustadora, algo que eu não vi nem quando eu tinha 13 anos e boliche ainda era uma coisa cool. Até o dia que eles falaram que iriam para um boliche numa sexta-feira, depois do bar. Oi? Bom, isso é um boliche em boa parte da América Latina:

boates

Ahhhh, tranquilo. Agora esse idioma não engana mais, pensei. Mudei de nível: já posso dizer que falo espanhol, com um leve sotaque brasileño.

Hay muchas bichas en Brasil?”, perguntou a secretária da ONG onde eu trabalhava, uma senhora de uns 70 anos.

Oi?, respondi.

Bichas. En Buenos Aires hay bichas enormes, muy hermosas, pero muy peligrosas.

Han? Olha, tenho quase certeza que não sei do que estamos falando.

Das bichas.

Oi? Han? Você disse bichas? Bom, isso é meio politicamente incorreto, sabe…

Não. Ela tinha dito villa, que na Argentina se pronuncia quase como bicha. E Buenos Aires está cheia de villas, ou favelas, assim como qualquer grande cidade da América do Sul.

Ahhhhhh.

Podia ser pior. Pelo menos meu curso de espanhol tinha me ensinado o que responder quando perguntassem meu apelido, na hora de entrar no país. Deu vontade de responder Rafa, só de zueira, mas resisti. Assim como tive vontade de perguntar pro moço do restaurante se eles aceitavam cartón, mas achei que ia pegar mal para a imagem dos brasileiros. Preferi passar vergonha só com o ratito.


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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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50 comentários sobre o texto “Espanhol não é português falado errado

  1. Oi
    Eu li todos os comentarios e gostei pra caramba…
    Eu convivi com muitos Hispanohablantes em São Paulo e o que achei mais complicado no espanhol não foi comentado:conseguir falar sem sons nasais,a fonetica espanhol e muito suave.
    Obrigado pela atenção!

  2. Passei 10 minutos tentando pedir pra moça da lanchonete em Buenos Aires um canudo para tomar meu suco. Depois de muita tentativa e explicações, descobri que se chamava “sorbete”! hahaha
    Passei a vergonha de pedir ao garçom a máquina para passar “cartón”… hahaha
    Em seguida aprendi que o correto seria “tarjeta”.
    O bom é que depois desse tipo de situação, nunca mais se esquece a palavra!

  3. Rafa do céu!
    Como brasileira que mora no Chile, quase morri de rir hahahahaha
    O pior de tudo é que, quando você acha que aprendeu, descobre que aquilo só se diz no determinado país onde está, e que nos vizinhos (mesmo hispanohablantes), os termos são outros haha

    1. Que bom, Luíza. Melhor rir da história mesmo! hahaha

      Eu já desaprendi tudo, isso sim. E olha que não sabia quase nada. 😛

      Abraço.

  4. adorei sua experiencia,faço curso de espanhol e quero poder viajar logo,também tenho uma amiga que mora na Espanha e quando comecei a fala com ela achei que ela ia entende um poco do português, mais ela não entendia nada (só um oi, tudo bem e obrigada) ai sobrou para mim arranha no meu espanhol.

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