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Viajei, choveu, mas e daí?

Em pleno sertão e a poucos quilômetros de onde o cangaço cresceu e morreu, eu percorria rapidamente o quinto maior cânion navegável do mundo. A viagem pelo Xingó era um sonho de anos: o destino, que fica na divisa entre Sergipe e Alagoas e se formou na década de 1990, após o alagamento causado pela usina hidrelétrica de mesmo nome, me fascinava desde que as primeiras fotos de cânions com água verde-inacreditável apareceram na minha timeline, sei lá quando.

Depois de uma promoção de milhas para Aracaju, o aluguel de um carro e cerca de 230 quilômetros percorridos pelas estradas da Rota do Sertão, desembarquei em Piranhas, município de Alagoas que fica às margens do Rio São Francisco. Demorei segundos pra me deslumbrar com as casinhas coloridas, os mirantes, morros e os restaurantes em prainhas formadas pelo Velho Chico.

Piranhas, Alagoas

Do alto de um dos mirantes, onde fica um monumento do povo do século 19 para o do século 20, vi o dia acabar e o tempo fechar. As águas que inundaram o sertão trouxeram os sapos, todos enormes, que coaxavam tranquilamente e se espalhavam pelos degraus do mirante enquanto eu voltava para o hotel. Tudo bem, pensei. Melhor que chova agora do que amanhã, durante a navegação pelos cânions.

Mas o dia seguinte chegou com nuvens ainda mais ameaçadoras e chuva torrencial. Navegamos mesmo assim, mas a água não parou de cair – o líquido que enche os cânions, como consequência, perdeu seu tradicional tom esverdeado e ganhou toques enlameados. Congelando no banco da lancha e incapaz de ver nada a mais de dois metros de distância, fiz o passeio dos sonhos da viagem dos sonhos.

A chuva, incomum nessa proporção, época e lugar, garantiram pelo menos três guias diferentes, atrapalhou o feriado, que mesmo assim teve momentos ótimos. A verdade é que essa não foi a primeira – e nem será a última vez – que o clima atrapalhou meus planos. Já fiquei trancado no hotel após meses de planejamento de viagem, mas incapaz de cruzar a rua da frente, que tinha se transformado em rio.

Já viajei para visitar um parque nacional, mas vi a entrada ser impedida, algo que, novamente segundo os guias, só acontece a cada “cinco ou seis anos”, em invernos mais rigorosos que a média. Já cheguei, com muito custo e dinheiro investido, a lugares que desejava conhecer há anos, mas fiquei preso à cama, ou melhor, ao vaso sanitário, por conta de uma intoxicação alimentar.

Até o clima político atrapalhou algumas férias, com manifestações fechando ruas, atrações e impedindo a circulação de pessoas – foram os momentos de maior medo e vontade de voltar correndo para casa. Viajar, como já dissemos algumas vezes aqui no blog e tão bem escreveu Paul Theroux, é glamoroso apenas em retrospecto. Não há viagem sem perrengue, seja ele qual for, embora, claro, alguns perrengues sejam maiores que os outros e na maioria das vezes as coisas nunca ocorram como o planejado, mas também não tomam feições drásticas.

Por mais que a gente adore pensar o contrário e até invente superstições, rezas e faça o mais detalhado dos planejamentos, a verdade é que chega um ponto em que simplesmente não temos controle, o que não deixa de ser interessante: preferimos acreditar no inacreditável do que admitir que não podemos determinar o futuro em todas as suas possibilidades.

Somos como o torcedor fanático de um time de futebol, que vai aos jogos sempre com a mesma camisa, roupa íntima e segue exatamente a mesma rotina de um dia vitorioso, tudo para não admitir para si mesmo que no fundo não há nada que ele possa fazer para alterar resultado, que nem sempre é o que ele gostaria. O medo de assumir a falta de controle, de que “viver é muito perigoso” e imprevisível, é maior que as consequências da falta de controle em si. E nessas horas, quando o imponderável toma conta, pode até ficar complicado controlar o humor, quanto mais o que ocorre ao nosso redor.

cânion do Xingó

Mas se chuvas, nevascas, ciclones, terremotos, gripes, diarreias, protestos, turbulências políticas,tristezas esperadas e inesperadas, problemas familiares ou unhas encravadas podem atrapalhar planos cuidadosamente feitos, o mais importante é lembrar que a vida nunca imita o Instagram. A experiência real é sempre menos colorida e perfeita do que vemos nas redes sociais; a vida real é sempre menos interessante do que o perfil do vizinho tenta mostrar. Não há viagem perfeita porque não há vida perfeita.

O tempo trata bem os perrengues, que logo viram boas histórias ou ganham o tamanho que merecem, sendo substituídos pelos momentos simples e marcantes, aqueles que realmente ficam na memória e que em geral não são instagrameados ou faceboocados. Ainda bem.

Imagem destacada: Shutterstock

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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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17 comentários sobre o texto “Viajei, choveu, mas e daí?

  1. Oi Rafael, Não sei se você viu, o povo andou postando no Mochileiros suas fotos de “expectativa X realidade” e foi tão engraçado, além de saudável, ver que acontece com todo mundo: sempre vai ter uma chuva, um monumento em restauro, uma neblina tão espessa que te impede de enxergar 1 metro além, uma virose real que te prende ao trono.
    Por mais posts que mostrem “a vida como ela é”!

  2. Meu Deuuus, eu não acredito que você estava em Piranhas nos mesmos dias que eu e não o vi!!
    Morri com farofa.

    Vc foi quando Rafael? Fui agora nesse feriado do dia 01/maio e choveu o tempo todo. Mas fizemos todos os passeios mesmo assim! =)

    1. Eu estava lá dias 29 e 30 de abri, Malu. Dia 1º eu já tinha voltado para Aracaju. Quase nos encontramos.

      Abraço.

  3. Gente eu devo ser um cara abençoado. Acabo de voltar de uma viagem de 120 dias, 32 localidades que foi simplesmente perfeita e minha maior frustração foi não poder compartilhar no Instagram e Facebook toda a beleza e todo brilho que eu estava presenciando.
    Ok tive um celular surrupiado do bolso em Sukhumvit, uma crise de lactose em phi phi, chuva fina e persistente em Hue, mas de resto minha viagem foi muito, mas muito melhor que todas as expectativas que eu levei comigo.

    1. A questão é não ligar para os problemas – tipo os que você teve, Dirceu. Aí ficam só as coisas bonitas. 🙂

      Abraço.

  4. Aconteceu comigo ano passado, na minha viagem a Curitiba, no último dia, tinha planos de conhecer 2 cafés fofos, afinal, meu vôo era no final da tarde. O dia amanheceu que só, mas só chovia. Forte! Mesmo assim, eu tentei, um mudou de endereço, outro não consegui achar…ou seja, às vezes tem que aceitar os imprevistos, eles fazem parte.

  5. Sensacional o seu post Rafael!! Na verdade eu já estava refletindo sobre isso há algum tempo, inclusive pensei em escrever um post, porém recebo um email me informando que vocês haviam postado algo e quando abro pra ler (PIMBA!!) o mesmo pensamento. Incrível como a gente pode se identificar com pessoas que a gente nem conhece! Além da reflexão a redação está admirável, bem no estilo daqueles textos tão bem escritos que você não quer deixar de ler! Parabéns

  6. o mais importante é lembrar que a vida nunca imita o Instagram. A experiência real é sempre menos colorida e perfeita do que vemos nas redes sociais; a vida real é sempre menos interessante do que o perfil do vizinho tenta mostrar. Não há viagem perfeita porque não há vida perfeita.
    Obrigada Rafa, eu precisava ler isso nesse exato momento!
    …Por uma vida sem filtro…

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