7 culturas com identidades de gênero não-binárias

7 culturas com identidades de gênero não-binárias

Se você ainda é da turma que acha que azul é cor de menino e rosa é cor de menina, e que o mundo é assim e as pessoas têm que parar de querer mudar, pense outra vez. Os papeis de gênero tais como conhecemos em nossa sociedade são construções que somente correspondem a uma forma de ver o mundo, encerrada em um espaço e tempo específico. Ao longo da História e até os dias de hoje, inúmeras sociedades romperam com o modelo binário de gênero que atribui papéis de acordo com o sexo biológico.

A ocorrência de sistemas de gênero não-binários é tão comum na humanidade que surgiu em todos os continentes e em todos os períodos históricos. São culturas que, se observadas de perto, mostram que a forma usada por nós para lidar com sexualidade, sexo e identidades é apenas uma entre as muitas possibilidades existentes e que nada é uma verdade absoluta neste mundo. Há culturas que reconhecem três, quarto e até cinco gêneros, cada um deles com diferentes papéis e contribuições sociais. Conheça agora algumas delas.

Leia também: O que é etnocentrismo e relativismo cultural

Mahu (Polinésia)

Mahu - Havaí - Gênero não binário

Na língua havaiana, “Kane” significa “masculino” e wahine “feminino”. Os antigos povos que construíram nesse isolado arquipélago do pacífico uma grande civilização, com idioma, cultura e filosofia próprias, no entanto, reconheciam que algumas pessoas não são apenas um ou apenas outro. Esses são os “Mahu”, uma identidade de gênero ambígua que incorpora características consideradas tanto masculinas quanto femininas pelos havaianos. E não entenda mal, não é que eles fossem um menino que queria ser menina ou uma menina que queria ser menino. Eles são os dois, tudo junto e misturado.

Tradicionalmente, os Mahu eram valorizados como cuidadores, curandeiros e guardiões dos valores e costumes.  Hoje, muito dessa cultura ancestral já se perdeu, mas ainda há movimentos no Havaí que se esforçam para preservar as tradições de seu povo e, entre elas, o reconhecimento social dos Mahu, embora nos dias de hoje o termo também seja usado para se referir aos transexuais. Se você sabe um pouco de inglês, tem um documentário legal sobre os Mahu nos dias de hoje lá no Youtube.

Quariwarmi (Império Inca)

Na América pré-colombiana, os Incas adoravam a Chuqui Chinchay, uma divindade que incorporava os gêneros masculino e feminino. Os xamãs que conduziam os rituais sagrados em honra a essa divindade pertenciam a um terceiro gênero, conhecido como Quariwarmi. Eles cultivavam um visual andrógeno como um sinal de que representavam um terceiro espaço que negociava entre o feminino e o masculino, o presente e o passado, os mortos e os vivos. Foram condenados como sodomitas com a chegada dos espanhóis.

Guevedoche (República Dominicana)

É raro que gêneros não-binários surjam a partir de critério biológicos, mas isso ocorreu na República Dominicana. Há um traço genético hereditário que faz com que bebês nasçam com gônadas masculinas, mas aparentem ter genitália externa feminina até a puberdade, quando se desenvolvem como garotos (genitália incluída). Como normalmente essas crianças foram criadas como meninas até mais ou menos os 12 anos, em vez de mudarem o gênero, os dominicanos acabam encaixando-as em um terceiro gênero, e a maior parte se identifica como Guevedoche (que significa “testículos aos 12”) ou machi-embra (macho-fêmea).

Two-Spirit (América do Norte)

Two Spirit - Gênero

Diversos povos originários da América do Norte reconhecem identidade de gênero não-binárias, conhecidas como Two Spirit (Dois Espíritos). A ideia é que em um só corpo habita ao mesmo tempo um espírito feminino e masculino.

A ideia era aplicada para pessoas que desempenhavam papeis sociais atribuídos a ambos os gêneros. Existe uma enorme diversidade de termos, papéis e identidades entre os povos nativos dos Estados Unidos e Canadá, mas é amplamente aceito entre os estudiosos que a grande maioria deles reconheciam um ou mais gêneros não-binários e a existência de pessoas com dois espíritos era algo corrente na maior parte das tribos.

Bissu (Indonésia)

Bissu - Indonesia

Maior grupo étnico do sul da Indonésia, os Bugi reconhecem não apenas duas ou três identidades de gênero, mas cinco. Além do Makkunrai (feminino) e Oroané (masculino), eles também têm o gênero calabai (um equivalente aproximado de homem trans), calalai (mais ou menos o que seria pra gente uma mulher trans) e bissu, que é algo como uma união de todos os gêneros.

É comum que pessoas interssexuais (aquilo que antes chamávamos de hermafroditas) sejam consideradas bissu, porém há diversos indivíduos com órgãos sexuais completamente femininos ou masculinos que se identificam com o gênero. Eles usam roupas e acessórios tradicionalmente associados tanto ao gênero masculino quanto feminino e possuem um importante papel na sociedade, em especial na condução de rituais religiosos. Em 1949, passaram a ser perseguidos por radicalistas islâmicos, porém há grupos que atuam no país na tentativa de proteger os direitos dos bissus.

Aravani (India)

Aravani - India - Generos não-binários

Foto: Shutterstock

A Índia é famosa por reconhecer judicialmente os hijra (equivalente aos nossos transexuais, travestis e eunucos) como terceiro gênero. Embora desde o domínio britânico sejam discriminados pela sociedade e acabem precisando recorrer à prostituição e mendicância para sobreviver, a tradição dos hijra é ancestral. Uma vertente dessa tradição, praticada no estado do Tamil Nadu, é a Aravani, pessoas que nascem homens, mas adotam papeis femininos em estágios bastante precoces de seu desenvolvimento. O nome significa noivas de Aravan, uma deidade hindu.

A tradição tem raíz no antigo livro Mahabharata, um clássico épico indiano e um dos textos sagrados mais importantes do hinduísmo. Em uma passagem, o texto conta que os Pandavas, filhos de Pandu, poderiam conquistar Kurukshetra se sacrificassem um homem perfeito entre eles. Aravan,  filho virgem de Pandav, se ofereceu para sacrifício. Seu único pedido foi que ele passasse uma noite como um homem casado.

Como nenhum rei queria oferecer uma de suas filhas em casamento a um homem que tinha os dias contados, Lord Krishna assumiu sua forma feminina e se casou com Aravan. A cada ano, durante a primeira lua cheia do mês Tamil (correspondente ao nosso abril/maio), os Aravanis se reúnem em Koovagam para celebrar esse mito. Eles se identificam como a forma feminina de Krishna.

Muxes y Nguiu’ (México)

“Nem homens, nem mulheres, tudo ao contrário”. É assim que se definem os Muxes y Nguiu’, indivíduos pertencentes ao terceiro gênero do povo Zapoteca, em Istmo de Tehuantepec, México. Os Muxes são homens que assumem uma identidade feminina sem abrir mão da masculina. É considerada uma condição de nascença, o que quer dizer que os zapotecas acreditam que a pessoa não tem escolha em se tornar muxe, é algo que carrega com ela.

Se dedicam a tarefas como o bordado, decoração de festas, cerâmica e comércio e podem alcançar grande valor social quando trabalham para ajudar a família e a sociedade. Costumam se relacionar com homens que se definem como heterossexuais. Já as nguiu são mulheres que se identificam com a identidade de gênero masculina e se relacionam com mulheres, embora não gozem de tanto prestígio social quanto os muxes.

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma. Siga @natybecattini no Instagram

26 comentários em 7 culturas com identidades de gênero não-binárias

  1. Tá, mas, porque o fato de já terem havido essas exceções, em diversas épocas da humanidade, caracteriza que neste nosso momento histórico elas(as exceções) sejam válidas??
    Concordo que se torne necessário a indivíduos que apresentem divergências do corriqueiro, do usual, do “mais comum”, terem direito à manifestação, escolha, e vivência dessa divergência, mas isso não quer dizer que o “não usual” deva se tornar “corriqueiro”. Minorias, continuam sendo minorias. Têm, por dever de humanidade e de igualdade, direito de respeito às suas escolhas, mas não há que se criar a imperiosa necessidade de que eu seja obrigado a aceitar como “normal” isso. Podemos discutir, avaliar, argumentar e contra-argumentar, porém, não podemos e nem devemos a qualquer indivíduo negar o direito de dizer “Eu não concordo com isso”, incutindo-lhe a pecha de “algo” fóbico ou “preconceituoso”.
    Se as diferenças se respeitarem, podem viver em harmonia, desde que não haja imposição de nenhum dos lados, mas temos que reconhecer que o que é mais comum, é o “corriqueiro”, e o que não é, é a “exceção”.
    Ponto.

    • Ninguém disse que tem que ser corriqueiro, Adilson. As pessoas confundem causas pelo direito e respeito a certos grupos com querer que todo mundo pertença a esse grupo. Eu, pessoalmente, não acho que as pessoas tem o direito de concordar ou não concordar com algo que não lhes diz respeito. Seria o mesmo que uma pessoa desconhecida quisesse te dizer que não concorda com as escolhas pessoais que você fez pra sua vida (emprego, casamento, heterossexualidade se for seu caso…). Como você se sentiria?

      O que é mais comum ou conhecido já é aceito pela sociedade. Por isso não precisamos advogar por essas causas e sim pelas minorias. Conceder direito a elas não ameaça o comum. Não é porque o homossexuais passam a ser mais bem aceitos e respeitados pela sociedade que isso ameaça a heterossexualidade. Não é porque reconhecemos o direito das pessoas trans que as pessoas cis perderam seus direitos. Precisamos parar com essa dualidade…

      Abraços e obrigada por comentar! Argumentações respeitosas são sempre bem vindas!

  2. Notícias e informações muito importantes, pois muita gente acha que essa discussão toda de gênero veio agora e que somos a turma do mimimi. Bom saber que houve, há e sempre haverá. Parabéns pelo post, ótimo, ótimo, ótimo.

    • A sua argumentação é quase um sofismo.
      Pois, enriquecer-se através de meios violentos também é algo que foi praticado, e em alguns casos ainda o é, por diversas camadas sociais por diversos grupos humanos ao longo da história. É só ver o modo de pensar e agir de nosso políticos, por exemplo. E nem por isto, hoje, é considerado um discurso válido em nossa sociedade. Embora, já foi válido no passado. Pois a apropriação da res pública, o botim da pirataria ou o espólio de guerra, já foram considerados meios aceitáveis de se enriquecer. Hoje não é mais.
      A pedofilia já foi considerada “natural” e aceitável ao longo da história de diversos povos humanos. E não é preciso irmos longe, é só lembrarmos e pesquisarmos as idades em nossas avós ou bisavós se casaram. Ou lermos livros como “O Cortiço” ou “Lucíola”, por exemplo. E, na Grécia antiga, não havia grandes diferenças entre o pedófilo e o pedagogo. Hoje, ao menos em grande parte do Ocidente, isto não é mais aceito socialmente, e até, em alguns lugares, considerado um crime.
      Portanto, o fato de terem existido ou de existirem camadas sociais minoritárias que adotem comportamento distinto da maioria dos indivíduos de uma sociedade não concede uma “legitimidade histórica” à ideologia do gênero. Esta aliás, é sim, algo contemporâneo na sociedade em que vivemos.
      Caso contrário, esta forma de raciocínio que você apresentou, dá margem à legitimidade de discursos hoje tidos como incorretos, como os que eu citei acima.

      • Realmente o fato de uma prática ser praticada há tempos não a legitima, mas ela não disse isso, disse apenas que a existência de pessoas não binárias não é uma invenção moderna de um “mundo perdido”, como algumas pessoas insistem em afirmar, mas sim que atravessa eras e continentes. Agora, comparar o não-binarismo com pedofilia, espólios de guerra e pirataria é uma desonestidade, uma vez que a primeira não representa uma opressão ou violência de um indivíduo, governo ou povo contra o outro, ao contrário de todo o resto que você citou, e não deveria incomodar ninguém se as pessoas soubessem respeitar individualidades e a diversidade.

        • Natália, eu respondi para a usuária “Yáh”.
          Mas, mesmo assim, vou comentar a sua resposta.
          Já começo ratificando tudo o que eu escrevi, pois você não contra argumentou nada do que apresentei, apenas escreveu “palavras de ordens” de cunho ideológico.
          Quanto a questão da pedofilia e do enriquecimento pelo uso da força foram apresentados como exemplos de mudanças de comportamentos ao longo da História Humana. Comportamentos que foram aceitos e válidos no passado, mas hoje, não são mais tolerados. Portanto, fazer comparações da busca de aceitação da ideologia de gênero com o processo de desconstrução ideológica que tornou “non gratae” comportamentos como a pedofilia e o enriquecimento pelo uso da violência são válidos e intelectualmente honestamentos, na medida que abordam os processos de construção ou de desconstrução de um discurso ideológico.
          Ou você não leu o que eu escrevi de fato?
          Se você tivesse estudado história de forma mais profunda, principalmente, a história do pensamento humano e de seus paradigmas e tabus (a Antropologia, que você citou aqui, também estuda estas questões de Estruturas Sociais e Tabus, é só lê o que escreveu CLAUDE LÉVI-STRAUSS certa vez), você saberia e aceitaria os meus argumentos.

          Eu particularmente tenho interesse sobre os quéchuas (Inca é um termo incorreto e EUROCÊNTRICO, pois “Inca” é um título nobiliário, da nobreza quéchua, e não o nome de um povo), e procurei algo sobre a deusa “Chuqui Chinchay “, e algo sobre os Quariwarmi dentro das minhas anotações da academia e no banco de dados do DEDALUS/USP, mas infelizmente não encontrei nada sobre este tema. O que encontre foram citações em textos de apologia a causa “LG..ABCD..XZ” (eu acho que a sigla assim, inclui todo e qualquer “gênero” existente, do passado, presente e futuro, os endêmicos ou genéricos também, outros afins), e portanto, tais textos que localizei, infelizmente, eram simples panfletos ideológicos, ou eram textos com tamanho viés ideológico, e portanto, eram imprestáveis para a geração de qualquer conhecimento mais científico. Eu até poderia pesquisar mais, porém, este forte viés ideológico de início de pesquisa já me desanimou sobre o tema.
          Você poderia ter acrescentado as fontes acadêmicas de seu texto, mas você não o fez. E ainda, ter informado que a “divindade” que você citou, na melhor das hipóteses, é uma divindade secundária no panteão quéchua. Pois, da forma que você escreve, transmite a ideia de que se trata da principal divindade dos quéchuas, e este pensamento seria uma total desonestidade intelectual.
          Além do que, a “Ideologia de Gênero”, a qual você parece ser simpatizante (já lhe peço desculpas se estiver errado quanto a isto) além de ser eurocentrica/ocidental, uma vez que surgiu no contexto de questionamento dos próprios indivíduos do mundo europeu/ocidental para com a sua própria sociedade, não possui base científica pois, como ideologia, está no campo das ideias, e não na realidade da ciência.
          Pois a biologia e genética são claras e concretas: para os humanos, e para todos os mamíferos, em termos de definição do sexo e do comportamento sexual do indivíduo, só há apenas macho e fêmea. Qualquer variação deste comportamento são exceções que confirmam a regra citada. E mesmos os raros casos de indivíduos hermafroditas, ou com alguma má formação externar ou interna nos órgãos sexuais, são exceções que continuam a confirmar a regra.
          Se há indivíduos que não se identificam no padrão típico dos papeis masculinos e femininos humanos, também são exceções que confirmam a regra. E tais comportamentos, são variações que o indivíduo escolhe. E, sendo esse comportamento, na melhor das hipóteses, uma escolha individual, então, nada mais natural que este indivíduo “seja adulto/adulta” e arque com as consequências de suas escolhas, sem “mimimi”, sem fazer papel de vítima da sociedade, e sem querer que as outras pessoas deixem o seu modo de vida e sua visão de mundo, por causa das escolhas alheias.
          Portanto, felizmente, no mundo real e objetivo, não existe isto de “não binarismo” ou binarismo, pois tais termos são somente invenções ideológicas, sem qualquer embasamento na biologia ou na genética humana. O seu artigo mesmo, não provou nada sobre isto, apenas foram descrições de grupos sociais pouco significativos ou representativos dentro de suas próprias sociedades, como há havia dito antes, de forma mais concisa.

          • Só o fato de você ter que me diminuir para acrescentar valor aos seus argumentos já prova que seu discurso é apenas um monte de preconceito camuflado de discurso com embasamento teórico. Extremamente condescendente e desnecessário você vir me dizer que eu nunca estudei história ou nunca li Levi Strauss (fiz ambas as coisas, não que eu precise te provar), quem é você para fazer esse tipo de afirmações sobre mim? Pra alguém que afirma dizer que presa tanto o pensamento crítico, recorrer a argumentos ad hominem me parece um recurso bastante raso. Foi você que veio aqui duas vezes respondendo a argumentos que nunca foram dados (falácia do espantalho), única e exclusivamente para impor seu ponto de vista.

            Quanto às fontes acadêmicas, sou jornalista, não pesquisadora. Meu texto não é um ensaio, é um artigo jornalístico para web, que não tem nenhuma pretensão de fazer outra coisa além de mostrar diferenças nas formas como se constroem a identidade de gênero em diferentes sociedades do mundo.Foi você que apareceu aqui esperando o contrário e afirmando que a existência dessas práticas estava de alguma forma relacionada à prosperidade ou força de um povo, sem nunca conseguir demonstrar a relação de causa e efeito além da falácia de que correlação indica causalidade, que você certamente deve saber que não é verdade.

            E reclamar de ideologia com o profundo teor ideológico que você colocou em todos os seus comentários aqui é até irônico. É, ideologia não é só quando a gente discorda dela. Está presente em tudo, até mesmo em pesquisas científicas teoricamente isenta ou em discursos pseudo-intelectuais que camuflam ódio e intolerância. Risível vir com argumentos biológicos para justificar sua intolerância, em primeiro lugar porque sexo biológico e identidade de gênero são coisas completamente diferentes. Sexo biológico não determina papéis sociais. Identidade de gênero, essa sim uma construção social, sim. Em segundo lugar, porque seres humanos são muito mais que biologia e genética em qualquer aspecto, não é porque uma coisa é construção social que ela é falsa ou inválida. Mas não vou ficar discutindo com você isso aqui, quero só citar um parágrafo que evidencia toda a ideologia e intolerância nos seus argumentos:

            Se há indivíduos que não se identificam no padrão típico dos papeis masculinos e femininos humanos, também são exceções que confirmam a regra. E tais comportamentos, são variações que o indivíduo escolhe. E, sendo esse comportamento, na melhor das hipóteses, uma escolha individual, então, nada mais natural que este indivíduo “seja adulto/adulta” e arque com as consequências de suas escolhas, sem “mimimi”, sem fazer papel de vítima da sociedade, e sem querer que as outras pessoas deixem o seu modo de vida e sua visão de mundo, por causa das escolhas alheias.

            Se você considera que é uma escolha, por que a escolha individual de adultos é uma ameaça a seu modo e visão de vida? Por que você se incomoda com a forma com que outras pessoas escolhem viver suas vidas? Se é para vivermos sem “mimimi”, por que é permitido que determinados grupos impeçam minorias (exceções como você gosta de chamar) de viver da forma como melhor lhes convém, se isso não afeta em nada a vida desses grupos? Por que o fato das minorias ganharem direitos e liberdades incomoda tanto?

            Sinceramente, se é para todos sermos adultos “sem mimimi”, sem “fazer papel de vítimas para a sociedade”, podemos começar olhando para nós mesmos, porque o que está parecendo que você está fazendo aqui é justamente um “mimimi” com relação ao que você considera escolhas adultas de outras pessoas que não te dizem respeito em nada.

        • Natália,
          Apresentar melhores argumentos, não é querer diminuir ninguém. É simplesmente parte de que é um diálogo.
          E, pensar diferente de você, apresentando argumentos históricos, da biologia e da genética não é ser intolerante ou preconceituoso, é simplesmente saber argumentar.
          Mas, acusar alguém de “intolerante” e “preconceituoso”, pelos motivos acima, isto sim, é “desonestidade intelectual” e é ser tudo isto que você me acusou.
          Não tenho culpa se apresentei os meus argumentos, citando conceitos científicos, e você optou por esconder as suas fontes.
          Aliás, eu fiz uma hipótese da origem delas, e você não contra argumentou, portanto, por omissão, eu continuo a achar que você baseou o seu texto em simples panfletos ideológicos.
          E, na minha simples opinião, todo o seu incômodo evidencia uma intolerância e um preconceito para com os valores e o modo de vida da maior parte da população brasileira, ou melhor, da população ocidental.
          Sendo assim, não vejo o porquê de continuar dialogando com alguém cujas ideias demonstram intolerância, preconceito e não possui argumentos convincentes.
          Mas apesar de tudo, eu ainda lhe agradeço pelo diálogo.
          Abraços.

          • hahaha Apresentar melhores argumentos? Você não apresentou nenhum argumento, confundiu conceitos de identidade de gênero e sexo biológico e fez uma grande bagunça argumentativa e na sua tentativa de me descreditar para tentar defender um ponto de vista que só tem base um grande preconceito com relação a certas minorias, a ponto de sugerir que elas precisam aguentar serem desrespeitadas e excluídas por uma sociedade que não as tolera e inclusive as mata.

            Mas eu não me referia a isso, me referia ao fato de você presumir e expressar em seu texto que eu não li certos autores ou não estudei o suficiente para debater com você. Tentando assim aumentar o valor dos seus argumentos e reduzir os meus, mais uma vez recorrendo a uma falácia. Isso sim é desonesto.

            Eu sou a intolerante com “valores e modos de vida” da população brasileira? A única coisa que eu não tolero é a intolerância. A população brasileira pode acreditar no que ela quiser, desde que respeite quem escolheu outros modos de vida. Isso pode ser um paradoxo, mas é um paradoxo justificavel. Pra você, a forma como uma pessoa que você nem conhece escolhe viver a vida delas é uma ameaça ao seu estilo de vida. Para mim, é uma ameaça à liberdade e a uma sociedade tolerante e justa que pessoas pensem como você.

            “Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância.” Já dizia Karl Popper.

            Sobre ideologia, por mais que você insista que não, todos os seus comentários aqui foram extremamente ideológicos e tendenciosos, mas você tenta camuflar suas opiniões pessoais e subjetivas com ciência. Eu, ao contrário, não oculto e nunca nunca neguei minha posição pessoal sobre o tema, inclusive acredito que ela está muito clara no primeiro parágrafo do texto.

            Eu não me omiti sobre sua “sua hipótese”. Eu deixei claro lá que ela é tão atrasada que nem considera os conceitos de sexo biológico e identidade de gênero, então, claramente estamos discutindo em capos diferentes aqui. A partir de um momento que em uma sociedade alguém atribui um papel para homens, outro para mulheres, isso já é distribuição ideológica de papéis gênero. Já é uma construção social do campo das ideias e isso nada tem a ver com a biologia. A biologia não dita que mulheres e homens devem de comportar dessa ou daquela forma, adotar essa ou aquela tarefa. O que acontece é que em algumas sociedades essas construções sociais de gêneros vêm de mãos dadas com o sexo (ainda assim, em muitas há pessoas que não se encaixam), em outras os transcendem e se criam os terceiros e quartos gêneros.

            Sabe outra coisa que é uma construção social do campo das ideias? Seus tão estimados valores da sociedade. É engraçado notar como que, para você, a primeira sequer existe exatamente por ser “invenção ideológica”, e a segunda, também uma invenção ideológica, é tão importante que não pode sequer ser questionada e é, inclusive, demonstração de prosperidade de um povo.

            E..

            “Sendo assim, não vejo o porquê de continuar dialogando com alguém cujas ideias demonstram intolerância, preconceito e não possui argumentos convincentes.”

            Penso exatamente o mesmo de você. Inclusive, temos justamente essa política aqui no blog que não toleramos a intolerância, portanto quem faz comentários machistas, racistas, homofóbicos, transfóbicos ou qualquer outro fóbico é banido. Acho que você já tinha passado dos limites quando sugeriu que pessoas trans “tem que aguentar sem mimimi” o que quer que a sociedade brasileira e seus valores achem delas, mas resolvi te responder pelo debate. Passe bem.

  3. O fato de existirem ou de terem existido culturas que admitiam tais práticas nada compravam se são ou estavam corretas ou melhor adaptadas ao meio. Tanto é verdade que os exemplos citados são de culturas que foram incapazes de manter a própria independência política, e foram dominadas por outros povos. E que hoje, possuem pouca importância na história da humanidade.
    E tampouco são exemplos de liderança global ou de desenvolvimento econômico ou humano.
    E, inspirando-se em Marx Weber, a pergunta que cabe é: qual cultura e quais valores foram suficientemente fortes para dominar e liderar o desenvolvimento da humanidade? A resposta mais obvia e simples estaria na análise do desenvolvimento histórico da humanidade, a nos atuais indicadores do PIB (Produto Interno Bruto) e no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que colocam como mais desenvolvidos os países de cultura ocidental judaico-cristão (Europa, EUA, Comunidade Britânica) e de cultura budista/confucionismo (Japão e Coréia do Sul ,e, China). O certo é que, o que incentivou o grande desenvolvimento destes países não foram as dúvidas ou o relativismo de valores constantes na “teoria e da ideologia de gênero” ou do “politicamente correto”. Aliás, mais certo ainda, é que possivelmente a perda dos valores históricos dos países de cultura européia e do sudeste asiático, podem colaborar para a perda do desenvolvimento de tais países, como já vemos na perda de importância e da liderança política da Europa de hoje, se comparada ao que já foi até a segunda metade do século XX.

    • “O fato de existirem ou de terem existido culturas que admitiam tais práticas nada compravam se são ou estavam corretas ou melhor adaptadas ao meio. Tanto é verdade que os exemplos citados são de culturas que foram incapazes de manter a própria independência política, e foram dominadas por outros povos.”

      Não fui eu que tracei a relação entre a existência de gêneros não binários e prosperidade. Acredito que uma coisa não tenha uma relação de causa e efeito com a outra. Tanto é verdade que culturas que consideravam apenas 2 gêneros também foram dominadas por outras em diversos momentos históricos, inclusive, já ocorreu de culturas com mais de dois gêneros dominarem culturas binárias (Império Inca, Império Otomano). Não é o fato de uma cultura ser binária que a torna superior ou inferior a outra, é apenas uma demonstração da diversidade de culturas que existe nesse planeta. Aliás, o próprio conceito de culturas inferiores e superiores é extremamente problemático, basta estudar um pouquinho de antropologia para entender. Culturas que coexistem em um mesmo tempo são igualmente adaptadas e evoluídas. Não se pode usar a régua da cultura ocidental para medir todas as outras.

      “E que hoje, possuem pouca importância na história da humanidade.”

      Falso, obtuso e eurocentrista.

      “E tampouco são exemplos de liderança global ou de desenvolvimento econômico ou humano.
      E, inspirando-se em Marx Weber, a pergunta que cabe é: qual cultura e quais valores foram suficientemente fortes para dominar e liderar o desenvolvimento da humanidade? A resposta mais obvia e simples estaria na análise do desenvolvimento histórico da humanidade, a nos atuais indicadores do PIB (Produto Interno Bruto) e no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que colocam como mais desenvolvidos os países de cultura ocidental judaico-cristão (Europa, EUA, Comunidade Britânica) e de cultura budista/confucionismo (Japão e Coréia do Sul ,e, China).”

      Correlação não implica em causalidade. Ainda estou tentando entender o caminho lógico de causa e efeito que vocês tentam criar nessa questão.

      “O certo é que, o que incentivou o grande desenvolvimento destes países não foram as dúvidas ou o relativismo de valores constantes na “teoria e da ideologia de gênero” ou do “politicamente correto”. Aliás, mais certo ainda, é que possivelmente a perda dos valores históricos dos países de cultura européia e do sudeste asiático, podem colaborar para a perda do desenvolvimento de tais países, como já vemos na perda de importância e da liderança política da Europa de hoje, se comparada ao que já foi até a segunda metade do século XX.”

      Todo império que já existiu até hoje na história perdeu poder em algum momento. Nenhuma liderança é eterna. Seu argumento cai se pensamos que outros impérios importantes, como o Português (cristão, ocidental, binário), é hoje um dos países mais pobres da Europa. Não vamos nos esquecer do Império Britânico, que é cristão, ocidental e binário e o responsável por levar o binarismo e os “valores judaico-cristãos” para boa parte do mundo, criminalizando muitas vezes as práticas fluidas nos lugares que dominou, e, como você mesmo apontou, viu sua liderança mundial ser diminuída a partir da segunda metade do século XX, mostrando que não há a relação de causa e efeito que vocês querem demonstrar. Essas sociedades desapareceram ou viram seu poder diminuir exatamente como aconteceu com milhares de outras sociedades binárias, não sendo um indicador de força ou prosperidade de nenhum povo.

  4. Adorei o texto
    Sempre gostei das reflexões de vcs (além dos textos sobre viagens q são ótimos) e fiquei feliz de ver representatividade LGBT
    Parabéns 👏👏👏👏

    • Olá Rodolfo, obrigada pelo comentário. Fico feliz que tenha gostado. É a diversidade desse mundo que o faz tão bonito 🙂

      Abraços!

  5. Que história incrível, obrigada por dividir conosco. Eu como estudante de turismo, e apaixonada por Historia , viajo muito com vc. Muito obrigada.

    • Olá Thais, obrigada pelo comentário 🙂 Eu também amo história e pesquisar esse tipo de coisa para o blog é um prazer

      Abraços!

    • Pra começar, eu gostaria de entender qual é a relação lógica de causa e efeito que você traçou. Como uma coisa pode ter levado a outra?

      Em segundo lugar, não sei se você leu o texto, mas lá eu digo que esse tipo de representação de gênero surgiu em TODOS os continente e em TODAS as épocas. Então, sim, muitas sociedades consideradas prósperas e desenvolvidas em seu tempo possuíam gêneros não binários, como o próprio Império Inca, citado no texto, o Império Otomano que reconhecia os köçek. Achar que o mundo que a gente observa na nossa curta experiência de vida em termos de humanidade é definitivo é muita miopia histórica. As sociedades estão em constante transformação e impérios nascem e morrem com o passar dos anos além, é claro, de serem barbaramente dizimados por muitas dos povos que você provavelmente considera “civilizados”.

      Agora, se pra você só é válida se for uma sociedade existente e próspera nos dias de hoje, ainda assim seu argumento não é tão forte. Alguns dos países mais desenvolvidos no mundo são também pioneiros em aceitar os direitos dos transexuais e reconhecer as identidades de gênero fluidas. A Dinamarca foi o primeiro país do mundo a tirar a transexualidade da lista de doenças mentais como parte de seus esforçar de desestigmatizar e incluir os transgêneros em sua sociedade. Na Noruega as pessoas tem o direito de mudar de gênero oficialmente sem precisar passar por cirurgia de mudança de sexo, ou passar por longos e complicados tramites que normalmente são pedidos em outros países, o que também coloca o país na vanguarda do mundo em relação aos direitos LGBT. Por isso, pense outra vez 😉

        • No caso da Alemanha, o aceitar esta opção de terceiro gênero se restringe aos casos comprovados de “hermafroditismo” e que são extremamente raros no número total de nascimentos no país.
          Acho que este argumento não seria válido no momento.
          Porém, parece existir um caso assim no Canadá. Talvez seja interessante você dar uma olhada.

          • Ei José Duarte, acredito que mesmo sendo restrito a crianças intersexuais vale sim como argumento, já que se relaciona com o caso da República Dominicana, por exemplo, citada no post. Não é o único caso do mundo em que essa condição se enquadra como terceiro gênero 🙂

          • E nao só a alemanha, varios países desenvolvidos reconhecem a não-binariedade de gênero e sexo, países como nova zelândia, canadá, austrália…

          • A interssexualidade, ou “hermafroditismo” na verade é bem comum, ainda mais entre a população transsexual e transgenero, devido as transições de sexo, então só argumentos idiotas pra tentar invalidar a não-binariedade. kkk Arrasou Natalia

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