Posso te acompanhar até o aeroporto?

Toda vez que visito Londres tento marcar um encontro. Ele não é meu ex namorado, nunca chegamos a tanto, mas fomos nossos primeiros caras. Ele foi meu primeiro, e eu o primeiro dele. Isso nos aproximou como se tivéssemos sustentado um longo relacionamento, daqueles de apresentar família e tudo. Logo em seguida, ele se mudou para a capital inglesa e nunca mais voltou ao Brasil, nem a passeio. Não consegui o encontro de novo, ele se esquiva de mim como bagre ensaboado, ainda que demonstrando genuína vontade de me ver. Dessa vez eu queria mesmo ter tomado um café com o menino que, a essa altura, já é um homem. Me dei conta de que em 2018 completamos uma década daquele beijo.

Foi desajeitado, como haveria de ser. Eu estava no Rio a trabalho por uma semana, e calhou dele estar lá no mesmo período justamente aplicando para o visto inglês, porque em sua BH natal não havia o consulado. Não me lembro de como a gente se conheceu, só sei que falávamos pelo falecido MSN sem nunca ter deixado segundas intenções às claras. Uma definição de status “No Rio” trouxe a mensagem: “Estou aqui também, precisamos nos conhecer!”, disse. Apesar do estômago ter dado um looping completo, respirei fundo e pensei com meus botões que ele podia nem ser gay (nota: o gaydar se desenvolve com o tempo e a necessidade de sobrevivência na selva).

Marcamos na Baía de Botafogo, bem de frente ao Pão de Açúcar. Por lá ficamos, conversando por horas a fio, uma sintonia impressionante. Mas calma, sem beijo ainda. Os dois éramos muito novinhos e dar o primeiro beijo gay é dez vezes mais difícil do que o primeiro beijo hétero. Para um, tudo te empurra, como se fosse uma obrigação natural. No outro, os fantasmas vêm assombrar: é errado, não é normal, e essas baboseiras todas que se repete por aí. Fomos embora depois de um abraço, mas ficou a vontade de alguma coisa a mais, sem entendermos direito o quê. A confusão fica até bonita com o distanciamento.

Onde ficar no Rio de Janeiro: Laranjeiras e Catete

Dois dias depois estava marcado para a gente assistir ao filme “Les Chansons d’Amour”, do diretor francês Christophe Honoré, também em Botafogo. Cheguei cedo, minhas mãos suavam. Assistir a um filme francês sobre amor, com um menino, só podia ter um resultado. Ele não apareceu.

Entrei na sessão puto da vida e chorei em uma ou duas cenas protagonizadas pelo muso Louis Garrel. Sentia que era o mais miserável e desprezível dos seres enquanto saía cabisbaixo da sala, e dei de cara com ele. Estava afobado, me pediu mil desculpas porque se atrasou, se perdeu, o Rio de Janeiro, o celular. Respondi meio seco que precisava ir ao aeroporto para resolver um problema com a passagem e ele pediu para me acompanhar. Aceitei, meio ranzinza.

Sentamos em um daqueles assentos altos no fundo do ônibus e só havia uma senhorinha lá na frente, olhando pela janela. Trocamos meia dúzia de palavras sobre o filme e ele me tascou um beijo. Paralisei, com os olhos estatelados de susto. Ele me perguntava meio assustado: “O que foi? Não era isso? Você não queria também? Eu confundi as coisas?”.

Lembro de ver a Igreja da Penha lá no horizonte enquanto voltava para dentro do meu corpo. E devolvi o beijo, um beijaço de filme francês. Apesar de ter ido embora me sentindo culpado, lembro perfeitamente da sensação de fogos de artifício explodindo dentro de mim. Sabe quando depois de provar alguns sapatos do número que não é o seu, finalmente acha aquele que se encaixa? Essa foi a sensação.

Tanta coisa aconteceu nessa década que se passou. Gostaria de encontrar minha versão que morria de medo de ser gay e falar para ele: vai ficar tudo bem. Voltando ao presente, em Londres, depois de algumas tentativas de reencontro frustradas, ele deu uma última cartada: “Então posso te acompanhar até o aeroporto?”.


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Victor Gouvêa

Meu pai sempre me disse que a melhor coisa da vida era viajar. Eu acreditei. Misturei as formações em Turismo e Jornalismo para viver de viajar e contar tudinho. Parti de uma cidadela de 30 mil habitantes para morar em SP, EUA e Alemanha, visitar mais de 40 países (e contando) e acumular as histórias mais malucas.

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5 comentários sobre o texto “Posso te acompanhar até o aeroporto?

  1. Nossa, acho que virei seu fã: pelas suas histórias contadas aqui, pela sua forma de escrever e por ter uma “poesia” dentro de você!
    Parabéns!

    1. Oi Rsoi, que bom que você gostou. Se eu contar como terminou a história ela deixa de ter todos os desdobramentos que você imaginar. Obrigado por ler a coluna, volte sempre =)

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