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Atlas: Argentina, Espanha

Os muitos sotaques do espanhol

Minha primeira professora de espanhol era chilena e, como toda boa chilena, conjugava a segunda pessoa do singular com a letra “i”. “Hablai español?“, perguntam por aquelas bandas. Eu só saí da sala de aula em São Paulo e passei a viver a língua em sua totalidade quando me mudei para a Argentina. Ali, a segunda pessoa do singular também não se conjuga da forma como eu havia aprendido nos livros.

“Vos no sabés nada, boluda”, me diziam os portenhos.

Eu cheguei a dormir abraçada com a apostila, em posição fetal, pensando que eu nunca aprenderia a falar bem aquela língua. Porque, ao contrário do que reza o senso comum, o espanhol não é um português falado com a língua presa. Por mais que a gente tenha mais facilidade para entendê-los que os falantes de qualquer outro idioma, falar bem, amigue, falar bem é outra história. Não basta ter tantas conjugações verbais quanto em português e usar de fato todas elas. Eles ainda tinham que inventar uma diferente a cada fronteira. Mas tudo bem, pelo menos a segunda pessoa do plural eu tinha dominado. A conjugação do “ustedes” era fácil, parecida com a forma como a gente fala e ainda era a mesma para a terceira pessoa. Mas foi chegar à Espanha que tudo caiu por terra. Ali, o “vosotros” imperava, com seus verbos estranhos com muitas vogais. Me rebelei: “Não estou nem aí, eu quero falar o espanhol latino, mesmo”. Mas, com a convivência diária, o vosotros acabou encontrando seu caminho para o meu cérebro e foi incorporado à minha habla, contra minha vontade.

Leia também: Espanhol não é português falado errado

Passando um tempo em cada lugar e convivendo com tantas nacionalidades diferentes, meu espanhol hoje em dia passa longe de qualquer etiqueta. É uma mistura danada de fragmentos de língua aprendidos em cada experiência. Para dizer que algo é legal, posso dizer que “mola” ou que é “guay” se estou falando com um espanhol. “Re copado” com argentinos. Que é “chévere” ou “bacano” com colombianos, “bacán” com chilenos e peruanos ou “padre” com mexicanos. Ou talvez colocar tudo junto e misturado em uma mesma frase e torcer para que meu interlocutor me entenda, que é o que normalmente acontece.

Espanhol

A maior parte dos mal-entendidos ocorre quando as palavras existem em mais de um país, porém com significados diferentes em cada parte. Ainda me lembro do tom de vermelho escarlate do rosto de um colega de sala argentino quando amigas disseram: “me lo puedes coger, por favor?”, referindo-se a um livro que estava próximo a ele. Em alguns países da América Latina, o verbo coger significa ter relações sexuais. Em outros e na Espanha, é apenas um verbo de uso corriqueiro que significa pegar algo.

Já em Buenos Aires, fui com um amigo colombiano a uma vendinha da esquina. Ele foi logo dizendo à senhorinha dona do local: “Me regalas una empanada?”. A senhora fechou a cara e, com o mau gênio típico dos portenhos, foi logo dizendo que não regalava nada para ninguém, não senhor. É que, enquanto na maior parte do mundo hispânico regalar é dar de presente, na Colômbia é simplesmente dar ou passar algo para alguém, não necessariamente de graça.

Na Colombia, tentei pedir um café e um enrolado de queijo em uma lanchonete. O que recebi foi uma surpresa: café com leite e um pastel romeu e julieta. Ao questionar o garçom, ele começou a rir: na Colombia, um café vem sempre com leite. Se quiser um café puro, precisa pedir um tinto. E é claro que todo mundo deveria saber que o enrolado de queijo vinha também com goiabada.

A palavra paja, dependendo do lugar, pode tanto significar preguiça, quanto mentira, quanto masturbação. Polla, no Chile, é loteria. Na Espanha, é uma forma de apelidar o órgão sexual masculino. Porro pode ser um ritmo musical na Colômbia ou maconha em um monte de outros lugares e concha, que é um palavrão na Argentina, pode ser conchinhas do mar ou inocentes cascas de fruta por aí. É impossível tentar aprender espanhol sem dar muita má nota mundo afora.

Foto destacada:  Gustavo Frazao, Shutterstock


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Natália Becattini

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma e compartilho minhas impressões de mundo também no instagram @natybecattini e no twitter.

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4 comentários sobre o texto “Os muitos sotaques do espanhol

  1. É isso mesmo…
    Eu já tive a experiência com o espanhol de Espanha, Argentina, Uruguai e México…
    São todos diferentes mesmo, mas não precisa se exigir tanto quando estudamos como segundo idioma, como você mesma disse, essas situações um tanto constrangedoras ou mesmo engraçadas acontecem até mesmo pra eles que tem o espanhol como língua materna. ´
    Eu odiava espanhol, mas fui me apaixonando aos poucos e acho suuuuper interessante essas diferenças. Ah! e o clipe adicionado à matéria é perfeito. Eu acompanho esses caras e o trabalho deles é um barato 😀

    1. É verdade, Alda! Até mesmo entre eles, eles adoram comentar e rir dessas diferenças. Eu também sou apaixonada pela língua, adoro ter uma oportunidade de falar.

      Abraços!

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