Tags:

Vivo por aí, trombando em paredes e perdendo as coisas

Eu já estava na metade do caminho para o ponto de encontro de um tour pela história de Budapeste na Segunda Guerra Mundial quando me dei conta de que tudo parecia leve demais. “A câmera!”, exclamei, levando as mãos à cabeça e dando meia-volta. Caminhei o mais rápido que pude até o quiosque do parque no qual eu havia tomado uma cerveja mais cedo, mas ninguém tinha visto nem sinal do equipamento.

Já sem esperanças, certa de que acrescentaria minha Cannon T3i velha de guerra à minha já enorme lista de coisas perdidas nessa curta passagem terrena, fui tentar a sorte no restaurante no qual comi rapidamente um sanduíche antes de seguir para o meu tour. Assim que me viu passar pela porta, a moça da limpeza veio correndo ao meu encontro. “Ei, menina, guardei sua câmera para você. Aqui, Fulano, era ela que estava sentada ali. Pode devolver a câmera”.

Um dos motivos pelos quais eu ainda não perdi a fé na humanidade está nas almas bondosas, como a dessa mulher cujo nome jamais saberei, mas por quem serei sempre grata. Ela não é a única responsável por eu ainda ter minha câmera guardada no armário neste exato momento. Incontáveis foram as vezes em que eu a esqueci por aí e ela voltou para mim pelas mãos de conhecidos e estranhos.

Mas se minha câmera sempre encontra seu caminho de volta, o mesmo não posso dizer do meu celular. Desde 2014, foram um iPhone 4, um iPhone 5s, um Samsung que eu não me lembro o modelo, um Sony Xperia Z2, um Sony Xperia Z3 e um Motorola Z2 Play que viraram fumaça nas minhas mãos em situações que eu nem sempre sei explicar muito bem. Na última vez, eu havia acabado de chegar ao Equador. Meu celular desapareceu misteriosamente dentro do ônibus do aeroporto de Quito para o centro e, embora eu desconfie de uma senhora com uma criança sentada perto de mim e que desceu do ônibus antes mesmo do veículo arrancar no ponto inicial, jamais saberei ao certo como isso aconteceu.

Após descer do ônibus desesperada, eu causei uma pequena comoção no aeroporto, chorando enquanto tirava todas as coisas da mochila só para confirmar que o celular que eu nem havia acabado de pagar já não me pertencia mais. Fui levada para o hostel pelo carro da polícia, que foi muito prestativa em todos os momentos. O meu desespero era grande porque, junto com o celular, se foi também a única forma de movimentar minha conta bancária até o final daquela viagem, que duraria ainda dois meses.

É que, duas semanas antes, enquanto comia uma empanada em uma barraquinha de rua em Santa Marta, na Colômbia, acabei não guardando a carteira imediatamente após receber o troco da minha compra e, como resultado, ela acabou ficando esquecida no murinho onde eu estava sentada. Com ela, se foram todos os meus cartões e cerca 200 dólares em dinheiro.

Por sorte, minha etapa de viagem solo terminou com o passeio na viatura policial até Quito e eu só não entrei numa fria porque o boy que me esperava por lá me ajudou a conseguir dinheiro e, entre risos, saia catando as coisas que eu deixava para trás cada vez que deixávamos um restaurante: jaqueta, câmera, mochila. A experiência me fez pensar que eu talvez deveria ser interditada de viajar sozinha, pela minha própria saúde material.

Há ainda outros casos que, hoje em dia, eu conto para os amigos em mesas de bar para que eles se divirtam com a minha sina pessoal. Como a icônica viagem pela Andaluzia, na qual eu deixei uma lembrancinha minha em cada cidade: meus óculos escuros ficaram em Córdoba, minha calça jeans e camisa favorita em Málaga e meu estojo inteiro de maquiagem em Sevilha. Ou dia em que me roubaram duas vezes em menos de vinte e quatro horas em Barcelona. Na primeira vez, o telefone. Vinte horas mais tarde, cinquenta euros e um cartão de metrô. A minha fama é tanta que já virei até marco no calendário de alguns: “Réveillon, ok. Carnaval, ok. Naty roubada, ok. Bora começar 2018!”, disse uma amiga ao saber do meu último episódio.

Cabeça de Vento

É importante frisar que, apesar de todas essas desventuras, eu nunca, nunquinha na vida, fui assaltada. Nunca tive uma arma de qualquer tipo apontada para mim ou tive minha integridade física ameaçada. É tudo fruto da mais autêntica falta de atenção. Minha mãe não cansa de me dizer que sou bastante lerda, e eu adotei a medida de segurança de só contar para ela do ocorrido após algumas semanas. Preciso que, primeiro, minha raiva comigo mesma passe para que eu possa rir da minha estupidez em vez de ficar ainda mais frustrada.

Mas, antes que vocês façam como ela, devo alertar que me dizer que eu preciso ser mais atenta não adianta nada. Já ouvi esse conselho dezenas de vezes ao longo da vida e ainda não descobri como mudar. Já tentei colocar a culpa no meu ascendente em peixes, em conspirações do universo contra minha pessoa e no karma (sei lá o que eu fiz em outras vidas), mas a distração é mais forte que eu e parece ser um traço de personalidade.

Costumo dizer que sou uma sonhadora que está sempre absorta pensando profundamente nos assuntos que realmente me fascinam e que dedico toda a minha energia criativa a eles, a ponto de não sobrar atenção para temas tão terrenos quanto celulares e cartões de crédito. Mas você não precisa cair nesse conto se não quiser, isso não muda o fato de que eu vivo por aí trombando em paredes e perdendo as coisas.


Compartilhe!



Com o 360meridianos, você encontra as melhores opções para planejar a sua viagem. Confie em quem já tem prática no assunto!

 

Reserve seu hotel com o melhor preço e alto conforto

 


Veja as melhores opções para seguros de viagem

 


Transfira dinheiro para o Brasil e exterior com menos taxas

 


Alugue veículos com praticidade e comodidade

 




Quer 70 páginas de dicas (DE GRAÇA!)
para planejar sua primeira viagem?




Natália Becattini

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma e compartilho minhas impressões de mundo também no instagram @natybecattini e no twitter.

  • 360 nas redes
  • Facebook
  • YouTube
  • Instagram
  • Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

14 comentários sobre o texto “Vivo por aí, trombando em paredes e perdendo as coisas

  1. Ai Naty não acredito!! Eu sou igual! Ano passado em Barcelona roubaram meu casaco numa balada, aí como era fevereiro e tava frio, uma amiga foi me abraçando no metrô: roubaram os celulares das duas! (Dois roubos em menos de 24 horas em Barcelona: ok!). Depois mais uma vez me roubaram o celular e na terceira peguei o cara com a mão dentro da minha bolsa! Sempre na linha 4 amarela de Barcelona, agora ando com o alerta de perigo ligado! Na semana passada foi a carteira de dentro da minha mochila num posto de gasolina. No Espírito Santo deixei a câmera pendurada no encosto da cadeira e só lembrei 150 km depois! As moças do restaurante eram uns amores e tinham guardado! E entre meus esquecimentos, tenho a insuperável história de quando estava esperando um ônibus fazia 20 minutos, vi que ele vinha descendo a rua, ele parou na minha frente e foi embora, e eu esqueci de entrar! E eu nem tinha celular na época! E adivinha só: eu sou de Peixes! É tudo uma conspiração astrológica!

    1. hahahah Jacque! To chorando de rir aqui pq essas histórias poderiam totalmente ter acontecido comigo! Menina, essa do ônibus já aconteceu comigo algumas vezes. hahahah depois falam que astrologia é mentira!

    1. hahah que droga, hein, Igor! Mas entendo seu amigo, sou bem capaz de fazer uma coisas dessas

      (no fim de semana quase deixei minha carteira no balcão de um bar)

  2. Minhanossasenhora! Seis celulares em 4 anos?? Olha, desculpa dizer, mas seu sofrimento rotineiro me trouxe um certo alívio, preciso confessar. rsrs
    Essa semana perdi 50€ que estavam no bolso da calça. Nunca deixo dinheiro no bolso justamente por medo de perder, mas esse eu deixei pra guardar logo depois. Outro erro fatal do dia: guardei o celular no mesmo bolso, com certeza quando peguei o cel o dinheiro caiu. Percebi assim que desci do bus, ainda corri de volta pra ver se achava, mas deve ter ficado na rua mesmo. Na hora só mentalizei que quem achasse o dinheiro estivesse precisando muito, pra me sentir pelo menos útil contribuindo pra um milagre na vida de alguém. Eu raramente perco coisas, por isso me sinto muuuito culpada quando isso acontece.

    Obrigada por me trazer conforto. ahahahha

  3. Ri mas fiquei preocupada. Eu faço uma “lista mental” do que levo comigo pra rua. Celular, carteira, chave. Antigamente tinha o cigarro também, quando verifico mentalmente a lista ele ainda está lá, apesar de já ter dois anos que ele não está no meu checklist. Celular, carteira, cigarro, chave. É o único jeito que me previne de não esquecer tudo por aí também.

    1. Todo mundo me fala isso! Eu não perco as coisas tanto assim, no dia a dia normal, porque aí só carrego o essencial. O problema é que viajando tem muita coisa nessa lista hahaha

      Abraços!

      1. Sou muito esquecida também. Então adotei algumas coisas para me ajudar: uma capa de celular verde-limão e uma bolsinha a tiracolo que só cabe ele…não coloco em outro lugar. E me policio pra não cair na tentação de jogar a carteira dentro da bolsa ou apoiar em mesa…faço um grande esforço pra colocar no mesmo bolso da bolsa…quase um ritual. E não solto absolutamente NADA das minhas mãos…se soltar, fica! E conto quantos volumes tenho: quantas malas, bolsa, mochila…e fico contando. Senão deixo pra trás. Já deixei mala, computador, celular, óculos, travesseiro de viagem…sorte que ou tenho uns anjos da guarda comigo ou consigo recuperar. Mas agora tomo estes cuidados acima….e tem dado certo. Tem que ser metódica: tirou o óculos ou anel pra lavar o rosto e as mãos guarda imediatamente na bolsa…tirou dinheiro pra pagar conta guarda a carteira na hora e no mesmo lugar…e assim vai. Você vai ver que dá certo! É chato… mas é menos chato que perder os objetos!

        1. Maria, o único jeito vai ser eu adotar esses rituais aí! O problema é que eu esqueço dos rituais que criei também! hahahah Mas obrigada pela dica!

2018. 360meridianos. Todos os direitos reservados. UX/UI design por Amí Comunicação & Design e desenvolvimento por Douglas Mofet.